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Escolas encerradas, férias “forçadas.” Como reagem pais e filhos a este segundo confinamento?

Após vários dias de impasse, o fecho dos estabelecimentos de ensino implicou decisões autónomas (e algumas antecipadas) por parte dos pais, stress junto das crianças e jovens e alguma impaciência nas escolas, creches, e ATL’s. Uma psicóloga e duas famílias refletem sobre os desafios para miúdos e graúdos desta nova fase.

Foto: Getty Images
26 de janeiro de 2021 | Rita Silva Avelar

Insegurança, apreensão, angústia e impassividade estão no léxico dos tempos de pandemia em que vivemos, e também na vida dos pais e filhos que aguardaram pacientemente (ou não) as medidas do Governo neste segundo confinamento sobre o fecho dos estabelecimentos de ensino.

Pais de Rodrigo, 3 anos, e Laura, sete meses, Ana Sanches e Diogo Onofre criaram a página Dido & Co sobre gravidez, parto e parentalidade e que inclui publicações, como 6 conselhos para pais em teletrabalho no primeiro confinamento. Sobre esta "segunda volta", começam precisamente por falar em "apreensão" como a palavra do momento. "Estamos apreensivos com o que se está a passar, porque acompanhámos de perto os números", conta à Máxima Ana Sanches. "Isso, aliado a um relato de um maior número de casos em crianças e nas escolas, criou-nos uma maior apreensão do que no período anterior", reforça Diogo, que também sentiu a angústia, como pai, do impasse da decisão do Governo em fechar as escolas, o que o levou a procurar, por si, mais informação. "Foi por isso que antecipámos as medidas do Governo e o Rodrigo veio para casa mais cedo, achámos que devíamos ser mais rigorosos do que o nosso Governo estava a ser." Por essa altura, já os casos diários em Portugal superavam os 10 mil e as mortes as duas centenas, e os comunicados da escola já tinham disparado, por casos de contágio ou isolamento profilático.

Filipa Jardim da Silva, psicóloga e fundadora da academia online TRANSFORMAR, confirma a angústia e apreensão como sentimentos normais por estes dias, um loop sem fim à vista. "Todo o cenário de pandemia tem gerado imprevisibilidade e impotência na generalidade das pessoas. Este impasse em relação às escolas suscitou precisamente alerta nas famílias, por não saberem exatamente o quê e quando iria acontecer, como tudo o que qualquer alteração implica. Todo este cenário de imprevisibilidade permanente é gerador de insegurança por um lado e acarreta a necessidade de adaptação rápida, por outro", esclarece.

Quando o primeiro-ministro António Costa falou ao país pela primeira vez a anunciar as novas medidas de confinamento, a 13 de janeiro, as escolas estavam fora da equação no que tocava ao fecho. No dia seguinte, admitia recuar se fosse necessário. E nos dias que se seguiram, já ponderava encerrar as escolas caso a nova variante britânica do SARS-CoV-2 fosse significativa em Portugal. "Neste caso em menos de duas semanas o discurso das entidades competentes mudou da garantia que as escolas se manteriam abertas e eram espaços seguros de pouca propagação do vírus para a decisão de fechar as escolas de um dia para o outro, dando conta também de uma transmissão elevada na população jovem, ainda que muitos jovens estejam assintomáticos. Percebe-se assim a fadiga mental que esta pandemia gera, ao requerer uma constante capacidade de ajuste e uma permanente necessidade de regulação emocional. No caso dos pais, esta regulação tem de ser feita a nível individual e também parental, apoiando os mais novos em função das suas necessidades", explica a psicóloga clínica.

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A 21 de janeiro, quinta-feira, o primeiro-ministro António Costa acabou por anunciar a decisão sobre o encerramento de todas as escolas, mas também dos ATL e das creches, depois de no dia anterior o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa ter dito que a decisão teria que ser tomada nas próximas horas. Mas durante esses dias de impasse, houve pais que agiram antes do Governo, como foi o caso de Ana e Diogo. "Depois do segundo confinamento, fomos da corrente que achava que existia demasiado protecionismo (por exemplo, quanto às crianças poderem brincar em parques). Sabíamos que existiam muitos pais a seguir esta ideia, mas também muitos outros que nem tanto. Neste caso em particular, com o fecho, não vemos assim tantas opiniões divergentes", explica Ana, apesar de Diogo achar que para pais com filhos mais velhos a experiência possa ser diferente.

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De acordo com Filipa Jardim da Silva, isto acontece porque "a experiência do primeiro confinamento ainda está presente para muitas famílias, e para muitas não foi uma boa experiência. A dificuldade em conjugar teletrabalho com o apoio de aulas em casa, a quebra de rotinas abrupta com toda a agitação que isso gerou em miúdos e graúdos, a maior distração das crianças a aprenderem através de um computador (isto para os que tinham equipamentos disponíveis), a necessidade de muitos pais em permitirem excesso de ecrãs para entreter os filhos, e a frustração acumulada ao final do dia de não se estar de forma inteira em lado nenhum e não se terminar quase nada de forma satisfatória" esclarece. "Essa experiência, passada negativa para muitos pais, fez com que muitos receassem um segundo confinamento. Adicionalmente, a informação veiculada nos últimos meses e a experiência do primeiro trimestre foi de segurança nas escolas o que também reforçou os ganhos de continuidade de aulas presenciais."

Mariana Castro, officer manager numa agência de comunicação, mãe de Maria do Carmo, 8 anos, e António, 6 anos, que frequentam a terceira e primeira classe numa escola privada, optou por esperar pelas medidas do Governo. "Estes tempos têm sido muito difíceis para as famílias. Tentamos, da melhor forma possível, passar aos nossos filhos tranquilidade, e boas práticas. Mas estávamos a sentir o cerco a apertar, cada vez havia mais casos, e uma maior noção de que esta doença estava pior, principalmente nos círculos das escolas", começa por dizer. "Mal chegou o calendário escolar deste ano, fui da opinião de que não fazia sentido as crianças voltarem à escola dia 3 de janeiro, porque é claro que as pessoas iriam acabar por estar com as famílias no Natal e na passagem de ano", e desabafa que o "impasse fecha ou não fecha" criou alguma angústia. E se num primeiro confinamento retirou os filhos da escola três dias antes do anúncio oficial do fecho das escolas, "desta vez esperámos pela decisão do Governo. Temos uma posição relativamente diferente, porque a escola dos nossos filhos é mais pequena, só tem uma turma por ano, o que me dava alguma segurança."

Mariana faz parte dos pais que não concorda em absoluto com estas medidas, sobretudo pela imposição de férias de emergência decretadas pelo Governo por duas semanas, sem aulas digitais. "Esta questão de existirem férias forçadas não fez sentido, na minha opinião. Eu percebo a questão das desigualdades entre ensino público e privado, mas essa questão vem do facto de o Governo não ter conseguido garantir às escolas públicas aquilo com que se comprometeu, que foi a questão da distribuição dos computadores. E se em nove meses não conseguiram resolver este problema não vai ser em 15 dias que o vão fazer. Na minha visão pessimista do tema, acho sinceramente que vamos ficar assim até à Páscoa. Acredito que começaremos com o ensino à distância, mas acho que toda a situação foi injusta. Penso que foi uma jogada política sem sentido. O que me deixa muito triste é sentir que estamos a boicotar a educação desta geração, e a torná-la frágil."

Sobre os efeitos psicológicos de um segundo confinamento nas crianças e nos jovens Filipa Jardim da Silva acredita que os "dependem muito da faixa etária, das características individuais de cada criança e jovem, e do próprio contexto familiar e circunstâncias específicas atuais. Em alguns casos, este segundo confinamento poderá ser sentido como algo negativo, gerador de revolta pelo afastamento dos amigos e/ou gerador de medo por existir mais convivência familiar, em contextos em que o ambiente familiar não é positivo e em que a escola constitui um apoio e escape". Não tem de ser, necessariamente assim. "Noutros casos, esta situação pode ser vivida de uma maneira mais tranquila, mesmo com que alguma frustração pelo meio, com suporte familiar e uma adaptação de rotinas que respeita as necessidades de cada um." E atenção, há crianças, diz a psicóloga, "mais atentas ao mundo exterior, com preocupações de gente crescida, que podem assim assemelhar mais ansiedade e outras crianças mais ligadas ao seu mundo infantil, focadas no aqui e no agora, que podem encontrar distrações que a mantenham entretidas num universo de brincadeira e criatividade."

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Diogo e Ana são da opinião de que tudo irá depender da duração deste segundo confinamento. "Se for umas semanas, pode ser facilmente comparável a umas férias, mas se se estender por um período longo as consequências podem ser grandes. Por outro lado, tudo isto poderá acentuar diferenças e dificuldades que já possam existir em algumas famílias. Este ano vai ser um ano em que a saúde mental de toda a gente, em particular das crianças e dos jovens, tem que ser considerada. Já são muitos meses, e voltar outra vez à sensação de que estão presos e de que não podem socializar, em idades em que isso é tão importante, vai ter consequências" considera Ana. Diogo acredita que "os psicólogos nas escolas vão ter uma importância como nunca tiveram. O que me assusta é o seguinte: há um estudo sobre as particularidades de cada país, que diz que Portugal é conhecido pelas pessoas terem muito medo de arriscar, que é dos países com mais aversão ao risco. Uma crise destas ainda vai acentuar mais isso, e pode não ser um traço geracional benéfico."

Sobre este aspeto, Mariana revela que "apesar de tentarmos passar calma e serenidade aos nossos filhos, obviamente que o impasse, eles sentiam-no, ao verem amigos de outras escolas e colégios a ficarem em casa. Perguntam-me muitas vezes: então hoje, quais são os números? Apesar de nós, antigamente, vermos as notícias com eles, agora temos evitado fazê-lo para não lhes retirar a calma e a serenidade." Ainda assim, acredita que as crianças têm capacidade de adaptação. "Acho que eles conseguem superar, ultrapassar o que nunca imaginamos que seja possível, mas acima de tudo o grande desafio é a questão da sociabilização (…) No verão passado, quando a minha filha viu a melhor amiga, chorou. Enquanto mãe, foi uma coisa que me emocionou muito. Foram meses em que se viam pela internet e falavam ao telefone, mas faltava tudo o resto" desabafa, não esquecendo que a filha, Maria do Carmo, voltou a chorar quando soube que ficaria de novo em casa, na semana passada.

Questionada sobre se as crianças precisarão de ser "reintegradas" em sociedade, no fim da pandemia, enquanto psicóloga Filipa acredita que sim. "São muitos meses de restrições a várias dimensões. Meses em que o "não podes" e o "é proibido" se multiplicaram, meses em que os outros passaram a ser vistos como "perigosos", em que o distanciamento físico se tornou a norma, em que os rostos desapareceram parcialmente, em que a socialização ao vivo e a cores diminuiram drasticamente, em que a liberdade ficou condicionada" sublinha. "Tudo isto tem impacto nos cérebros e estruturas de funcionamento de crianças, jovens e adultos, em função das suas fases de desenvolvimento, de características pessoais e da forma como a pandemia está a ser vivida pelas suas famílias." Mariana concorda. "Estas crianças precisam de reaprender a socializar, de uma forma normal, sem interrupções e sem incerteza. As escolas e os pais têm um papel, mas depende muito de cada criança. O meu filho António precisa de correr, brincar com os amigos, jogar à bola. Os nossos filhos sentem-se frustrados, e mesmo que tenhamos uma casa grande, começamos a "chocar" uns com os outros."

Sobre este segundo confinamento e a ausência de aulas, Filipa Jardim da Silva acredita que é preciso olhar, também, para o lado positivo. "O facto de as crianças não estarem em aulas à distância retira uma grande carga aos pais e também aos mais novos. Este segundo confinamento é na prática um período de férias antecipado. Assim, os pais podem organizar os dias dos seus filhos sem a pressão do desempenho académico, procurando garantir atividades lúdicas e atividades mais pedagógicas, tempos para brincar livremente e tempos para brincar de forma mais estruturada, apoiando nas atividades de casa e integrando a dinâmica familiar." E alerta, ainda: "considerando as circunstâncias de confinamento, é importante que os pais pensem em formas dos filhos libertarem a energia que lhes é natural, com atividade física, seja em espaço exterior ou mesmo por casa. É importante que o uso de tecnologias seja supervisionado e regulado pelos adultos. Os ecrãs dão uma falsa sensação de segurança aos pais que acham que estão a ver o que os filhos estão a fazer e a visionar, e muitas vezes não sabem."

Rodrigo, três anos, filho de Ana e Diogo, já em confinamento.
Rodrigo, três anos, filho de Ana e Diogo, já em confinamento.
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Por fim, é importante não esquecer a saúde mental dos pais e encarregados de educação. "Tudo isto naturalmente que irá requerer mais esforço das famílias, para se desdobrarem mais vezes ao dia por múltiplos papéis, em muitos casos sem suporte adicional. Daí que o cansaço que tantos adultos dizem sentir seja compreensível, a par da real exigência emocional que estas adaptações permanentes carecem. O autocuidado e a observação plena devem ser práticas regulares" lembra Filipa Jardim da Silva. "O nosso cansaço vai ser um fator importante e para nós, pais, é complicado. O nosso trabalho acaba por ser afetado por isto, estamos menos concentrados, preocupados com almoços e lanches, com as interrupções deles, é tudo natural" sublinha Mariana, que criou um horário aos filhos, para que trabalhassem de manhã e de tarde brincassem, ainda antes de saber da existência das férias impostas. "Claro que isto implica retirar do nosso tempo para os ajudar. Ficamos sem tanto tempo de lazer ou de descompressão, e isso também mexe connosco enquanto pais", acrescenta, explicando que no caso da escola dos filhos, esta criou um calendário de atividades lúdicas para duas semanas, como atividades de Matemática, Estudo do Meio e horas de leitura, o que ajudará a descomprimir. "A ideia da escola foi não deixar os alunos sem nada para fazer e permitir aos pais que mantenham as suas rotinas."

Sobre esse ponto, Ana e Diogo reagem com boa disposição e dizem ter adotado uma expressão para o momento: barely surviving. "Estamos meramente a sobreviver (riem-se). Muitos pais devem estar a pensar no que poderão fazer para que os filhos estejam bem em casa, mas é um exercício que também nós nos forçamos a voltar a ele" explica Ana. "No fundo, passa por conseguir encontrar um bom equilíbrio com o trabalho, e isso passa por assumir que não se irá ter a mesma produtividade e disponibilidade para tal. Felizmente os nossos empregadores compreendem isso.". Diogo diz ainda terem uma estratégia: "Quando um está quase a perder a paciência, entra o outro em ação!".

Laura, sete meses, filha de Diogo e Ana, já neste segundo confinamento.
Laura, sete meses, filha de Diogo e Ana, já neste segundo confinamento.
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Através da página que criaram no Instagram, seguida por quase 20 mil pessoas, Ana e Diogo tentam apaziguar as dúvidas dos pais e esclarecer temas comuns à parentalidade, e aos desafios da pandemia. Há uns meses, por exemplo, o casal apelou à necessidade de as crianças continuarem a brincar nos parques. "Estava tudo numa fase mais calma, e estava tudo aberto menos os espaços para crianças. Era uma fase diferente da atual. Nesta fase, é mostrar que somos uma família normal como qualquer outra e também temos os nossos desafios", explica Ana, que apela com frequência a que as pessoas procurem ajuda quanto à saúde mental, e também passa mensagens de resiliência. Diogo acrescenta ainda que usam "o amor e o sentido de comunidade para que as pessoas não se sintam tão sozinhas. Partilhar é sempre positivo."

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