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Cecília Henriques: "Temos de proteger as mães, dizer que é okay chorar ou rir. Não gostar do parto também é normal."

Nesta rubrica, as mães desafiadas pela Máxima falam sem filtros sobre a maternidade. Cecília Henriques, que foi mãe de Celeste há apenas uma semana, fala da experiência da gravidez ao parto, à normalização dos baby bues no pós-parto.

Foto: @ceciliahenriques4real_
16 de abril de 2021 | Rita Silva Avelar

Qual foi a sua reação quando soube que estava grávida? Quem foi a primeira pessoa a quem contou, e quais foram as reações mais épicas/inesperadas, recorda-se? 

Olhei para o Filipe e disse: "E esta hein?". Estava nervosa e contente. Estávamos a tentar há 7 meses. Contei logo à minha irmã. Toda a gente amou a novidade. O pessoal até me curte! 

Como foi a experiência da gravidez? Prós e contras, vale tudo… 

Gostei muito de estar grávida. Mas agora que penso nisso, gosto muito mais desta parte, com ela cá fora. Mas estava muito feliz. Sentia-me feliz. Mas agora estou mais. O último mês é o maior quanto às dores, a ansiedade, o desconforto, o querer muito vê-la, as falsas contrações. 

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Quando a Celeste nasceu quais foram os seus primeiros pensamentos? Foi daquelas sensações avassaladoras? 

Só pensei isto: "conheço-a desde sempre". Não tive medo, nem dúvidas. Estava exausta mas conhecia a minha filha, como ninguém. E senti-me em paz. 

Quais têm sido (são) as recomendações mais "enervantes" dos amigos e da família?

Rodeio-me de pessoas que respeitam esta relação inicial de co-conhecimento. Entre pais e filhos. Só. 

De que maneira experienciou e vivenciou o parto? Sei que foram mais de 24h…

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Foi o momento mais duro, cru, solitário da minha vida. Nunca me senti tão exausta. Mas quando ela nasceu foi mágico.

Quais sente que são os maiores desafios da maternidade, numa sociedade que exige tanto das mulheres?

A pressão que existe para que as mães sintam algo em específico. Ou que o parto é mágico. Ou o amor à primeira vista. Ou que se recomponha do pós parto em três tempos. As mães precisam de apoio. Apoio médico, apoio da família, apoio do companheiro ou companheira, para que não se sintam sozinhas. Se não fosse o Filipe naqueles 5 primeiros dias, até de fazer xixi me tinha esquecido. O facto do parto ser um negócio, faz com que existam muitas modas, que causam imenso stress nas mães, para o aleitamento perfeito, ou para o sono perfeito. Temos de proteger as mães, dizer que é ok, chorar, ou rir. Não gostar do parto também é normal. Gostar também. Há que normalizar o baby blues e temos de falar mais sobre depressão pós-parto e normalizá-la. Uma mulher não é inferior a outra por ter tido depressão pós-parto. A saúde mental ainda é o maior estigma. 

Mesmo antes de ter a Celeste, falou de ideias que perpetuam a normalização de uma família dita convencional. Que ideias são essas que a sociedade tanto insiste em acentuar? O que quis dizer à sua comunidade? 

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Quero alertar para o negócio da puericultura. Temos um grande caminho pela frente. Mesmo. A ideia de família já não é a mesma que era há 20 anos. Temos de ter mais representatividade e diversidade. Toda a gente tem o direito de se sentir incluída. 

Foi mãe há menos de sete dias. Mas o que é que sente que continua a ser tabu na maternidade, no ser-se mãe e pai?

Ser mãe e mãe ou ser pai e pai. Ou ser pais. Ou uma mãe não binária e o pai não binário. Ser mãe solteira. E a falácia à volta da mãe perfeita do Instagram. Let’s brake it. Nós merecemos. Já vamos atrasados.

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