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Michelle Pozon, a stylist espiritual

Começou por ser designer de moda, mas concluiu que o mundo não precisa de mais roupa, tal como muitos armários não precisam de mais peças. Entre a consultoria e a quase terapia, Michelle Pozon separa o essencial do assessório e faz da beleza uma filosofia de vida.

Foto: Luís Neves
05 de julho de 2023 Nádia Freitas

"A chave para um estilo irrepreensível é o mindfulness", pode ler-se no seu website. Michelle Pozon não se considera uma guru do estilo, mas também não é a típica closet cleaner que chega, arruma o guarda-roupa, e vai à sua vida. Aquilo que propõe também não é mais um método de arrumação, ao estilo da japonesa Marie Kondo. O que esta norte-americana radicada em Lisboa oferece é algo de mais profundo e transformador: desafia as clientes a olharem para dentro. Para dentro das suas casas, das suas personalidades e das suas vidas, num processo de autodescoberta e de autoconhecimento que as vai permitir livrarem-se do que já não lhes faz falta - seja isso uma peça de roupa ou um padrão comportamental. É esse o primeiro passo desta demanda pelo estilo perfeito que, segundo Michelle, é "simplesmente" aquele que revela a beleza interior

Michelle Pozon começou por ser designer de moda. Atualmente dedica-se a ajudar as pessoas
Michelle Pozon começou por ser designer de moda. Atualmente dedica-se a ajudar as pessoas "a olharem para dentro". Foto: Luís Neves

Nasceu em São Francisco, mas cresceu no sudoeste asiático. Viveu em oito países espalhados por três continentes. Percorreu um longo caminho antes de criar este método. Começou como designer de moda, não foi?

Sim, em 1994. Foi esse o ano em que lancei a primeira coleção, Michelle Pozon San Francisco. No início dos anos 1990, trabalhava na banca, mas odiava. Creio que só segui esse caminho porque pensava que era essa a vontade da minha família. Eu estava a ter bons resultados, os meus clientes estavam satisfeitos com o meu trabalho, mas não era aquilo que eu queria. Então, o meu [então] namorado, desafiou-me "Tu odeias aquilo que fazes. Cria a tua própria coleção e vê até onde isso te leva". Foi o que fiz. Acabei por alugar um showroom e apresentar o meu trabalho na Los Angeles Fashion Week. Vendi tudo e tornei-me numa designer de moda. Em 1997, houve uma espécie de um corte na minha vida e acabei por mudar-me para Nova Iorque, acreditando que isso seria melhor para o meu negócio. Nessa altura, muitas das minhas amigas estavam a casar e, uma vez que já não estava focada no mundo dos negócios, decidi alterar um pouco o meu foco. No fundo, o que sempre quis foi fazer as pessoas felizes. Então, comecei a desenhar vestidos de casamento. Isto até ao momento em que eu e o meu noivo, na altura, decidimos cancelar o nosso próprio casamento, dois meses antes da data. Foi então que deixei de querer fazer vestidos de casamento, mas o meu fornecedor de tecidos incentivou-me a continuar a desenhar. Criei uma linha de vestidos day to dinner, à venda em vários pontos estratégicos, como Saks, Bergdorf [Goodman], Harvey Nichols ou Beau Marché. No entanto, e apesar de as coisas estarem a correr bem, havia algo que me incomodava. Eu queria fazer vestidos que as mulheres pudessem usar em várias ocasiões, mas o que o mercado queria era quantidade. Acabei por ter um esgotamento. Não sabia como expressar-me. E foi então que decidi tirar uma espécie de licença sabática e mudei-me para Paris com o meu marido (que é francês).

Houve um período em que desenhou uma coleção para crianças.

Sim, creio que fui algo ingénua, porque pensei que seria muito mais fácil, mas a lógica é a mesma. Criei peças que as crianças podiam usar na escola, no parque, numa viagem, numa festa. Peças com tanta qualidade que, mesmo depois de muito uso, estavam em boas condições para poderem ser oferecidas, para serem herdadas. As pessoas gostaram, mas queriam peças mais baratas. Enfim, não estava alinhada com aquilo que o mercado procurava. Em 2011, percebi que não podia continuar a desenhar, a gastar recursos do planeta. Sentia que a roupa que já existe é mais do que suficiente. Mas, nessa altura, ainda não se falava de sustentabilidade – eu nem conhecia a palavra. Tive outro esgotamento. Na verdade, nem conseguia perceber bem por que motivos estava tão perturbada, tão infeliz. Lembro-me de um dia em que estava sentada na minha sala, a chorar, quando reparei num baralho do oráculo que me tinha sido oferecido por uma amiga e ao qual nunca liguei particularmente. Decidi pegar nele e perguntar qual seria o próximo passo. Mal não faria, não é o que se costuma dizer? A resposta foi "aquilo que procuras procura-te a ti, não estás sozinha, faz a pergunta". Uma das cartas que me saiu era a do anjo – e eu reparei que havia muitas semelhanças físicas entre nós. O passo seguinte foi limpar a minha casa, remover todas as coisas que tinha comprado apenas porque eram coisas que as pessoas bem-sucedidas compram. Comecei a respirar melhor. Mudei a casa, mudei o closet. Depois, as minhas amigas pediram-me que fizesse o mesmo em casa delas. 

"Em 2011, percebi que não podia continuar a desenhar, a gastar recursos do planeta. Sentia que a roupa que já existe é mais do que suficiente". Foto: Luís Neves

Foi assim que nasceu o projeto Closet Guru?

Sim, sendo que o meu objetivo era dizer que há um guru em todos os closets – ou seja, que muitas vezes o closet esconde a nossa verdadeira personalidade e é preciso deixá-la sair. Mas aquilo que passou [em Paris] era que eu me autointitulava de guru. Não sou uma guru! Aquilo que faço é abrir espaço para que a pessoa que me contrata possa sentir que é a sua própria guru, sentindo-se bem com ela própria. Acredito que, quando nos sentimos bonitas, somos capazes de fazer coisas bonitas. No limite, isso tem impacto no mundo porque, a partir do momento em que as pessoas se sentem bem na sua pele, deixam de ter essa necessidade de consumir, de competir.

Defende que existe um padrão que nos obriga a consumir mais e mais?

Ninguém é a favor da escravatura, mas se olharmos de perto para a fast fashion de hoje percebemos que há muitas semelhanças. Pagamos dez euros por uma t-shirt que vamos deitar fora e que vai poluir o planeta e nem nos lembramos da vida da pessoa que fez aquela peça. Como é que alguém se sente bem com isso? E não é só na moda, isto acontece em várias indústrias. Só temos um planeta, tudo o que fazemos afeta as outras pessoas. Quanto é que precisamos de consumir para nos sentirmos felizes?

Um dos conceitos que explora é precisamente o de "retail therapy". Diria que esse vício das compras é algo mais associado às mulheres?

Não gosto de estereótipos, mas reconheço que há um certo historial feminino no consumo de moda e produtos de beleza. Mas, mais recentemente, o mercado masculino cresceu muito. Há uma barbearia em cada esquina, os homens usam sérum e creme de olhos. E está tudo certo. Aquilo que importa é descodificar as razões. Eu uso produtos de beleza porque gosto de me cuidar, não porque me sinta feia se não os usar. Rejeito os conceitos de anti-idade e assusta-me quando oiço meninas pequenas a dizerem que não querem engordar ou adolescentes que usam botox. Parece-me que todos desempenhamos um papel nesta tendência. Honestamente, penso que estamos tão focados em ganhar dinheiro que nos esquecemos que também é possível praticar o bem em simultâneo. Se nos colocássemos essa pergunta: "Como ganhar dinheiro e praticar o bem ao mesmo tempo?", estaríamos a criar produtos diferentes. 

"Michelle Pozon não se considera uma guru do estilo, mas também não é a típica closet cleaner que chega, arruma o guarda-roupa, e vai à sua vida". Foto: Luís Neves

Qual é sua proposta? Qual é o serviço que oferece?

É um pouco o mesmo trabalho que fiz comigo própria. Quando nos sentimos infelizes há uma desconexão entre aquilo que desejamos e a forma como nos vemos. A nossa visão está turva, distorcida. Tudo começa com uma conversa, uma sessão de descoberta, em que nos conhecemos. Depois, avaliamos a energia da casa onde a pessoa vive. No Feng Shui costuma dizer-se que, quando há desordem no espaço, há desordem na mente e no coração. Muitas vezes, o momento em que entro na casa de um/a cliente é aquele em que me deparo com esse caos. Então, falamos sobre isso e tentamos estabelecer ligações entre as zonas da casa e áreas da vida da pessoa, como a criatividade ou os recomeços. Depende muito das circunstâncias e da pessoa que tenho à frente. É um trabalho muito pessoal. E foi por isso que demorei a tomar a decisão de comunicá-lo, de falar sobre ele. Só agora decidi avançar para as redes sociais... Não quero que isto seja sobre a ideia um look perfeito. Tem muito mais a ver com a forma como as pessoas se veem a elas próprias e sobre a necessidade de mudança. Para criar esse alinhamento, é preciso remover todas as potenciais barreiras. Acima de tudo, acredito que todas as pessoas são bonitas e, se não se sentem dessa forma, é porque não estão a olhar para si próprias com amor. O que é que as está a impedir de o fazer?

Não se trata apenas de estilo, portanto. Implica descoberta, autoconhecimento?

Ninguém tem de passar por processos para os quais não está preparado. Mas a minha experiência diz-me que, quando as pessoas chegam até mim, estão em circunstâncias semelhantes às que eu estava quando comecei este processo. Tinha uma vida perfeita, mas estava infelicíssima.

Começa por "despir" a pessoa, no sentido em que promove uma exposição?

Exato. Começamos pela casa, passamos para o closet. E dependendo da forma como a pessoa fala das suas peças, dos seus objetos, fica mais fácil perceber qual a origem dos seus problemas. Quando alguém me diz que não sabe fazer compras porque tudo nas lojas é pensado para pessoas magras, tento ir mais fundo, fazer mais perguntas até que, eventualmente, questiono: ‘acredita mesmo nisso?’. E é a própria pessoa que conclui que não. Gosto muito de fazer "muscle testing", ou seja, peço às pessoas que toquem numa peça e interpretem aquilo que ela transmite. Isso ajuda-nos a decidir aquilo que fica e aquilo que sai. Imagine um vestido que está esquecido no guarda-roupa. Um vestido floral, romântico, que uma mulher comprou e vestiu durante a lua-de-mel, que usou para dançar a noite inteira e que nunca mais o usou. Mas, assim que toca nele, é transportada para aquele momento da sua vida. E dá-se conta das outras coisas que também deixou de fazer. A limpeza, o ver-se livre do que já não faz falta, abre espaço para a gratidão. E a gratidão é o primeiro passo para a "cura". 

Morou em 8 cidades e em 3 continentes. Conheceu o seu marido em Nova York em 1998.
Morou em 8 cidades e em 3 continentes. Conheceu o seu marido em Nova York em 1998. Foto: Luís Neves

É possível encontrar algo em comum entre as suas clientes?

São sempre mulheres numa fase de transição. Mulheres que se sentem presas ou incompreendidas.

Quanto tempo é que o processo pode demorar?

Depende muito das pessoas.

Implica comprar peças novas?

As pessoas podem querer fazê-lo, mas não é uma obrigatoriedade. Eu sou uma grande apologista da autosuficiência, a minha proposta está muito alinhada com aquilo em que eu acredito.

Insiste muito na ideia de que o verdadeiro estilo não tem nada a ver com dinheiro, tem a ver com sentirmo-nos bem na nossa pele. No entanto, o dinheiro facilita o processo, não? A mudança de que fala será mais difícil para quem se debate com dificuldades económicas...

Acredito que a mudança é sempre possível. Pensar que é mais fácil para uma pessoa rica é uma suposição, ainda que possa ser válida. Mas, às vezes, quando mais se tem, mais se quer. Maior é o alheamento. Acredito que, independentemente de ser rico ou pobre, todos temos algo pelo qual estar gratos. E partir do momento em que praticamos essa gratidão, descobrimos mais coisas para agradecer. Estou numa fase da vida em que sinto que nunca tive tanta abundância. A minha rede não é necessariamente maior, mas a minha vida é mais rica. Gastamos muito dinheiro a tentar parecer pessoas de sucesso, gastamos muito em porcarias. Eu invisto na minha saúde, no tempo com a minha família. Depois, algumas das pessoas mais felizes que conheci eram pobres. Mas tinham tudo o que precisavam, sabiam que eram amadas, que os serviços que prestavam eram valorizados. Amavam e eram amadas de volta. Não conheço as pessoas mais ricas do mundo, mas as mais felizes que conheci tinham muito pouco.

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