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Crónica Isabel Stilwell. “Já não aguento mais!” A diferença entre empatia destrutiva e compaixão

Milagre na Cela 7 (2019).
Milagre na Cela 7 (2019). Foto: IMDB
23 de maio de 2023 Isabel Stilwell

A guerra na Ucrânia continua, e os soldados morrem todos os dias, de um e de outro lado. Uma geração de jovens acaba sob a terra, regados pelas lágrimas das suas mães. As mulheres no Afeganistão estão fechadas em casa, privadas de estudar ou de trabalhar, de passearem nas ruas, de mostrarem o cabelo.

Os doentes acumulam-se num corredor de um hospital, perante a impotência dos médicos e dos enfermeiros que não chegam para todos, por muito que se esforcem. Hoje, ontem e amanhã.

No 5º B há três alunos que precisam urgentemente de mais atenção, mas sucede o mesmo no 6º A, e no 6º B, já para não falar no recreio, onde os mais frágeis são alvo de bullying, devia agir.

Um filho preocupa-nos, absorvido pelos jogos de computador, dando-nos uma resposta torta sempre que lhe perguntamos se está bem, sabendo que não está. Já tentámos todas as conversas, todos os subornos, e nada parece adiantar. Se é que isso não faz pior.

Um pai sofre de uma demência, esquece tudo e pergunta de novo, dia após dia tortura-nos vê-lo perder capacidades, a desolação e a exaustão misturam-se, por vezes, a paciência esfuma-se.

Bolas, não há compaixão que chegue. A cabeça parece que rebenta, só nos apetece enfiá-la debaixo de uma almofada, na esperança de ser capaz de deixar de sentir, de encontrar mil desculpas para cruzar os braços e desligar. Afundamo-nos com os náufragos.

Os ingredientes deste caldeirão de desespero variam, mas todos já nos sentimos assim. Envergonhados, queixamo-nos de ter esgotado a compaixão. Enganamo-nos. A compaixão não tem limites, diz a neurocientista alemã, Tãnia Singer, contestando aqueles que criaram o termo "Fadiga de compaixão", para explicar a exaustão, sobretudo de profissionais de saúde. Singer garante que o que se gasta é a empatia, quando evolui para uma empatia destrutiva, que nos vira do avesso. 

Num artigo intitulado "A compaixão não cansa!", a veterinária Trisha Dowling ajuda-nos a perceber a neurofisiologia destas emoções, ou seja, as diferenças entre elas. Começando pela empatia: todos sabemos que conseguimos sentir as dores dos outros, sobretudo das pessoas a que estamos mais ligados, e que funciona como o cimento das relações humanas, mas foi preciso os neurocientistas apanharem o cérebro em ação para confirmarem que não era só poesia. Por exemplo, quando um dos membros de um casal recebe um choque elétrico, a área do cérebro que controla a dor no cérebro do seu par acende-se, ou seja, sentia, sentia mesmo, que era no seu braço que passava uma corrente elétrica.    

Certo. Mas depois de nos pormos no lugar do outro — o que nos rouba dopamina, ou seja, a energia —, é fundamental conseguirmos passar a outra etapa, aquela em que tomamos consciência de que aquela dor não é a nossa, que o que sentimos é o ressoar em nós da dor do outro, por muito que nos recorde uma dor própria semelhante. Se não o fizermos, somos engolidos por uma "empatia destrutiva", que acabará por desencadear, mais tarde ou mais cedo, um instinto de autodefesa e preservação — não é comigo, não posso fazer nada, não aguento! —, em lugar de honrarmos o sofrimento alheio.

Contudo se conseguirmos partir da empatia inicial para a compaixão, vamos sentir COM o outro, e não PELO outro, num movimento proativo e atento, libertando dopamina e ocitocina, hormonas que desencadeiam sentimentos positivos que contrabalançam a tristeza. Deixa-nos, por isso, mais capazes de oferecer ajuda concreta, mantendo-nos, simultaneamente, emocionalmente mais equilibrados.

Compreender esta distinção está longe de ser uma mera questão académica, porque aquilo que revela a investigação de Tânia Singer, citada por Trisha Dowling, é que é possível aprender a transformar a empatia em compaixão, com a grande vantagem de que a compaixão - longe de nos cansar - rejuvenesce-nos os neurónios! 

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