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Crónica Isabel Stilwell. Nunca filha dos meus filhos

Não há perigo da vaidade nos subir à cabeça quando temos filhos por perto. Pequenos, médios ou grandes, ainda sob o nosso teto ou apenas de visita, não hesitam em chamar-nos à terra. Ou, mesmo, em pôr o dedo na ferida.

Diane Keaton e Mandy Moore em 'Porque Sim!' (2007)
Diane Keaton e Mandy Moore em 'Porque Sim!' (2007) Foto: IMDB
17 de agosto de 2022 Isabel Stilwell

Quando [os filhos] ainda por cima contam com irmãos, qualquer almoço de verão em família é a ocasião perfeita para demonstrarem a força da aliança, unindo-se, entre gargalhadas, para nos acusar de sermos demasiado mães-galinhas, demasiado conservadoras ou liberais, demasiado preocupadas com o que os outros pensam, ou vergonhosamente indiferentes à opinião alheia, muito melgas ou implicativas, culpadas por lhes termos dedicado tempo a mais ou a menos. Uf, mas há mais, ingenuamente suscetíveis à lisonja ou, simplesmente, com o cabelo pintado da cor errada. E vão, animadamente, cada um à vez, ou num coro alegre, procurando na infância comum achas para a fogueira. Que nunca faltam, evidentemente.

Não admira que acertem quase sempre. Conheceram-nos antes de se conhecerem a si próprios, deram-nos nome, antes de pronunciarem o seu. Sentiram-nos por dentro durante nove meses e observaram-nos minuciosamente a partir do instante em que os segurámos nos braços pela primeira vez; leram-nos os olhos sempre que os pusemos ao peito, aprenderam a num relance perceber o que naquele dia, naquele momento, podem pedir de nós, viram-nos no nosso melhor e no nosso pior. E foram construíndo connosco uma ligação estreita e profunda, incondicional, que lhes permite a liberdade de à nossa frente poderem ser genuínos.

Certo. E é por isso que, mesmo quando fazem de nós bobo da festa ou bode expiatório, não nos importamos. Pelo menos, não muito. E até, na maior parte dos casos, juntamos as nossas gargalhadas às deles, reconhecendo-nos nos seus comentários — prevalece o sentimento bom de sermos amados por quem realmente somos.

Mas o que ajuda a suportar o embate, e a manter o sentido do humor perante o fogo cruzado, é a certeza interior de que nos "atacam" porque nos continuam a ver como mães. E as mães são, por natureza, chatas, mas também, aos seus olhos, pilares de força, que não estremecem perante as suas birras e desacatos. Para eles, mesmo se já com um ou outro cabelo branco, as mães não passaram (ainda) a pessoas frágeis e velhinhas que é preciso proteger. De cada vez que nos desafiam, é isso que nos querem dizer: "Continuamos a ser filhos, reage, refila, protesta, como uma mãe digna desse nome". Talvez até esteja, algures por aqui, a explicação para o crescendo de "implicanço" que sentimos quando os nossos próprios pais começaram a esquecer-se, a confundir-se, a cambalear, a deixar de ser tão fortes e independentes como sempre foram. Nos ajude a entender a inexplicável intolerância para as suas falhas, que nos leva a repreendê-los, a exigir-lhes mais, como se tivéssemos regredido a adolescentes mimados, comportamento que nunca teríamos com um "estranho" daquela mesma idade.   

Pois é, são sentimentos contraditórios e complicados, mas no próximo encontro de família, sob o sol de Agosto ou a calma de Setembro, diga a si mesma: "Que sorte tenho em mais um verão em que ainda não trocámos de papéis". E peça, como eu peço, a bênção de que depois deste, venham muitos mais assim, até à hora da morte. Porque quero muito, que mesmo quando já andar de bengala ou de cadeira de rodas, ou nem isso, consiga continuar a ser, aos olhos deles, sempre mãe. Nunca filha dos meus filhos.

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