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Precisam-se candidatos para cargo de alto risco: ser marido de rainha

A propósito da morte do príncipe Filipe, Helena Matos deixa uma questão no ar. Existirão cinco rainhas na Europa, e quatro estão solteiras. Haverá um príncipe Filipe à medida de cada uma delas?

Foto: Getty Images
16 de abril de 2021 | Helena Matos

Eles constituem o clube mais restrito do mundo – o dos maridos das rainhas. Agora o clube tem apenas um membro: Daniel, o marido da herdeira da Suécia. Mas dentro de alguns anos existirão cinco rainhas na Europa. Quatro estão por agora solteiras. Existe um príncipe Filipe à medida de cada uma delas? Afinal o duque de Edimburgo foi o único dos esposos reais que no século XX não soçobrou às depressões ou não acabou a tornar-se num sério embaraço para a sua esposa.

Sim, talvez os leitores mais distraídos ainda não tenham dado por isso mas temos uma questão "príncipe Filipe" para resolver nos próximos anos pois dentro de algumas décadas existirão na Europa nada mais nada menos que cinco rainhas: Vitória na Suécia, Isabel Teresa na Bélgica, Catarina Amália na Holanda, Ingrid Alexandra na Noruega e Leonor em Espanha. De todas elas, apenas Vitória está casada. As outras estão agora entre a adolescência e a juventude: a próxima rainha dos belgas, Isabel Teresa, tem actualmente 19 anos, Catarina Amália, futura rainha da Holanda, 17, a mesma idade de Ingrid Alexandra da Noruega. Em Espanha, Leonor, já fez os 15. Temos ainda Estelle Silvia, a primogénita de Vitória da Suécia, mas para já podemos deixá-la fora desta equação, dados os seus nove anos e o facto de antes de ela chegar ao trono lá ter de chegar a sua mãe, Vitória.

Vitória da Suécia
Vitória da Suécia
Isabel Teresa da Bélgica
Isabel Teresa da Bélgica Foto: Getty Images

Catarina Amália, da Holanda, Isabel Teresa da Bélgica, Ingrid Alexandra da Noruega e Leonor de Espanha estão obviamente solteiras e para todas elas se espera venha a existir um marido que se adapte à função com o equilíbrio e, convém frisá-lo, com a alegria natural do príncipe Filipe. O que convenhamos não é nada fácil, pelo menos se nos basearmos nas experiências dos outros homens que no século XX, a par de Filipe, integraram esse restrito clube de maridos de princesas herdeiras que depois se tornaram rainhas.

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Catarina Amália da Holanda
Catarina Amália da Holanda Foto: Getty Images
Ingrid Alexandra da Noruega
Ingrid Alexandra da Noruega Foto: Getty Images

O duque de Edimburgo foi o único dos esposos reais que não soçobrou às depressões ou não acabou a transformar-se num sério embaraço para a sua esposa. De todos os outros pode dizer-se que as mulheres com quem casaram os amaram muito, mas que para eles isso esteve longe de ser suficiente.

Leonor de Espanha
Leonor de Espanha Foto: Getty Images

Não estamos a exagerar e muito menos a simplificar. São apenas os factos a dar-nos razão. E como já dissemos: este é um clube muito restrito, logo não é difícil justificarmos a nossa constatação. Começamos por onde? Por exemplo, pelo membro mais tonitruante deste clube, o jovem aristocrata e diplomata francês Henrique Maria João André de Laborde de Monpezat, que em 1967 casou com Margarida da Dinamarca, então ainda herdeira do trono.

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Henrique de Monpezat vinha de uma família aristocrática francesa, tinha trabalhado no ministério dos Negócios Estrangeiros do seu país e chegara a secretário da embaixada da França em Londres. Todo este brilhante curriculum ficou para trás quando se casou com Margarida.

Henrique Maria João André de Laborde de Monpezat que em 1967 casou com Margarida da Dinamarca,
Henrique Maria João André de Laborde de Monpezat que em 1967 casou com Margarida da Dinamarca, Foto: Getty Images

O seu mal estar com o papel secundário que o esperava ao casar-se com Margarida começou a fazer-se sentir quando a sua mulher se tornou rainha, o que aconteceu em 1972, cinco anos depois de Henrique e Margarida terem casado. Mas foi sobretudo quando viu o seu próprio filho e futuro rei ocupar o lugar de representante de Margarida, ficando ele, marido e pai, relegado ainda mais para a sombra, que Henrique passou a verbalizar o que lhe ia na alma. E valha a verdade que ia muito! Entre outras razões Henrique dizia-se objecto de discriminação por ser tratado de forma diferente das consortes mulheres.

Durante anos Henrique refugiava-se em França, onde produzia bom vinho e declarações azedas sobre o seu estatuto de marido da rainha e pai de herdeiro. Em 2017, a Casa Real dinamarquesa anunciou que o príncipe Henrique sofria de demência. Morreu no ano seguinte. Nunca perdoou à Dinamarca não lhe ter dado o título de rei. Pediu para não ser enterrado ao lado da sua esposa porque nunca foi reconhecido como seu igual.

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Já está percebido porque deve a Inglaterra estar infinitamente agradecida a Filipe? Se os queixumes de Harry e Meghan puseram os ingleses a vociferar imagine-se o que teria sido se o marido da rainha se armasse em sindicalista da condição de real esposo!

Mas a história ainda vai no início. Passemos em seguida à Holanda que tem uma experiência inultrapassável nesta questão dos maridos das rainhas.

Holanda: três maridos de rainhas. Três diferentes problemas

A família real holandesa é ao longo de todo o século XX uma sucessão de problemáticos maridos de rainhas. Podemos começar logo em 1901, quando a rainha Guilhermina da Holanda se casou com o aristocrata Henrique de Mecklemburgo-Schwerin. Henrique nunca se ajustou ao seu papel que considerava ornamental e arrastou-se numa penosa infelicidade durante os 33 anos que durou o seu casamento.

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Como Guilhermina e Henrique só tiveram uma filha, Juliana, esta tornou-se herdeira. Ora se há herdeira há marido da herdeira e mais uma vez a Holanda teve de se confrontar com o desajustamento ao cargo por parte do cônjuge real, neste caso Bernardo de Lipa-Biesterfeld que, em 1937, casou com Juliana.

Guilhermina da Holanda casou com o aristocrata Henrique de Mecklemburgo-Schwerin. 1901
Guilhermina da Holanda casou com o aristocrata Henrique de Mecklemburgo-Schwerin. 1901 Foto: Getty Images

Bernardo, ao contrário do sogro, não sofria de melancolia. Era um homem dinâmico que se destacou no apoio à reconstrução do país, fundador da associação ambientalista WWF e, embora não necessariamente através dos métodos mais correctos, conseguiu que a rainha Juliana deixasse de estar sob a influência de uma curandeira que lhe teria prometido curar a cegueira da filha mais nova. O pior é que tanto dinamismo por parte do marido de Juliana se traduziu também em duas filhas ilegítimas e, cereja no topo deste bolo amargo, no envolvimento num tremendo escândalo económico: Bernardo de Lipa-Biesterfeld teria sido subornado por empresas aeronáuticas norte-americanas que pretendiam que ele usasse a sua influência junto do governo holandês. Obviamente poucos anos depois da revelação destes factos que envolviam o seu marido, Juliana abdicou, o que se traduziu em mais um cônjuge real, pois Juliana e Bernardo só tiveram filhas e é a mais velha delas, Beatriz, quem se torna rainha.

Bernardo de Lipa-Biesterfeld que, em 1937, casou com Juliana.
Bernardo de Lipa-Biesterfeld que, em 1937, casou com Juliana. Foto: Getty Images
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Podem aqui os leitores perguntar se o novo cônjuge real sofria de melancolia como o pretérito marido da rainha Guilhermina ou de amor pelos negócios escuros como acontecera com o marido de Juliana mas o melhor é mesmo apresentarmos o próximo esposo real: Claus von Amsberg, alemão. Basta fazer umas contas simples para perceber que o casamento deste diplomata alemão de 40 anos, em 1966, com a bem mais jovem herdeira do trono da Holanda ia causar sérios problemas políticos: Claus von Amsberg nascera em 1926 e portanto, à semelhança de todos os jovens alemães da sua geração, integrara a Juventude Hitleriana e uma vez adulto envergara o uniforme da Wehrmacht. Em 1966 na Holanda não faltava quem recordasse os dias em que aquele país fora ocupado pelas tropas alemãs. Logicamente aquilo que os holandeses menos esperavam era ver a herdeira do seu trono escolher para marido alguém associado a tal passado. Escusado será dizer que Beatriz teimou, teimou, e a 10 de Março de 1966 casou finalmente com Claus von Amsberg. Não faltaram juras de amor nem manifestações de protesto.

Claus von Amsberg,casa em 1966, com Beatriz da Holanda
Claus von Amsberg,casa em 1966, com Beatriz da Holanda Foto: Getty Images

Pouco a pouco Claus von Amsberg foi atenuando as reservas com que fora acolhido, tornando-se até umas das figuras mais aplaudidas da família real: Claus revelou-se bom pai, bom marido e excelente conselheiro da rainha. Mas acontece que Claus não era feliz: o diplomata, o homem culto e polifacetado que fora antes de se casar, sentia-se aprisionado no papel de consorte. A depressão foi a fase seguinte para mais agravada por outros problemas de saúde. Em 2002, aquando do casamento do seu filho e herdeiro do trono Guilherme, com Máxima, Claus von Amsberg era já um homem extraordinariamente frágil. Morreu poucos meses depois.

Máxima, que se tornou rainha em 2013 depois de a sua sogra abdicar é, por agora, o interregno feminino e para já sem problemas na galeria de homens-consortes com que a família real holandesa lida desde 1901 e com que voltará a lidar dentro de algum tempo, pois Guilherme vai ser sucedido por Catarina Amália, por agora uma jovem de 17 anos que, tal como aconteceu com as suas avó, bisavó e tetravó, corre o risco de se apaixonar por alguém que só após o casamento descobre que a rainha é ela. Ou mais propriamente corre o risco de vir a sofrer do ‘síndrome do adeus a Malta’.

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Esposos reais: serão eles vítimas do ‘síndrome do adeus a Malta’?

O ‘síndrome do adeus a Malta’ é um conjunto de sintomas que afecta os jovens que casaram com princesas herdeiras a partir do momento em que elas se tornam rainhas.

Uns ficam melancólicos. Outros acumulam amantes. Outros envolvem-se no que não devem. Alguns, como atrás ficou demonstrado, acumulam alguns destes sintomas. E que tem Malta a ver com isto? Foi em Malta que viveram Isabel e Filipe quando ela era ainda apenas uma princesa. A Villa Guardamangia foi o lar do jovem casal entre 1949 e 1951.

Isabel e Filipe entre 1949 e 1951 em Malta
Isabel e Filipe entre 1949 e 1951 em Malta Foto: Getty Images

Em Malta, Isabel teve uma vida quase comum, se se entender por vida comum o então quotidiano das mulheres dos oficiais, dividido entre banhos de sol, esqui aquático, compras, piqueniques, conversa com amigas e, muitos, muitos bailes. Isabel e Filipe adoravam dançar e as fotografias dessa época atestam não só o gosto mas também a graça com que o faziam.

Mas neste caso não é Isabel que nos interessa mas sim Filipe, porque este síndrome não afecta as rainhas mas sim quem casou com elas: em Malta, Filipe não tinha como missão ser o marido de Isabel mas sim ser oficial da marinha britânica. Para mais, no Mediterrâneo era ele quem tinha histórias para contar: durante a II Guerra, Filipe tinha combatido com bravura naquelas águas a que agora regressava ao comando da fragata Magpie.

Mas em 1951 os dias de Malta de Isabel e Filipe chegavam ao fim: a saúde de Jorge VI, pai de Isabel, deteriorava-se e ela tinha de se preparar para o dia, que se sabia cada vez mais próximo, em que ela teria de o substituir: a 6 de Fevereiro de 1952, Isabel tornou-se rainha. Começavam os dias de Filipe como consorte. Apesar das histórias sobre as infidelidades dele e das discussões épicas que ela manteve com ele, eles teriam sempre Malta.

Porque é que Filipe não soçobrou ao ‘síndrome do adeus a Malta’ como aconteceu com Henrique, marido de Margarida da Dinamarca, ou Claus von Amsberg, marido de Beatriz da Holanda, que não se deram bem com a passagem das mulheres de herdeiras a rainhas? Pode dizer-se que o ser militar ajudou. Ou que a infância sem pai nem mãe por perto o prepararam para tudo. Mas se formos honestos temos de admitir que o contrário também seria válido caso Filipe não se tivesse adaptado ao seu papel de marido da rainha. Provavelmente o que fez a diferença de Filipe é que perante a adversidade nunca lhe parece ter ocorrido que desistir era uma opção.

Na Suécia pode estar o príncipe Filipe dos novos tempos

A morte do príncipe Filipe reduziu o clube dos maridos das rainhas e princesas herdeiras a um único membro. É ele Daniel Westling que casou em 2010 com Vitória, a herdeira do trono da Suécia. E no sucesso com que Daniel tem desempenhado o seu papel talvez se possa dizer que até mais ver é o sucessor do príncipe Filipe.

Coroação de Isabel em 1952.
Coroação de Isabel em 1952. Foto: Getty Images

Tal como aconteceu com Filipe e demais esposos reais, também Daniel Westling teve de abdicar da sua carreira: filho de simples funcionários, Daniel Westling tinha criado uma cadeia de ginásios e era o que se pode designar como um jovem empresário bem sucedido. Até que Vitória, a braços com um desgosto de amor e uma consequente anorexia, o conheceu. Obviamente a princesa curou-se da anorexia – os programas de vida saudável implementados nos ginásios de Daniel não costumavam falhar – mas o que não estava nos planos da família real era que Vitória se apaixonasse por Daniel. Não necessariamente por ele ser plebeu mas porque nos países nórdicos a incensada tolerância convive com um permanente escrutínio sobre o cumprimento das regras por parte de quem é pago com dinheiros públicos. Na prática tolera-se tudo desde que se faça aquilo que vem no caderno de encargos. Ou mais visualmente falando: estão a ver as estantes Ikea? Facílimas de montar desde que se sigam escrupulosamente as instruções.

É certo que de Daniel nunca se disse, como aconteceu com aquele que veio a ser duque de Edimburgo, que havia o risco de se vir a revelar um irresponsável mulherengo como o pai, maluco como a mãe ou nazi como as irmãs, mas até darem o seu aval às pretensões de Vitória, os reis da Suécia quiseram certificar-se de que este, uma vez casado, não ia descobrir que não se ajustava ao papel de marido de rainha.

Daniel Westling que casou em 2010 com Vitória,
Daniel Westling que casou em 2010 com Vitória, Foto: Getty Images

Sete anos demorou o processo de aprovação de Daniel Westling por parte dos pais de Vitória e também do governo e do parlamento da Suécia (sim, na Suécia o governo e o parlamento são chamados a pronunciar-se sobre o casamento de quem vai reinar). Para cúmulo descobriu-se que Daniel sofria de problemas renais e que precisava de ser transplantado. Felizmente para ele o pai conseguiu doar-lhe um rim porque se tal não tivesse acontecido o casamento corria o sério risco de ser eternamente adiado.

No final, Vitoria e Daniel casaram em Junho de 2010 e sim têm sido felizes. Não necessariamente sempre mas mais que qb.

Ao contrário de Filipe, Daniel quase não comete gaffes (conhece-se-lhe uma em quase onze anos de casamento: declarou que estava contente por jogar com os rapazes esquecendo que na equipa em causa havia duas raparigas!) e, muito mais importante, não se lhe conhecem infidelidades.

Daniel, tal como o duque de Edimburgo, transformou a sua presença discreta numa espécie de escudo para a mulher com quem se casou. Como acreditamos ter provado, os demais cônjuges reais não se podem gabar do mesmo.

Moral da história: é mais que tempo de refrescarmos o imaginário e deixarmos de pensar em quem vai casar com o príncipe encantado. Nas próximas décadas, a questão é: quem vai casar com a princesa?

Se por acaso parecer ouvir-se em alguns palácios da Europa a pergunta – Como descobrir um príncipe Filipe para a nossa filha? – não se trata de um engano mas tão só da tradução dos pensamentos mais secretos de vários reis e rainhas num dos momentos mais difíceis da sua vida: aquele em que a sua filha e herdeira lhes anuncia que se quer casar.

Helena Matos escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

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