Moda

Luís Onofre: "Coloquei [a hipótese] de fechar lojas"

Será que a pandemia mudou a forma como compramos? E que impacto teve este ano na Moda nacional? O criador português Luís Onofre desenha hipóteses para o que aí vem.

Foto: D.R.
06 de janeiro de 2021 | Joana Moreira

Para Luís Onofre, o desespero de ter praticamente todas as encomendas de inverno canceladas e as lojas fechadas foi amenizado graças à nova loja online da marca, lançada em janeiro. "Fez a diferença, completamente", conta à Máxima. "Houve um aumento de quase 120% [em vendas online] e acho que ainda vamos conseguir aumentar mais neste fim de ano, o que veio mitigar um bocadinho tudo isto. Porque os dois meses que as lojas estiveram fechadas tiveram um impacto claro no resultado anual, que veio a melhorar substancialmente a partir de maio, com a reabertura das lojas, e houve um impacto no primeiro mês logo muito positivo, em que as pessoas começaram a comprar, houve clientes que reformularam outra vez as encomendas de inverno, e acabamos por até ter um resultado bastante eficiente", diz o designer.

No final, a quebra de vendas fixou-se em torno dos 8-9%. "Para as circunstâncias não é mau", considera, "visto que, por exemplo, a nível nacional o calçado teve uma quebra à volta dos 20%. Os números da Europa estão em quase 27%, e no mundo inteiro estão em 22%-25%, à volta disso". "Com quase 10 mil milhões de pares que não se produziram é um impacto profundo neste setor, isso não é discutível", diz.

Em cima da mesa chegou mesmo a estar o fecho de lojas. "Coloquei [a hipótese]. Principalmente no Porto. É tão estranho, porque, vou ser franco, a loja do Porto já não estava tão famosa quanto isso. Lisboa continuava com uma força enorme, devido ao turismo brutal, mas o que veio a acontecer foi exatamente o contrário. O Porto começou a subir, tanto é que os números no Porto hoje são bem acima dos do ano passado, quase 15%, e em Lisboa tivemos uma quebra de quase 50%, ou seja, isso quer dizer que o turismo é o responsável pelo sucesso da loja na Avenida da Liberdade", conclui.

Onofre justifica o aumento da procura na loja do Porto com a escassez de viagens. "Houve pessoas que não viajaram e não gastaram dinheiro, por isso optaram por comprar sapatos (risos)", e acrescenta com esperança: "quando isto passar vai ser muito positivo para a Moda". "Tenho tido conversas com clientes de lojas que estão num desespero brutal e eu tento dar-lhes um bocadinho de ânimo para se aguentaram o máximo possível, porque depois com certeza as coisas vão melhorar", diz.

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Onofre tem um otimismo que não esconde. "A minha expectativa é essa. Já começo a ver alguns buyers internacionais a apostarem muito, por exemplo, em sapatos de cerimónia porque vai haver muitos casamentos que não aconteceram em 2020. Correndo mal esperemos que em junho, julho, esta situação esteja resolvida, e volte a união das pessoas, o quererem estar com amigos e familiares, isso influencia a Moda, as pessoas quererem vestir-se, calçar-se, arranjar-se".

Luís Onofre, que é também presidente da APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seu Sucedâneos), acredita na recuperação da indústria, mas não de forma imediata. "Tenho a certeza que vamos sofrer ainda, principalmente porque as lojas ficaram com muito stock. Isso é algo que não podemos combater e que de facto vai ser o grande problema do nosso setor e do setor da Moda", diz.

E se uns, com a pandemia, optam por medidas de contenção, nomeadamente quanto ao lançamento de peças e coleções, Onofre é apologista do oposto: "Eu sou da opinião contrária. Acho que há colegas que optaram por fazer colecções-cápsula, acho muito bem, aproveitar coisas antigas e que possam com algum refresh dar uma lufada de ar fresco, mas é nestas ocasiões que devemos apostar tudo, porque de facto vivemos numa situação mesmo muito difícil. Se não conseguirmos criar uma emoção no cliente final que o leve por impulso a comprar, acabamos por deixar as coisas cair. É esse o meu conselho, é tentar nesta altura fazer as melhores coleções possíveis, tentar comunicar o melhor possível, nas redes sociais, nas lojas online, que têm tido um crescimento brutal e que têm sido a tábua de salvação de muitas marcas".

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