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Um conselho mau para Dezembro

“2020 foi também um ano que nos relembrou várias coisas importantes: somos todos a mesmíssima coisa frágil que para aqui andamos.”

A Felicidade Não Se Compra (1946)
A Felicidade Não Se Compra (1946) Foto: IMDb
02 de dezembro de 2020 | Cláudia Lucas Chéu

Para muitos, provavelmente para a maioria, Dezembro é o mês do Natal, da família e da fartura. Época para esbanjar tudo aquilo que se amealhou durante 11 meses, e que se lixem as poupanças, o principal é que haja saúde e que os miúdos fiquem felizes, porque enquanto tivermos dois bracinhos e uma cabeça para trabalhar, não nos há-de faltar nada. Sempre impliquei com esta teoria, mas este ano é diferente. Penso que este ano, para quem pode, a vingança dos meses de contenção será válida e ainda maior. Foram tempos difíceis para todos, e no mundo inteiro, mas 2020 foi também um ano que nos relembrou várias coisas importantes: somos todos a mesmíssima coisa frágil que para aqui andamos. Pudemos sentir o medo colectivo e, de certa forma, o medo somado.

O que este ano também veio relembrar foi que não há esperança para a raça humana. Somos incorrigíveis, e pronto. Nunca acreditei que a pandemia da covid-19 viesse para mudar os homens, as mulheres e o mundo para algo melhor. Somos naturalmente inadaptados da natureza, mas com mais ou menos facilidade nos adaptamos a uma catástrofe. Nunca nos adaptamos ao que nos é dado pela terra mãe, mas somos especialistas em adaptar-nos aos desastres. Sempre tentámos moldar a terra mãe à nossa natureza. É certo e direitinho que o nosso paradigma está errado: uma mãe é que deve educar os filhos, e não o contrário. Se não tivemos culpa do vírus que assola o mundo, também não mudámos quase nada depois de estarmos a viver com o bicho. Somos aquela pessoa cheia de manias, que quando junta os trapinhos com alguém e é confrontada com alguma crítica, justifica-se sempre com um "eu sou assim, o que é que queres?". Muitos têm tido esta atitude na relação com o bicho maléfico. "Não penses que vou mudar a minha vidinha só porque te mudaste cá para casa. Eu já era assim antes de te conhecer." Pois é. Este Dezembro, este Natal, tem um convidado invisível à mesa. Não o alimentem, nem lhe dêem prendas, por favor. Mas tenham-lhe respeitinho. É que é um tipo que ninguém convidou, mas que não nos sai da cabeça, nem de casa, há meses e meses.

O meu conselho mau (sei bem que o é) é que esbanjem tudo o que houver para esbanjar neste Natal, quem puder fazê-lo, claro, e que se vinguem a valer, que sejam felizes e que façam outros felizes durante umas horas. Sei que é mesmo politicamente incorrecto o que acabo de afirmar. Mas não retiro. Eu que sempre detestei o consumismo da data, este ano terei de me calar bem caladinha, porque se não posso abraçar os meus na noite que celebra o nascimento de Jesus e do Deus da Coca-cola, terei de os fazer felizes de outras maneiras. Seja com prendas feitas à mão, ou com outras mais caras (dentro das minhas possibilidades), terei de os fazer felizes por meses de tristeza. Andamos todos mais cansados e tristes, e como se sabe, a tristeza não é boa para a saúde. Não podemos dar o flanco ao tal convidado invisível que se sentará connosco na ceia de Natal. Haja valor para os que amamos e que merecem tudo. Haja fartura. Quando terminar Dezembro, logo se vê. Um dia de cada vez, como se diz a um ex-drogado. Quando terminar Dezembro, em Janeiro, logo se vê o que houver para ver. O que é preciso é saúde, e da boa. Dizem os mais velhos, e eu agora passei a subscrever.

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990. 

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