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Outubro Rosa

Que marcas deixa o cancro da mama? Duas mulheres, dois corpos, a mesma vontade de viver

Inês e Beatriz estão ambas na casa dos 30 e a lutar contra o cancro da mama. Aqui, partilham as histórias que os seus corpos contam, entre medos e conquistas, fragilidades e esperanças. Veja o ensaio fotográfico, a propósito do Dia Nacional de Prevenção do Cancro da Mama, 30 de outubro.

Foto: Inês Costa Monteiro
29 de outubro de 2021 Inês Costa Monteiro

Inês Klinesmith, 32 anos, 31 quando foi diagnosticada.

Como desconfiaste que poderias ter cancro? 

Foi por acaso ao passar a mão na mama depois do banho.

Quando foi o diagnóstico?

Os exames começaram em setembro, o diagnóstico chegou em outubro de 2020.

Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro
Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro Foto: Inês Costa Monteiro

Qual foi a primeira coisa que pensaste/sentiste?

"Como é que vou cuidar das pessoas à minha volta!?"

Quanto tempo passou até à operação?

Um mês, fui operada a 5 de novembro de 2020.

Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro
Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro Foto: Inês Costa Monteiro

Que tratatamentos fizeste?

Cirurgia (lumpectomia), radioterapia e hormonoterapia (iniciada em dezembro 2020 e que durará +/- 10 anos a menos que os efeitos secundários sejam insuportáveis).

O que foi mais dificil?

Não saber o que esperar, não saber quando poderia voltar a trabalhar, voltar à minha vida ativa, e não saber quais as consequências permanentes. Não poder ter ninguém presente nas consultas e exames de diagnóstico devido à pandemia - foi um bocado isolador.

E mais fácil?

Saber que lá fora tinha o apoio da minha família, namorada e amigos.

Qual era a expetativa vs a realidade que acabou por acontecer?

Expetativa: recuperação (mais) rápida que tudo (pós-operatório e radioterapia). Realidade: ainda não estou recuperada físicamente, ainda não consegui voltar à minha vida/atividade antes do cancro.

Qual era o teu maior medo?

Sempre foi - quando é que isto vai voltar? E se voltar o que é que acontece?

Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro
Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro Foto: Inês Costa Monteiro

Como arranjas força todos os dias?

Viver é uma surpresa e luta constante para todos. Ainda assim, tenho vontade de acordar todos os dias e aproveitar ao máximo (seja trabalhando, nos meus hobbies ou a relaxar). Aprendi a relaxar, a descansar durante o processo da doença.

O que é mais difícil, hoje?

Fazer exercício, fazer planos. Voltar ao exercício porque me falta, e porque ainda não tenho a mobilidade que tinha no braço/ombro direito, fazer planos porque nunca sei se vou estar capaz e não quero cancelar e desapontar as pessoas.

Como foi a reação da tua parceira?

Difícil, talvez até mais do que a minha. Ficou revoltada e preocupada. Eu sempre encarei tudo com mais tranquilidade.

Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro
Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro Foto: Inês Costa Monteiro

Como é voltar à intimidade sexual?

Devagarinho. São muitas dores físicas e complexos que se vão metendo no meio. Deixei de confiar no meu corpo e isso tem impacto na minha forma de estar.

O que é que ninguém te contou sobre a doença?

Acho que me contaram tudo o que necessitava de saber, mas cada caso é um caso e cada paciente também, logo a maneira como experienciamos a doença é inevitavelmente diferente e não há ninguém que nos possa preparar para todas as emoções pelas quais passamos.

Qual era a pergunta que gostavas que te fizessem?

Não sei, todas. Nenhuma pergunta me assusta.

Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro
Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro Foto: Inês Costa Monteiro

Qual é a pergunta para a qual não tens resposta?

O cancro vai voltar?

Como se vence o medo?

Acho que não se vence, aprende-se a lidar com ele, a integrá-lo nas nossas vidas, no dia-a-dia.

Qual era a coisa que gostavas de dizer a uma mulher que descobrisse agora a doença?

É difícil, mas és mais forte do que pensas. Tens o meu apoio e ajuda.

Qual é o pensamento que manténs presente?

Que quero aproveitar a minha vida, continuar a experenciar o mundo e a espalhar empatia. A vida não é uma competição.

Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro
Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro Foto: Inês Costa Monteiro

Beatriz Viegas, 34 anos.

Como desconfiaste que poderias ter cancro?

Senti um pequeno nódulo durante a apalpação que me levou a fazer exames complementares.

Qual foi o diagnóstico?

Carcinoma invasivo, grau 2 aka cancro de mama , sem tipo definido.

Qual foi a primeira coisa que pensaste/sentiste?

Como é que vou tratar isto com o país em pleno colapso (vivia-se a pandemia a 1000% na altura )

Quanto tempo passou até à operação?

No dia em que soube que era cancro, marquei logo a cirurgia e uma semana depois fui operada.

Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro
Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro Foto: Inês Costa Monteiro

Que tratatamentos fizeste?

Cirurgia para retirar o tumor, quimioterapia 16 sessões, radioterapia 20 sessões e agora terei de fazer hormonoterapia durante 5 anos.

O que foi mais dificil?

A hormonoterapia. Os efeitos são mais persistentes. Na quimioterapia tens muita medicação para controle dos sintomas. Na hormonoterapia, tens de aprender a viver com eles.

E mais fácil?

A radioterapia.

Qual era a expetativa vs a realidade que acabou por acontecer?

Pensava que tudo seria horrível e que a vida iria ser muito complicada com um cancro, mas afinal até correu bem e tentei o meu melhor para minimizar os efeitos.

Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro
Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro Foto: Inês Costa Monteiro

Qual era o teu maior medo?

Ficar dependente fisicamente de alguém.

Como arranjas forças todos os dias?

Tento manter a sanidade mental: agradeço, relativizo, tento manter a mente ocupada com coisas do bem e para o bem.

O que é mais difícil, hoje? 

Exercício, a hormonoterapia deixa-me um bocado limitada nos movimentos. É um dos efeitos secundários.

Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro
Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro Foto: Inês Costa Monteiro

Como foi a reação do teu parceiro?

Sempre presente. Fez de tudo para minimizar os efeitos dos tratamentos e sempre em prol da calma e não da ansiedade.

Como é voltar à intimidade sexual?

É um work in progress. Ha muitos efeitos secundários físicos e psicológicos por ultrapassar.

O que é que ninguém te contou sobre a doença?

Muitas coisas. Há pouca informação sobre como manter a qualidade de vida com um cancro. Áreas tais como alimentação, exercício, cosmética.

Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro
Cancro da mama. Duas sobreviventes, um ensaio fotográfico @ Inês Costa Monteiro Foto: Inês Costa Monteiro

Qual era a pergunta que gostavas que te fizessem?

É possível ser feliz mesmo com cancro? Sim. O cancro não me define.

Como se vence o medo?

Equipa-se com armas do "bem": gratidão, calma, positivismo, esperança, amor.

Qual era a coisa que gostavas de dizer a uma mulher que descobrisse agora a sua doença?

Que primeiro que tudo ela é uma mulher e cancro não a define. Que não deve nunca perder a sua identidade por causa de um cancro.

Qual é o pensamento que manténs presente?

Que eu sou a mesma agora e sempre. Com uma dose de químicos no sangue, mas a mesma. 

Fotografia: Inês Costa Monteiro
Maquilhagem: Catarina Serrano

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