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Catarina Beato: "Manter uma relação em nome dos filhos é o maior erro de sempre"

Nesta rubrica, as mães desafiadas pela Máxima falam sem filtros sobre a maternidade. Catarina Beato, autora do blogue Dias de Uma Princesa e mãe de Gonçalo, Afonso e Maria Luiza, fala-nos sobre a gravidez, o parto, e sobre ser mãe depois dos 40.

Foto: Instagram @catarina_beato_
16 de março de 2021 | Rita Silva Avelar

Qual foi a sua reação quando soube que estava grávida da primeira vez, do Gonçalo? Quem foi a primeira pessoa a quem contou, e quais foram as reações mais épicas/inesperadas, recorda-se?

Tinha 24 anos e estava de viagem com amigos e o pai do Gonçalo, o Diogo. Fui, às escondidas, a uma farmácia, e depois à casa de banho de um café com a Filipa, minha grande amiga. Quando vimos o positivo a Filipa saltou tanto que ia partindo a porta. O pai do Gonçalo desconfiou, contei-lhe logo a seguir, muito assustada e com medo da reação que teria. O Diogo tinha 19 anos e disse-me: "é o dia mais feliz da minha vida. Logo a seguir liguei à minha mãe. O meu pai tinha morrido há muito pouco tempo e foi uma luz de esperança enorme para todos. 

Como foram as suas experiências da gravidez? Houve diferenças entre umas e outras? Prós e contras, vale tudo…

As experiências foram todas diferentes porque os contextos eram diferentes. Aos 24 anos tive uma gravidez inconsciente, nunca pensava nisso. Fisicamente só o final foi difícil porque inchei muito. O parto sim, mudou-me. Até na forma como vivi a partir daí. Olhar para um ser indefeso de quem gostamos de maneira tão intensa é assustador. A gravidez do Afonso, depois de um início conturbado em que fiquei sozinha, foi vivida numa bolha de algodão doce. Foi tudo maravilhoso. Sempre com o meu Gonçalo por perto. Sem qualquer medo. Estava em modo leoa com as minhas crias. Já a Maria Luiza veio para uma família já grande, comigo a viver em casal. Fisicamente correu muito bem, embora com o impacto difícil de gerir, de ver o corpo mudar, num momento em que eu estava super focada na forma física. A ansiedade, com 37 anos, já foi maior. A partir de uma certa idade parece que pensamos mais no que pode correr mal. Imaginem agora!

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Quando o primeiro filho nasceu quais foram os seus primeiros pensamentos? Foi daquelas sensações avassaladoras?

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Foi assustador. Entre o amor infinito e o pânico total. Primeiro porque só pensava como ia dar conta de um ser tão pequeno. E depois porque é um amor tão grande que sufoca.

Lembra-se de quais foram (são) as recomendações mais "enervantes" dos amigos e da família?

São sempre as mesmas. Questionam porque dou tanta mama e responsabilizam a mama por todas as noites mal dormidas. Mas se isso me incomodou com 24 anos (em que cedi assim que me senti cansada e deixei de dar mama). Agora só faço aquilo em que acredito. Custa-me ler os desabafos maternais nas redes sociais em que toda a gente conhece uma solução. Nisto da maternidade é preciso ter espaço e tempo para o instinto funcionar. E precisamos muito dele. 

De que maneira experenciou e vivênciou o parto?

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Adoro parir. Um parto é algo único e de uma intensidade incomparável. Como em quase tudo na vida, não gosto muito de fazer planos. Confesso que nem penso muito onde vou ter os bebés. Na verdade, os dois últimos foram na Maternidade Alfredo da Costa e gostei tanto que teria lá o próximo. Não penso se será natural, cesariana, rápido ou demorado. É deixar acontecer (ainda que precise de um ambiente em que me sinta segura, por isso prefiro um hospital).

Quando é que os seus filhos a tiram do sério?

Tenho alguma dificuldade em lidar com o som do choro. Mas era um problema meu que tratei em terapia e está muito melhor. Não gosto de muita gritaria, nem que corram aos círculos (cada pessoa com a sua pancada). Assim, de forma mais geral, não gosto quando fingem que não me ouvem.

O que faz quando os seus filhos não estão a ver, mas que lhes diz para não fazer?

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Mexer nas tecnologias assim que acordam. Passar muito tempo no telemóvel.

Quais são os maiores desafios da maternidade, numa sociedade que exige tanto das mulheres?

O primeiro e principal desafio é ser livre para tomar decisões, sem culpa nem julgamentos alheios. A segunda será ter um emprego que possa garantir subsistência e permita viver o crescimento dos filhos. E também uma real partilha da parentalidade (depende de muitas coisas, como a licença de parentalidade e não só da vontade do pai e da mãe). Ser mulher ainda é um desafio gigante. Até para aquelas que não querem ser mães e sentem essa pressão.

É importante ter momentos só para si? De que forma é que consegue fazê-lo?

Preciso de silêncio, isso é aquilo que me faz mais falta. Pode até ser quando os miúdos adormecem ou antes de acordarem. Também sinto falta de namorar sem pressa, de dormir até tarde, de ler um livro sem interrupções, ir ao cinema e jantar fora. Vamos organizando-nos com a ajuda preciosa da minha mãe.

O que é que continua a ser tabu na maternidade, no ser-se mãe? Por exemplo, sei que já falou várias vezes sobre a sexualidade durante a gravidez, mas há muitos outros temas...

Eu acho mesmo que o maior tabu é ser mulher e não ser mãe. Falo sobre ter filhos de pais diferentes, sobre não manter uma relação em nome dos filhos (maior erro de sempre). E falo sobre sexualidade porque tenho a sorte de manter a líbido quando estou grávida. Mas nisto há duas pessoas e é preciso igualmente perceber como o parceiro sente esta fase da mulher. Se não queremos manter estes tabus é fundamental conversar.

Esperava ser mãe depois dos 40? Qual é a maior aventura desta mais recente gravidez?

Não esperava mesmo nada! Não só pelos 40 mas porque já tenho três filhos. A maior aventura é gerir todos, já somos muitos e com necessidades muito diferentes. Fisicamente foi mais fácil do que a gravidez anterior porque, como estava com mais peso, as alterações físicas são apenas a barriga que todos adoramos. A parte menos boa, a ansiedade. Nesta altura da vida já ouvimos tantas histórias horríveis que ficamos cheios de medo. 

É preciso acabar com o estigma de que depois desta idade já não há "espaço" para a maternidade, quando as condições estão reunidas para tal?

É preciso deixar de por um prazo de validade nas mulheres. É verdade que nascemos com um numero definido de óvulos mas isso não nos define. Se a vontade existe, é praticar e pedir ajuda se for necessário.

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