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De Judith Godrèche a Anna Mouglalis ou Isild le Besco. Estamos perante um novo #MeToo em França

A nova vaga de acusações inclui agora Jacques Doillon, e a acusadora é a mesma que falou abertamente sobre o caso de abuso sexual que viveu por parte do realizador Benoît Jacquot: é Judith Godrèche.

Foto: Judith Godrèche
08 de fevereiro de 2024 Rita Silva Avelar
Aos poucos, estamos a assistir ao que podemos classificar como uma espécie de novo #MeToo em França. Há dezenas de atrizes a falar, finalmente. Em 2020 foi Vanessa Springora, cineasta, escritora e editora, quem denunciou, no livro Consentimento, o abuso que sofreu por parte de Gabriel Matzneff, 36 anos mais velho. A escritora deve ter-se sentido sozinha, pois nessa altura não aconteceram grandes revelações semelhantes, apesar de agora sabermos que o caso de Judith Godrèche é seu contemporâneo. Já agora, o livro virou filme, e está a dividir opiniões porque as cenas íntimas envolvem, claro está, uma menor de 14 anos, porque retratam da maneira mais fiel possível aquilo que aconteceu.

Voltando a Godrèche - o grande motor de toda esta saga de abusos contra as mulheres no meio da representação que parece estar ligada - tudo começa em 2023, quando revela ao mundo a série televisiva Icon of French Cinema, que realizou produziu e do qual é produtora. Trata-se de um relato autoficcional da sua vidaGodrèche tinha 14 quando teve uma relação amorosa com um realizador de 40 anos, que durou seis anos, falamos de Benoît Jacquot, embora ela não o tenha nomeado uma única vez na série. Mas as coisas mudaram de figura quando Jacquot falou e comentou abertamente o assunto, que se tornou viral em França.
Judith Godrèche com Benoît Jacquot no set de
Judith Godrèche com Benoît Jacquot no set de "La Desenchantee", quando esta tinha apenas 18 anos. Foto: Getty Images

A atriz de 51 anos decidiu falar e contar toda a verdade, depois de uma feminista lhe ter enviado um documentário no qual Jacquot fala de Godrèche como se ela fosse um objeto - e já agora, que esta nunca tinha visto - e reabriu a sua conta de Instagram para dizer, finalmente, que era ela a protagonista da sua série, e nomear o seu agressor. Entrevistado pelo Le Monde, Jacquot disse: "Não me tira o sono à noite, faz-me sorrir" e, ainda, que foi "responsável por ter caído no feitiço de uma jovem de idade não-canónica".

 Na terça-feira passada, dia 6 de fevereiro, Godrèche acabou então por levantar uma acusação de "violação violenta de menor de 15 anos" cometida pelo realizador quando ela tinha apenas 14 e ele 39. Nos relatos que faz, Godrèche detalha situações escabrosas, como ter-lhe sido racionada comida, ter-lhe sido vedado o acesso a ter relações normais com outras pessoas, ou ter sido forçada a ter relações sexuais na presença do filho de Dominique Sanda, e vítima de agressões física em público e em privado, tendo em várias ocasiões sido amarrada. Ainda: exigia manter relações sexuais quando ela estava menstruada e obrigava-a a fazer-lhe sexo oral forçosamente. Agora, a atriz diz que sente culpa por ter glamorizado a relação, e por isso decidiu falar. Na altura, Godrèche confessa ainda que o realizador tinha dificuldade em justificar a sua presença quando marcava quartos de hotel, mas acabava por contornar a situação.


Esta quinta-feira, dá conta a France Inter, Judith Godrèche acusou também o realizador Jacques Doillon de agressão sexual no set do filme La Fille de 15 ans, ocorrido na primavera de 1987. Ele queria, afirmou ela, "a mesma coisa" que Benoît Jacquot: "No set, foi incrível. Contratou um ator (…), despediu-o e ele tomou o seu lugar. De repente, ele decide que há uma cena de amor, uma cena de sexo entre ele e eu. Fizémos 45 takes. Tirei a camisola, estava sem camisa, ele apalpou-me." 

O mais insólito é que a cena aconteceu perante Jane Birkin, que a contratou como assistente do filme. "Ele beijou Judith Godrèche vinte vezes seguidas, perguntando-me qual era o melhor take. Uma verdadeira agonia!" contou Jane Birkin no Munkey Diaries, diário publicado em 2018. O filme foi lançado nos cinemas na primavera de 1989.

Questionado pelo Le Monde, Jacques Doillon, hoje com 79 anos, não comentou as acusações."Jacques Doillon descobriu estas acusações esta manhã através da imprensa", declarou a sua advogada à AFP no início do dia. "Ele refuta-os vigorosamente e está ansioso para se explicar no tribunal." A investigação preliminar, aberta quarta-feira pelo Ministério Público de Paris, centrar-se-á nos factos de Benoît Jacquot, sabe o Le Monde.

Jacques Doillon com Jane Birkin.
Jacques Doillon com Jane Birkin. Foto: Getty Images

Anna Mouglalis, de 45 anos, que no início do mês também acusou o realizador Phillipe Garrel, de 75, de assédio, junta-se à voz de Judith para reforçar as acusações contra Doillon tal como Isild Le Besco - irmã mais nova de Maïwenn, que manteve um relacionamento longo com Jacquoit quando era menor. "Quando me recusei a dormir com ele [Doillon], retirou-me do projeto e deu o papel à sua filha", conta Isild Le Besco, afastada do meio da representação há já uns anos. A atriz referia-se ao filme Carrément à l'ouest, que inclui Lou Doillon, a filha que o realizador teve com Jane Birkin. "As minhas memórias são vagas", admite a atriz quando o Le Monde a questiona sobre como surgiu a proposta. "Foi muito subtil, não foi dito. Logo depois de eu ter recusado, ele disse-me que ia dar o papel à Lou. Na altura, o que eu achei mais injusto e abusivo foi o facto de não ter sido paga pelo trabalho. Ele tinha ficado com as minhas palavras." Isto porque Isild estava há cinco semanas a trabalhar no filme com Doillon. Segundo ela, as sessões tiveram lugar na primavera de 2000, em casa do realizador, perto do bairro de Saint-Paul, em Paris, e inspiraram parte do argumento. "Improvisámos. Lembro-me de ele falar num tom monolítico durante horas a fio, era monstruosamente aborrecido."

Jacques Doillon e a sua filha Lou Doillon durante a estreia de
Jacques Doillon e a sua filha Lou Doillon durante a estreia de "Carrement a l'Ouest". Foto: Getty Images

Voltando a Anna Mouglalis, a atriz falou no programa C l'hebdo sobre as acusações que fez contra o realizador Philippe Garrel, em agosto, ao Mediapart. "Denuncio uma atitude predadora, o sentido do meu testemunho é dar apoio aqueles que não podem falar. É sempre muito mais fácil falar quando não se sofreu uma violação ou uma agressão sexual", disse. O cineasta diz não partilhar as mesmas recordações de certos momentos que ela relata e lamenta que ela os tenha vivido de outra maneira. 

Mais recentemente, esta nova vaga de #MeToo explodiu também a meio do processo do ator Depardieu, acusado de ter violado três mulheres e agredido outras 15. O caso de Depardieu tem dado que falar porque houve uma carta aberta assinada por várias personalidades conhecidas do mundo do cinema, incluindo o produtor Paulo Branco, defendendo o realizador. Curiosamente, O Casamento a Três, filme escrito e dirigido pelo francês Jacques Doillon, precisamente com produção do português Paulo Branco, foi exibido em Portugal em 2010 (Branco que também produziu Até Nunca, de Benoît, 2016...). É que caso para dizer que a "lei do silêncio" está quebrada para sempre.
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