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E depois do cancro da mama? “O corpo nunca volta a ser o mesmo”

No mês dedicado à luta contra o cancro da mama, um médico e uma sobrevivente relatam à Máxima tudo o que vem depois da superação da doença, da recuperação à aceitação de que há uma série de terapêuticas a manter e estigmas a superar, passando pelo tema da reconstrução mamária.

Foto: Rebekah Vos / Unsplash
26 de outubro de 2021 Rita Silva Avelar

O que acontece a um corpo que passa por uma experiência dolorosa como a quimioterapia ou uma mastectomia? Apesar de cada história ser uma história, e cada cancro ser um cancro, há superações que todas as mulheres passam. Um tema que, pelo estigma da doença, pela importância da saúde mental e de quebrar tabus, é aqui discutido por um médico e uma sobrevivente, no mês em que se assinalam o Dia Mundial da Saúde da Mama e o Dia Nacional de Luta Contra o Cancro.

Marina Sousa, 39 anos, descobriu que tinha cancro da mama prestes a completar 34 anos, no verão de 2016. Superou a doença, interiorizou rotinas, mas o "depois" também fez parte da sua luta. "O facto de eu ter realizado um esvaziamento axilar tornou tudo mais complicado para a recuperação física. Nem toda a gente passa por isso" começa por contar à Máxima, sobre a operação destinada a tirar todos os gânglios da axila. "Foi necessário porque o meu cancro era do tipo triplo negativo - que é um cancro que não tem receptores hormonais e tem características um pouco diferentes pela questão de evoluir mais rapidamente, e com mais probabilidade de metáteses (o que aumenta a probabilidade de passar para a axila). Por isso, e por ter o gânglio sentinela positivo, tive que fazer o esvaziamento axilar, o que provocou uma trombose linfática no pós-operatório", explica, acrescentando que esta consequência não é regra para todas as mulheres, e que cada caso é um caso.

Assim que foi possível, Marina fez dois meses de fisioterapia, ainda antes de iniciar a radioterapia (isto porque fez primeiro quimioterapia, depois a operação e em seguida a radioterapia). "Com o retrocesso muscular que a radioterapia provocou, voltei a fazer fisioterapia durante um mês e meio. O corpo não volta a ser o mesmo, pela questão do esforço físico, já que o braço deixa de ter gânglios linfáticos. Não posso retirar sangue, e também não convém fazer esforços desmedidos" conta. "Há pessoas que fazem o resto da vida fisioterapia, por uma questão de prevenção. No meu caso, tive que usar uma manga de retenção, e como o braço inchou, com o calor, precisei de usar uma manga de tratamento até que consegui controlar. Sei que nos casos em que a pessoa é diagnosticada com um cancro de receptores hormonais tem uma terapêutica acrescida. No meu caso, sempre fiz auto-exame e faço acompanhamento semestral. A prevenção é o ponto mais importante", assegura.

Marina sentiu outros efeitos na pele. "Por causa da quimioterapia, o corpo entra em menopausa precoce. Numa pessoa mais jovem, como era o meu caso, tive um período de um ano em que o corpo deixou de responder à parte hormonal. Aos poucos, o corpo vai retomando as características habituais. Mas nunca volta a ser o mesmo. Ainda que tenha uma cicatriz realmente grande, não precisei de fazer mastectomia. Sente-se a diferença ao nível da sensibilidade: ao toque, é sempre uma sensação diferente."

Marina Sousa, 39 anos.
Marina Sousa, 39 anos.

João Filipe Tavares, médico especialista em Cirurgia Plástica e Reconstrutiva na Clínica de Santo António do Hospital Lusíadas e um dos autores do recém lançado livro Reconstrução Mamária, editado pela Oficina do Livro, escrito em conjunto com o médico Rui Bastos e a enfermeira Maria do Céu Oliveira Martins, é um dos médicos a falar abertamente sobre o assunto do pós-cancro.

"A maioria das doentes necessitam de algum tipo de tratamento cirúrgico e têm de ser informadas e compreender que o tratamento do cancro da mama é um processo que pode ser demorado, tem dificuldades mas que, na maioria das situações, pode ser ultrapassado com sucesso", começa por dizer. "Um dos capítulos do livro que designámos Viver com a mama reconstruída é justamente sobre os cuidados de pós-operatório de curto, médio e longo prazo e que são consideravelmente diferentes conforme a cirurgia que é realizada. Habitualmente, a parte física do pós-operatório é bem tolerada principalmente quando existe um acompanhamento próximo por parte dos cirurgiões e enfermeiros da senologia", esclarece. Quanto à parte mais difícil, "talvez seja a de sentirem que sofreram uma cirurgia que de alguma forma as deformou, e é aqui que a reconstrução mamária tem tanta importância. Apesar da remoção de parte ou totalidade da mama, é possível, na maioria das situações, reparar com qualidade elevada o defeito resultante dessa cirurgia oncológica."

João Filipe Tavares, médico especialista em Cirurgia Plástica e Reconstrutiva na Clínica de Santo António do Hospital Lusíadas
João Filipe Tavares, médico especialista em Cirurgia Plástica e Reconstrutiva na Clínica de Santo António do Hospital Lusíadas Foto: DR

O médico reconhece que a reconstrução mamária não só é importante na intimidade da mulher como também em muitas questões funcionais, "tais como a postura em relação com a coluna vertebral, e a autonomia / liberdade para realizar atividades tão simples como usar determinada roupa ou poder ir à praia com um fato de banho", exemplifica. "A reconstrução mamária não é uma cirurgia estética à mama. É uma cirurgia reconstrutiva, com várias técnicas distintas, que são aplicadas conforme a cirurgia oncológica realizada, os tratamentos complementares propostos e as próprias condicionantes de cada mulher". João Tavares acredita que uma das maiores condicionantes "é a radioterapia, mas este tratamento não deve deixar de ser realizado quando necessário. Por regra, estabelecemos que a reconstrução mamária nunca deve interferir nos tratamentos oncológicos (médicos ou cirúrgicos) devendo a mesma adaptar-se às circunstâncias existentes."

Todas as mulheres têm acesso à reconstrução mamária no sistema de saúde público? Como é feita essa triagem? São perguntas frequentes de quem passa pela doença. "Infelizmente não. Existem dois níveis de problemas, aquele em que hospitais não oferecem qualquer tipo de reconstrução mamária e um outro mais subtil mas também complexo que são os hospitais que oferecem reconstrução mamária com um número limitado de técnicas e que, em vez de ser proposta a técnica mais apropriada para a doente, é proposta a técnica existente naquele centro", avisa o médico, que sugere "serem criados centros de referenciação especializados que tenham capacidade de resposta e que ofereçam cuidados verdadeiramente diferenciados. No tratamento do cancro da mama devem ser sempre envolvidos, desde o primeiro momento, o cirurgião senologista, o oncologista, o cirurgião plástico entre outros profissionais."

O médico acrescenta ainda que um dos problemas coloca-se "ao nível dos hospitais em que o tratamento é realizado de forma esporádica e que não é dada a possibilidade de uma consulta de cirurgia plástica reconstrutiva" e que no "estado atual de desenvolvimento do tratamento do cancro da mama são necessárias equipas especializadas. Por exemplo, no centro onde trabalhamos existe uma equipa de cirurgiões e uma consulta específica e exclusiva para doentes com cancro de mama", que é a Clínica de Santo António, na Amadora.

Por fim, e sobre se acredita que a doença continua a ser estigmatizada, João Tavares acredita que é preciso criar awareness e esclarecimento. "O cancro da mama é uma doença que interfere com a intimidade da mulher. Em particular, a cirurgia oncológica influência muitas vezes a forma como [a mulher] se vê e consequentemente mexe com a sua autoestima. É necessário manter a noção da importância da reconstrução mamária no tratamento do cancro da mama e progressivamente caminhar para a referenciação para centros especializados de todas as doentes."

Sobre isso, acredita que este novo livro "teve uma intenção um pouco mais prática de explicar às doentes e às pessoas que as acompanham de forma mais próxima, as diferentes etapas e técnicas de reconstrução mamária, apresentar fotografias dos resultados expectáveis em cada uma delas, os cuidados necessários de pós-operatório, a experiência vivida por outras doentes que já passaram por essa vivência e alguma informação sobre a ajudas institucionais existentes. O livro também serve de referência às técnicas mais atuais de reconstrução mamária para que possa existir uma maior exigência de qualidade das doentes e dos profissionais relativamente à reconstrução mamária."

Saiba mais
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