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Polémica Olena Zelensky na capa da Vogue. Quem tem medo da Moda?

"Não só uma mulher bonita pode ser interessante como uma revista de Moda pode falar de temas fundamentais."

Foto: Annie Leibovitz
30 de julho de 2022 Patrícia Barnabé

A polémica paira sobre a produção fotográfica da edição de outubro da Vogue americana que ilustra a entrevista com a primeira-dama da Ucrânia, Olena Zelenska, captada ao lado do marido, Volodymyr Zelensky, pela lente de Annie Leibovitz. O texto centra-se na guerra na Ucrânia, e no papel que a primeira-dama pode ter no simbolismo diplomático de um conflito como este, mas desenha a linha vermelha do nosso pudor: será certo mostrar o casal Zelensky quando o seu país está em chamas e desfeito pela guerra? É uma forma de dar visibilidade aos mais frágeis e exibir a injustiça da guerra, mostrar como o Ocidente está do lado da paz e da soberania? Ou uma manobra oportunista para vender revistas explorando a imagem de um casal bem-parecido e que veio do meio do entretenimento para a política, com algum talento natural para a telegenia e as redes sociais? Diria que mais do que aparecer, é precisar de aparecer num título icónico da cultura ocidental. É prender as atenções da maioria para falar da guerra absurda que vivem no seu quintal. E porque não na capa de uma Vogue?

Trabalhei 15 anos na edição portuguesa da Vogue, a grande referência das revistas de Moda, colaboro com a Máxima desde os anos 90, e conheço as revistas femininas por dentro – e os preconceitos que sempre as rodearam, vindos dos meios mais clássicos e conservadores, os ditos "sérios". Filha dos anos 70 e da revolução, quando cheguei às redações, e comecei na TSF, éramos uma primeira geração no jornalismo sem o peso do elitismo, do social ao intelectual, o importante para nós era o mundo que queríamos, mais justo e mais belo quanto possível, e mostrar os talentos que conspiram a seu favor. Mas a geração anterior ainda levantava um sobrolho, como se escrever nas revistas não fosse bem jornalismo, fossem devaneios inconsequentes de raparigas – Moda, Artes e lifestyle, as cintilações do mundo.

Ninguém parece lembrar-se que Virginia Woolf, Aldous Huxley ou Truman Capote, por exemplo, escreveram regularmente na Vogue; também Richard Burton, Federico Fellini ou Marcello Mastroianni fizeram por lá as suas perninhas; ou que Joan Didion foi junior editor da Vogue nos anos 60. Não vale a pena nomear os fotógrafos superlativos, porque esses são mais óbvios e mais do que muitos. Volto a uma frase de Oscar Wilde que não tatuo apenas porque não preciso: "Só as pessoas fúteis consideram fúteis os temas fúteis."

Joan Didion, 1968
Joan Didion, 1968 Foto: Julian Wasser/Netflix

A capa com Olena Zelenska é tudo isto, como sempre foi. É a Vogue americana ser a Vogue no país dos audazes, ou seja, a mostrar os heróis do momento, da forma mais bonita possível. E Annie Leibovitz sempre assinou esta ideia por baixo: ela fotografa celebridades em grandes cenários e com grande circunstância, mas por detrás destes retratos estão as causas e as lutas todas que carregam. Recordemo-nos que Leibovitz foi lançada pela famosa fotografia que apanhou John Lennon e Yoko Ono na cama para a icónica capa da Rolling Stone. Assim retratava um casal nos seus 44 anos, que pensava ir viver um sonho de mudança no seu país e acordou no meio de um pesadelo. Porque não contar a sua história ao mundo? Se a revista fosse a Time já podia ser?

Nesta fase de confusão moralista, que continua a atropelar a ética, e passados tantos séculos sobre os pilares que lhe foram erigidos, temos os conservadores por um lado – que horror, glamourizar a guerra! – e os extremistas das causas por outro – que horror, continuamos com o discurso da heteronormatividade tóxica! – e no meio da barulheira ninguém pensa no papel diplomático, à falta de outros, de Olena. Quando, por exemplo, viaja para Washington, numa visita não oficial, para se encontrar com o presidente Biden, a sua mulher, Jill Biden, e o secretário de Estado Antony Blinken, ou quando se dirige ao Congresso. Como primeira-dama, mas também como "mãe e filha", é inequívoco o forte simbolismo destas imagens. E, como se costuma dizer, melhor falarem mal de nós do que não falarem de todo. Apesar do cansaço mediático dos nossos tempos, é mais uma oportunidade para o mundo se curvar à dor da Ucrânia e chorar com ela.

Claro que as imagens têm glamour, mas o que criou celeuma foi o facto do casal Zelensky ser fotografado junto à chapa amolgada de um avião Antonov ou de uma pilha de sacos brancos cheios de areia, como os que se usam nas trincheiras de guerra. Como se isso fosse minorar o sofrimento que os rodeia. Podemos discutir o gosto que, na maior parte dos casos se lamenta mais do que se discute, mas não podemos dizer que estranhamos os cenários épicos, muitas vezes apocalípticos, a que Annie Leibovitz nos habituou nas suas produções para a Vogue e a Vanity Fair originais, as americanas. Ela quis retratar a resiliência e a esperança.

Quando julgávamos derrubadas quase todas as barreiras clássicas da incensada elegância e do chique ditados por Paris no século XX, a Moda continua a sacudir as mentalidades, na aparência de ser só aparência. Esse é um dos seus maiores talentos, dos mais generosos e fascinantes. Mais do que roupas bonitas, através da Moda, as cabeças modernas do design puderam sempre vestir novas formas de ver o mundo. As causas que estão agora no centro da mesa social, e até já ganharam direito a debate formal na praça pública e, por isso, conquistaram algum poder informal nas conversas entre amigos, coisa que quase nunca acontecia, passaram primeiro pela Moda. Pela sua capacidade de ver a grande fotografia nos pequenos detalhes e porque, na verdade, por detrás de uma grande turba de fascinados que só querem ser mais belos, ou mostrar status através da sua imagem, está a meia dúzia que pensa a Moda como conteúdo. E estes são os principais.

A jornalista Rachel Donadio, que fez a entrevista a Zelenska, depois de descrever a primeira-dama e o seu apoio a várias causas, das crianças à saúde mental e aos artistas da sua terra natal, escreve: "É estranho falar da exterminação ucraniana e da Moda ucraniana na mesma conversa, e no entanto esta é a dissonância cognitiva da Ucrânia de hoje, onde designers e profissionais de todos os tipos estão mobilizados, em casa ou no estrangeiro, para apoiar o seu país. Essa dissonância cognitiva é especialmente verdadeira em Kiev, onde se pode beber um matcha num café e depois conduzir uma hora até Bucha para visitar uma vala comum."

Para lá do fogo-fátuo, ainda que legítimo, da vaidade e da badalação, a Moda sempre usou a atenção que estes colhem para falar da vida e da civilização. A Moda fez uma boa parte do percurso do empoderamento feminino, e dos seus vários corpos, dos atléticos aos esguios e aos roliços; trilhou o caminho da igualdade de género e da inclusividade, aliás, muitos dos seus criativos são não binários ou aquilo que quiserem ser; e depois a raça, claro, que a Vogue americana sempre trouxe para a capa, e que a edição inglesa segue agora, às vezes de forma até um pouco obsessiva, desde que é dirigida por um homem negro e gay, Edward Enninful. Tirando a ditadura do bom aspecto e da magreza, que mata todos os hidratos de carbono à refeição, a Moda é muito livre de pensamento, é artista. Se a Vogue italiana sempre foi a mais ousada nas capas e nas produções – quem não se lembra das páginas e páginas de fotografia assinadas por Steven Meisel, as modelos arrastadas num manicómio, como viúvas sicilianas e em cenários de guerra? – da Vogue americana sempre fascinaram as capas icónicas, que elevam os seus protagonistas a estrelas planetárias, como na máquina de sonhos que é Hollywood.

Nos anos da Segunda Grande Guerra, a modelo tornada fotógrafa, a fascinante Lee Miller, foi correspondente para a Vogue e cobriu a libertação de Paris ou o Blitz de Londres, e a miséria nos campos de concentração de Buchenwald e Dachau. Não só uma mulher bonita pode ser interessante como uma revista pode falar de temas fundamentais. Mais do que uma imagem poderosa de fragilidade, esta capa é uma lição sobre as ténues linhas do pudor com que a Moda sempre gostou de brincar, cria uma grande ilusão para falar muito a sério.

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