Crónica Dating em Lisboa

“Recorri do direito ao orgasmo numa terça-feira à noite e recebi mais do que antevia”

Foto: IMDB
21 de novembro de 2022 Maria Pestana

Recordo-me perfeitamente do momento em que a minha mente começou a divagar – e eu sou bastante prática nestas coisas –, portanto, da listagem de tarefas para o dia seguinte até ao pior pensamento que se pode ter durante o sexo foi um pulo, "mas quando é que isto acaba?". Por mim, tínhamos terminado ao fim de dez ou quinze minutos (não que estivesse a contar, mas suponho que terá rondado isso), quando tive um orgasmo bastante satisfatório. Confesso até que me surpreendeu e dei um high five mental a mim própria. Afinal, isto dos orgasmos em tempo recorde durante o sexo casual nem sempre é uma promessa cumprida. Mas nessa noite estava bastante focada em cumprir com o propósito daquele encontro e daquela foda em particular: ter um orgasmo - o que seria não ter, já agora… -, e contrariar a minha psicóloga que, numa sessão uns dias antes, defendera fortemente a ideia de que deveria dar uma última oportunidade a este date.  

Já tínhamos tido alguns encontros, todos desinteressantes e focados no quanto ele, supostamente, me compreendia e no quanto poderia contar com a sua ajuda para ultrapassar os meus "problemas". De todas as vezes, eu sorria e respondia que não precisava de ajuda para ultrapassar os meus "problemas", eventualmente, precisaria de apoio. Já pagava a uma psicóloga para ter aconselhamento profissional. Voltando a ela, a opinião era de que eu estava a embirrar com o tipo. Era um bom rapaz, meio carente, sim, mas estava disponível para estar comigo, para me tratar bem, para me mimar. "Estás habituada a tipos que te tratam mal, que não querem saber de ti, que são um desafio. Agora, tens um que gosta de ti e te quer e tu não o queres", dizia. Não tinha propriamente como discordar, aliás, este deve ser um dos maiores clichés no que diz respeito aos relacionamentos – queremos sempre o que não podemos ter e muito, mas muito, quem não nos quer.

Pensei que poderia recorrer ao argumento de que a química não se constrói, ou se tem ou não tem, que tinha tentado e ao fim de vários dates continuava a faltar qualquer coisa. Afinal, ele era loiro e toda a gente sabia que só um moreno de olhos verdes me tira do sério. A sugestão dela tinha sido algo como: "Acho que deves voltar a ter um date com ele, só para teres mesmo a certeza e perceberes o que sentes realmente. Acho que te deixas condicionar demasiado. Desfruta!". Farta de saber o que sentia estava eu, aborrecimento, do mais puro, mas não se contraria a psicóloga. Pensa-se sobre o que diz e depois toma-se uma atitude ponderada. Por isso, depois de 5 minutos de ponderação o meu objetivo era simples: tentaria e falharia, com toda a certeza, mas falharia só para ter o gosto de dizer que tentei.

Convidei-o para jantar, vimos um filme, nem sequer me recordo qual, fingi que não notava quando a cada suspiro se aproximava mais de mim no sofá. Também fingi não perceber quando, já apoiado em mim, começou a fazer-me carícias na coxa despida até que, já sem paciência, mas determinada, lhe peguei na mão e a pousei mais acima. Acho que nesse momento disse adeus à romântica que existia em mim e me assumi como a pessoa prática e desempoeirada que sou, porém, minutos mais tarde dei por mim num impasse. Ele queria manter o romantismo e teimava em fazer durar a relação. Eu queria acabar com aquele ato de amor fofinho não solicitado o mais rapidamente possível. "Queres ajuda para terminar?", perguntei. "Por mim está bom assim. Não está bom para ti?". "Está", menti descaradamente, exausta e aborrecida, "mas preciso de água", acrescentei e fugi.

Na cozinha, enquanto bebia água encostada ao balcão tive um dos mais complexos monólogos da minha vida. Como dizer-lhe de forma simpática que teria de se ir embora? Rondavam as duas da manhã, ao sair do quarto reparei que se aconchegava na cama e dei meia dúzia de passos até à cozinha com um único pensamento na cabeça: "Mas que raio de merda fui eu fazer?". Preparei todo o discurso, repeti várias vezes, entrei no quarto, dei-lhe o copo de água. Ele agarrou, bebeu de um trago, devolveu-me e deitou-se esticando o braço para aquele que deveria ser o começo de uma agradável conchinha. Fez-se um silêncio interminável, deitados lado a lado, enquanto eu mordia o lábio em desespero. Abri a boca e saiu-me "queres que te chame um Uber?". O espanto, a desilusão e um abanar de cabeça que se traduzia claramente num "como é que não previ isto?", seguidos de uma resposta muito educada e meio soluçada, "não, não precisas, tenho o carro lá em baixo". Duas semanas depois, estava na psicóloga a contar o episódio. "Destroçaste o rapaz. Coitado! Deve estar na m****, mas era óbvio que não era homem para ti".

Saiba mais
Mundo, Discussão, Crónica, Dating, Dates, Amor, Orgasmo, Opinião
Leia também

As mulheres (ainda) vão mandar no mundo?

"The future is female". Nos últimos anos, vimos esse slogan por todos os lugares: nas redes sociais, em campanhas publicitárias, em t-shirts, possivelmente até na parede de algum Airbnb. No entanto, agora o statement já não é mais tão certeiro.

As Mais Lidas