Celebridades

Joias ao ar! Os roubos extraordinários das últimas décadas

Isto não é um assalto, mas é um texto sobre os roubos de joias mais mediáticos das últimas décadas. Ficamos por aqui, pois, caso contrário, teríamos de publicar um outro número só acerca do assunto. O tema desperta curiosidade porque junta pedras preciosas, realeza, celebridades, museus, marcas de prestígio, polícias e ladrões. E, por vezes, as notícias da realidade confundem-se com histórias de ficção.
Por Carolina Carvalho, 19.11.2019

Cem mil libras! É a recompensa oferecida a quem tiver pistas sobre a tiara Portland. A joia em apreço é uma peça em ouro, prata e diamantes criada pela Casa Cartier no século XIX para a duquesa de Portland, de nome próprio Winifred, que a usou na coroação dos reis Eduardo VII e Alexandra de Inglaterra, bisavós da rainha Isabel II, em 1902. Essa tiara é considerada um tesouro nacional e estava exposta com uma pregadeira em diamantes com a qual fazia conjunto, na Galeria Harley, nos arredores de Nottingham, no centro de Inglaterra, desde 2016. Em novembro de 2018, em apenas um minuto e meio, foram levadas ambas as joias e, recentemente, o roubo foi tema de um episódio do programa Crimewatch, da BBC, sobre crimes por resolver, no qual a polícia inglesa apelou a qualquer pista que os espectadores pudessem fornecer e foi oferecida uma recompensa privada, através do Art Loss Register, de mais de 100 mil libras para informações que possam levar às peças desaparecidas.

As joias reais são peças especialmente apetecíveis para quem se dedica a roubar obras de arte ou de joalharia. Ao valor material acresce o valor simbólico, o que torna cada joia da realeza insubstituível e objeto de interesse nacional. E não é preciso recuar até à Revolução Russa de 1917 e recordar os mitos e as verdades sobre as joias desaparecidas dos Romanov para encontrar mais exemplos. Em julho do ano passado, dois homens entraram na catedral sueca de Strängnaäs, que data do século XIII e que fica nas proximidades de Estocolmo, e levaram duas coroas reais e um globo que pertenceram a um casal de monarcas do início do século XVII, Carlos IX e Cristina, a sua segunda mulher. As peças revestidas a ouro, pedras preciosas e pérolas estavam expostas numa vitrina, uma vez que é nesta igreja que o rei está sepultado. Os dois assaltantes fugiram de bicicleta e a seguir de barco a motor pelo lago Malar, o terceiro maior do país. A polícia iniciou uma caça ao homem e descreveu as peças roubadas como "peças sem valor estimado e de interesse nacional". Em fevereiro deste ano, a BBC noticiava que as joias tinham sido recuperadas na área de Estocolmo e que a polícia estava a trabalhar para confirmar se as peças eram genuínas. Um dos cúmplices foi a tribunal, mas as autoridades continuavam à procura de outros envolvidos. O Palazzo Ducale, em Veneza, recebeu no final de 2017 e no início de 2018 a exposição Treasures of the Mughals and the Maharajas: The Al Thani Collection, do sheik Hamad bin Al Thani, do Qatar. Em exibição estavam joias raras indianas, num total de 270 peças, algumas com mais de 500 anos. A mostra foi desenhada pela fundação do próprio sheik e tinha passado por museus como o Grand Palais (Paris), o Victoria & Albert (Londres), o Metropolitan (Nova Iorque) e o Miho (Quioto) e, quando tudo parecia ter corrido bem, acontece em Veneza um roubo no último dia da exposição. Um assalto às 10 horas da manhã resultou num par de brincos em diamantes e numa pregadeira em diamantes, rubis e pérolas que uma dupla de ladrões levou, simplesmente, no bolso.
Porém, dentro da temática da realeza, falta referir um dos roubos de joias mais mediáticos das últimas décadas e especialmente próximo a Portugal: o assalto ao Museon, Museu da Ciência de Haia, na Holanda, em 2002. Decorria a exposição The Diamond – From Rough Stone to Gem para a qual o Palácio Nacional da Ajuda e o Estado português emprestaram joias do tesouro nacional. Na madrugada de 2 de dezembro o museu foi alvo de um assalto do qual resultou o roubo de vários milhões de euros em joias de várias casas reais que tinham emprestado peças, entre elas seis joias da coroa portuguesa (um diamante de 135 quilates, um catão de bengala em ouro, um anel com um diamante de 37 quilates, uma gargantilha em ouro e prata com brilhantes e dois alfinetes em forma de trevo com diamantes e brilhantes). O roubo demorou cerca de 40 minutos, tendo os ladrões chegado à sala do tesouro, que tinha sido construída de propósito para receber estas peças e onde estavam as joias portuguesas. Partiram os expositores de vidro com um martelo que depois abandonaram no local e saíram com o saque. As câmaras de segurança e os alarmes dos expositores não estavam ligados à sala da central de segurança, ninguém se apercebeu do roubo e as autoridades holandesas investigaram durante sete anos até que, em 2009, a investigação chegou ao fim não se tendo encontrado culpados nem sequer se tenha recuperado as joias. Em 2006, Portugal recebeu uma indemnização de 6,1 milhões de euros pela perda das peças.

As vítimas preferidas do momento, contudo, parecem ser as celebridades. A edição americana da revista Town & Country dedicou-se a investigar o tema e o resultado está num artigo que data de maio de 2018. O rápido desenvolvimento das tecnologias permitiu tornar os sistemas de segurança mais sofisticados, mas também facilitou muito a vida a quem tem um excessivo fascínio por pessoas famosas e procura saber mais sobre as suas vidas. O filme The Bling Ring, de Sofia Coppola, conta uma história real de um grupo de adolescentes, no sul da Califórnia, que procura informação detalhada sobre a vida de algumas celebridades que vivem naquela zona com o objetivo de lhes assaltar a casa e roubar pertences. Paris Hilton foi uma das vítimas reais deste esquema e também aceitou participar no filme fazendo, claro, de si própria. No artigo acima mencionado refere-se que os especialistas disseram que, relativamente a joalharia, a segurança começa em casa, principalmente quando as pessoas ou as famílias têm um staff. E exemplificam com a ilha de Manhattan, onde os roubos que ocorrem em prédios e são realizados por pessoas que lá trabalham são bem mais comuns do que se deixa transparecer. O facto de haver sempre mercado para a joalharia, de estas peças serem fáceis de transportar e também a exposição que alguns possuidores de joias lhes dão nas redes sociais são três fatores que contribuem para a popularidade destes crimes. Por isso aconselha-se, em primeiro lugar, discrição e prudência. E há que ter em conta que o roubo de peças de alta-joalharia a pessoas muito ricas não desperta grande empatia no público.

Já que referimos as redes sociais, a rainha do Instagram tem uma história para contar sob este tema dos roubos de joias. Em outubro de 2016, Kim Kardashian instalou-se em Paris para uma semana de moda e de eventos e fez-se acompanhar de uma entourage. A revista Vanity Fair dedicou uma investigação ao caso num artigo publicado no final de 2016, The Inside Story of the Kim Kardashian Paris Hotel Heist, onde explica como tudo aconteceu. A morada escolhida foi o No Address Hotel e, entre os paparazzi à porta e os posts nas redes sociais nas semanas que antecederam a ida para Paris e já durante a estadia, era fácil seguir os passos de Mrs. Kardashian-West. Num esquema suficientemente bem montado para apanhar Kim num dos raros momentos em que ela estava sozinha (o guarda-costas que a acompanhava na viagem tinha ido escoltar as irmãs Kourtney Kardashian e Kendall Jenner a uma festa) no seu apartamento. Os assaltantes invadiram o espaço, taparam-lhe a boca com fita-cola, ataram-lhe os pulsos e os tornozelos, apontaram-lhe uma arma à cabeça e gritaram freneticamente por dinheiro, até que a diva lhes deu para a mão o anel de noivado (com um diamante de 20 quilates). O roubo terminou com quase 10 milhões de euros em joias e os criminosos a fugirem de bicicleta. O caso foi tão mediático que coube à unidade de crime de elite de Paris, La Brigade de Répression du Banditisme (conhecida como BRB), especializada em crime organizado, e o caso ficou entregue a um dos responsáveis pela investigação dos ataques terroristas parisienses de novembro de 2015 em que o teatro Bataclan foi um dos alvos. Apesar de tudo, há alguma cenografia nestes crimes realizados em cidades como Paris, em espaços luxuosos e com personagens glamorosas. O mesmo acontece mais a sul, em Cannes, onde o prestigiado hotel Carlton foi alvo de dois assaltos depois de ter sido um dos cenários do filme Ladrão de Casaca (de Alfred Hitchcock, de 1955), no qual Cary Grant interpreta um ladrão de joias e Grace Kelly a herdeira americana que descobre o segredo dele e depois o ajuda a resolver o mistério do enredo. Em 1994, o gangue Pink Panthers (adiante explicaremos o que é) assaltou a joalharia daquele hotel ao som de metralhadoras (que dispararam em seco porque não havia sinal das balas nas paredes) e levou joias e diamantes no valor de 60 milhões de dólares. Em julho de 2013, um único homem, usando um boné e empunhando uma arma na mão, irrompeu pela sala de exposições e saiu dela com uma pasta repleta de joias no valor de 136 milhões de dólares e que eram pertença do multimilionário israelita Lev Leviev.
O hotel Carlton, em Cannes.

Também em Cannes, em 2015, a loja da Cartier, situada na Avenida Croisette, foi invadida por ladrões que apontaram uma arma aos funcionários e aos clientes e levaram 17,5 milhões de euros em joias e em relógios. O crime aconteceu antes da abertura do Festival de Cinema de Cannes, numa altura em que as lojas de joias da cidade recebem inúmeras peças para as celebridades usarem nos eventos. Ao longo dos anos, vários roubos semelhantes a este têm acontecido também a outras marcas. Porque, afinal, os ladrões também escolhem ir diretamente à fonte das joias: as marcas! Em setembro deste ano, a revista Vanity Fair dedicou um longo artigo de investigação aos assaltos à loja Harry Winston, em Paris, na prestigiada Avenue Montaigne, A Stunning Coup: The Almost Unsolvable Harry Winston Diamond Heists. O que se conclui de um minucioso relato dos acontecimentos é que o golpe foi elaborado com precisão extrema e (quase) infalível e que, mesmo no triângulo dourado do luxo em Paris (Avenue Montaigne, Avenue George V e Champs Elysées), ninguém está imune a um golpe desta dimensão. O crime que o próprio inspetor responsável pela investigação classificou como um "coup d’éclat (um golpe brilhante)", tudo indica, teve a autoria da quadrilha Pink Panthers. O maior bando de criminosos na área da joalharia, que tem origem na antiga Jugoslávia e muitos dos seus elementos são homens que combateram na Guerra dos Balcãs, conta com centenas de ladrões de joias, a quem se atribuem mais de 400 roubos por toda a Europa, desde 1999. A tática, a precisão e a rapidez militar são as suas assinaturas. O nome do grupo é inspirado no filme A Pantera Cor-de-Rosa que tem como protagonista o Inspetor Clouseau que também investiga roubos de joias. No artigo da Vanity Fair, o jornalista chegou a falar com um dos fundadores do gangue, Pavle "Punch" Stanimirovic, e segundo este houve sempre por parte da quadrilha a preocupação de nunca magoar ninguém durante os golpes. O assalto à Harry Winston é um dos roubos que fica na História até por ter sido duplo, nomeadamente a 6 de outubro de 2007 e a 4 de dezembro de 2008, tendo ambos sido possíveis devido à cumplicidade de um segurança ao serviço da joalharia. Esses dois assaltos renderam aos assaltantes 37 milhões de dólares, tendo sido roubado um diamante de 31 quilates, no valor de 8 milhões de dólares, que nunca foi resgatado. Assim como o assalto ao Museu de História Natural, em Nova Iorque, em 1964, no qual foram roubadas 22 joias, entre elas a safira Estrela da Índia. O ladrão, Jack Roland Murphy, era surfista, músico, crítico de cinema e jogador de ténis profissional e praticou o roubo para ser o "Número Um" deste tipo de crime. Acabou por ser detido, assim como os seus cúmplices. Este é considerado o maior roubo da história dos Estados Unidos da América e deu guião para um filme: Murf the Surf, de Marvin J. Chomsky, em 1975.

Filmes com roubos de joias. Ladrão de Casaca (Alfred Hitchcock, 1955). The Blong Ring (Sofia Coppola, 2013). Ocean's 8 (Gary Ross, 2018). King of Thoives (James Marsh, 2018).

Em 2015, Londres foi palco daquele que é considerado o maior roubo de sempre no Reino Unido. Um grupo de ladrões, com idade sénior, conseguiu roubar cerca de 30 milhões de dólares em joias do cofre subterrâneo da Hatton Garden Safe Deposit Company, no local conhecido como a zona dos diamantes em Londres. Das 996 caixas dentro do cofre, foram abertas 73 de onde foram retirados diamantes e safiras, maços de notas e lingotes de ouro e de platina. O golpe ficou conhecido como Hatton Garden, o nome da rua e da zona comercial onde está o cofre industrial que foi assaltado. Foi tudo tão bem planeado que, durante meses, se acreditou ser obra do gangue Pink Panthers. No entanto, no mês seguinte percebeu-se que não. Nove homens foram presos (foram oito os condenados e um foi absolvido) e um outro anda a monte. Dois terços do roubo ainda não foram recuperados. Esta história também deu um filme, King of Thieves (de James Marsh, de 2018), protagonizado por Michael Caine. Na sequência deste golpe, o Financial Times (FT) noticiou, em junho de 2015, que os roubos de diamantes levaram a um pico na venda de seguros. Veio a saber-se que muitas das caixas-cofres pertencentes a joalheiros que estavam em Hatton Garden não tinham seguro. Acreditava-se que esse formato era altamente seguro, mas tudo mudou. A Assetsure, especialista em seguros de peças preciosas, disse ao FT que depois deste crime duplicou o número de clientes que procurou seguro para as peças em cofres. Londres tem o maior mercado de seguros com cobertura para joalheiros em todo o mundo.

Os grandes roubos dão muito trabalho por requererem meses de preparação. Há quem se especialize neste tipo de roubos e que neles consiga marcar um cunho e algum estilo. Num artigo do jornal The New York Times, que remonta a 1964, com o título The Aristocrats of Crime, conta-se a história de um dos ladrões de joias mais famosos dos Estados Unidos da América. Arthur Barry roubou milhares de dólares em joias, na década de 1920, com uma tática tão simples como vestir um smoking, entrar em festas sem ser convidado, em Long Island, e passear-se pelas casas em busca de joias. Quando regressava ao local escolhido para fazer os roubos e se as vítimas acordassem a meio do assalto, Barry dizia-lhes, num tom calmo: "Boa noite. Eu vim apenas para levar as vossas joias. Não vim para magoar ninguém. Por favor não se preocupem." Conta o artigo que depois do assalto, o ladrão cortava a linha telefónica e levava aspirinas, cigarros e roupões às suas vítimas, antes de desaparecer pela janela. Mandam os mandamentos do crime que haja honra entre ladrões. E, aparentemente, cavalheirismo também.

Tags: joias roubos museus realeza diamantes história exposição cinema
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