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Nova série aborda o caso Judith Godrèche e o #Metoo em França

De um país dado à permissividade sexual, chega agora uma série televisiva cómica e dramática que conta a história autoficcional da atriz Judith Godrèche e da sua experiência de vida numa indústria, marcada por abusos – como foi o seu caso.

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12 de dezembro de 2023 Madalena Haderer

Rir é o melhor remédio? Há vários argumentos que apontam nesse sentido. Mais do que isso, o recurso à ironia e à sátira – ainda que a atual tendência para a interpretação literal não as aprecie – permite dizer duras verdades com ligeireza. "O humor autodepreciativo é algo que permite afastar o véu e dizer coisas com raiva e violência, e falar de temas sombrios sem adicionar pathos." Quem o diz é a atriz francesa Judith Godrèche, que escreveu, realizou, produziu e protagonizou a série televisiva Icon of French Cinema – o título é irónico –, que pretende ser um relato autoficcional da sua vida profissional. A série representa uma espécie de tentativa de regresso ao movimento #MeToo em França: Godrèche tinha 14 quando teve uma relação amorosa com um realizador de 40 anos, que durou seis anos – que ela não nomeia, nem na série nem em nenhuma das entrevistas que tem dado, mas que se sabe ser Benoît Jacquot, que lhe deu o seu primeiro grande papel, no filme Les Mendiants. Quando a sua própria filha fez 14 anos a atriz percebeu, em retrospetiva, que o que lhe aconteceu não está certo.

Momento na série em que Godrèche recorda o início da sua carreira
Momento na série em que Godrèche recorda o início da sua carreira Foto: IMDB

Numa entrevista recente à Elle francesa, a propósito do lançamento da série, Judith Godrèche fez o seguinte desabafo: "Se um homem de 40 anos se aproximar da minha filha, mato-o. E é por ter uma filha adolescente que consigo perceber agora o que aconteceu comigo, e dizer a mim própria que naveguei sozinha num mundo sem regras nem leis." A frase traz consigo uma sensação de pesar e arrependimento, mas também um certo sentimento de culpa que é comum a tantas vítimas de abusos. Em jeito de explicação, a atriz acrescenta: "Eu era uma jovem muito solitária e idealista. Vivia através dos livros. A minha mãe saiu de casa quando eu tinha nove anos, fui criada por um pai solteiro e, apesar de uma certa maturidade, era muito vulnerável."

Godrèche vestida de hamster naquilo que é suposto ser o seu
Godrèche vestida de hamster naquilo que é suposto ser o seu "grande regresso" aos ecrãs Foto: IMDB

Sobre a nova série televisiva em seis episódios, Godrèche diz que o seu objetivo nunca foi nomear pessoas ou apontar dedos. "É a minha história, mas uma versão ficcional", diz. "Embora não seja uma série sobre o #MeToo, mostra, de facto, experiências devastadoras que, infelizmente, ocorrem com demasiada frequência." Icon of French Cinema é uma espécie de rebelião contra um sistema que maculou a sua experiência enquanto (muito) jovem atriz. Ao mesmo tempo, Godrèche "queria mostrar que as mulheres podem ser pessoas maravilhosas, mas também podem ser lixadas da cabeça. Queria retratar mulheres que não apenas da perspetiva masculina: sexualizadas, idealizadas e objetificadas."

Ao ler sobre a série e a vida da atriz, é impossível não pensar em duas experiências de vida em pontos opostos do espectro. Por um lado, a escritora Vanessa Springora, que lançou o romance autobiográfico Consentimento – que inspirou um filme lançado este ano – no qual conta a história da sua relação amorosa com o escritor Gabriel Matzneff, que começa – com o beneplácito da mãe – quando ela tinha 14 e ele 50, e que termina com a realização dolorosa de que Matzneff colecionava relações com adolescentes, cujos detalhes usava nos seus livros, perante grande aclamação dos seus pares. Vanessa demorou anos a aceitar que tinha sido vítima de um predador.

Benoît Jacquot, o homem mais velho com quem Godrèche manteve uma relação
Benoît Jacquot, o homem mais velho com quem Godrèche manteve uma relação Foto: Getty Images

Precisamente do lado dos predadores, é inevitável pensar em Gérard Depardieu que, nos últimos dias, voltou a ser alvo de acusações de abusos sexuais. A atriz Hélène Darras é a segunda mulher a apresentar uma queixa formal em tribunal contra o ator. Darras diz que o abuso ocorreu em 2007, nas filmagens do filme Disco, em que participou como figurante, e durante as quais Depardieu terá olhado para ela "como se fosse um pedaço de carne" e que este se aproximou e "passou a mão pelas minhas ancas e nádegas", diz. De seguida, tê-la-á convidado para o seu camarim, convite que Darras declinou, "mas isso não mudou nada e ele continuou a apalpar-me entre takes". Em 2018, a atriz Charlotte Arnould acusou Depardieu de a ter violado. Em maio deste ano, o site de investigação noticiosa Médiapart publicou um relatório aprofundado onde detalhava alegações de abusos por parte de 13 mulheres. Depardieu nega toda e qualquer acusação. Por outro lado, no passado dia 7 de dezembro, o canal de televisão francês France 2 exibiu a reportagem Gérard Depardieu: La Chute de L’Ogre ("A Queda do Ogre"), em que era mostrado o ator a assediar mulheres. Vários agentes da indústria admitem que "havia uma tolerância" perante o seu comportamento e que "isso foi um erro".

Judith Godrèche com a filha Tess Barthélemy na apresentação da série no Deauville American Film Festival
Judith Godrèche com a filha Tess Barthélemy na apresentação da série no Deauville American Film Festival Foto: Getty Images

De volta a Judith Godrèche, questionada pela Elle francesa sobre a fraca expressão do movimento #MeToo em França, a atriz diz acreditar que, ao invés de estagnado, está a ter um impacto positivo e cumulativo na sociedade. "Tudo se resume a ser responsável pelas próprias ações, e essa responsabilidade está a ser elevada a padrões mais altos por todo o mundo [ocidental]. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas tem havido progressos."

Judith Godrèche é, entre as atrizes francesas, umas das apoiantes mais fervorosas o movimento #MeToo, num país que tende muito para a permissividade e com um nível de tolerância bastante alto para o que são comportamentos aceitáveis – Catherine Deneuve, por exemplo, denunciou o movimento, numa carta aberta publicada no Le Monde assinada por mais 99 mulheres francesas, dizendo que este representa "uma onda puritana de purificação" e que "a violação é um crime, mas tentar seduzir uma mulher, mesmo que persistente e desajeitadamente, não o é, tal como ser cavalheiresco não é um ataque machista", acrescentando ainda que "como mulheres, não nos revemos neste feminismo que, mais do que denunciar abusos, entra numa senda de ódio aos homens e à masculinidade". Não é esta a visão de Godrèche que, de resto, fez de si própria no filme dramático She Said, de Maria Schrader, que retrata a queda de Harvey Weinstein.

O elenco de
O elenco de "Icon of French Cinema" no Deauville American Film Festival Foto: Getty Images

Icon of French Cinema conta a história de uma atriz francesa que deixa os Estados Unidos e volta para o país natal com a sua família com a ambição de regressar em grande aos ecrãs de cinema franceses. Tess Barthélemy, filha Godrèche, interpreta o papel de sua filha na série. Também o seu cão e a sua empregada doméstica fazem parte do elenco. A série estará disponível na plataforma de streaming grátis Arte, entre 21 de dezembro de 2023 e 20 de junho de 2024.

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