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"Conheci a minha alma gémea nas Avencas, no verão passado, e confirmei que o timing é tudo"

'The Lost Daughter'
'The Lost Daughter' Foto: Netflix
15 de janeiro de 2023 Maria Pestana

"Vieste a correr quase desde a água só para me apanhar?", perguntei, num tom de provocação. "Não, estava no bar com o meu amigo quando te vimos ir embora e ele disse: ‘Meu, é agora, ela vai-se embora, corre!’. Nesse momento questionei-me sobre o que ele poderia teria observado durante toda a tarde: a minha sesta debaixo do chapéu? Teria eu dormido de boca aberta? Teria ele controlado as minhas idas à àgua? Ter-me-ia ele visto trocar de roupa? Oh, céus, viu-me a fazer topless, certamente… ou pior! Soube, mais tarde, que ele não viu nada de especial, só estava curioso acerca do livro que li toda a tarde.  

Dei um último mergulho na piscina, saltei o pontão e preparava-me para regressar à toalha quando avistei uma grávida em apuros, procurando equilíbrio sobre as rochas e sobre as algas escorregadias. Eu própria tentava não cair e manter a compostura. Ao chegar ao areal inteira e sem esfoladelas, oiço-a dizer: "Bolas, isto está mesmo tramado!". "Não está fácil, não. Quer ajuda?". Estiquei a mão e desejei que chamasse pelos amigos que antes a acompanhavam e que eu não ficasse na posição de a deixar, possivelmente, cair. Assim fez: "Pai, padrinho, não me vêm ajudar? Tem de ser uma desconhecida a fazê-lo?", brincou. Um deles veio em seu auxílio, sorriu-me, eu sorri de volta e fui embora.

Foi um dos dias mais quentes do ano. O termómetro marcava os 36 graus na praia das Avencas e eu comprara, propositadamente, um chapéu de sol piroso numa qualquer loja de conveniência chinesa só para aguentar o dia. Passei a manhã ao sol, a ler, e a tarde entre leituras à sombra e banhos de mar. Tinha começado Just Kids, de Patti Smith, e estava completamente absorvida pelo enredo. Quando o relógio bateu as 18h peguei nas coisas e fui embora. Ia completamente distraída, já de phones nos ouvidos, quando fui bruscamente parada numa saída que não permitia fugas.   

"Desculpa, desculpa", tentava dizer, esbaforido e rindo-se nervosamente. Arregalei os olhos, levantei uma sobrancelha, deixei-o respirar. "O que foi?". "Desculpa, nunca fiz isto e não quero que pareça estranho. Foste tão simpática com a minha amiga", ia dizendo o futuro padrinho da criança aos soluços e entre mais gargalhadas. "Só te queria perguntar uma coisa". "Sim, pergunta…", disse a prever o desfecho daquela paragem brusca. "Dás-me o teu número e vamos beber algo?", perguntou, por fim. Apontei para as tralhas, cesta num braço, lancheira no outro, chapéu de sol algures. "Estava de saída, mas okay". Perguntei-lhe o nome, dei-lhe o número, trocámos meia dúzia de palavras e subi as escadas a rir. Convenci-me de que estaria tão nervoso que certamente tinha falhado um número. No entanto, ainda nem tinha chegado ao carro quando recebi a mensagem que confirmava que todos os números tinham sido gravados corretamente.

Moreno, olhos de tom verde-azulado, corpo tonificado de surfista e um nome "beto" que me agradou à primeira vista. Dali a semanas, planeava mudar-se para um apartamento que ia alugar a apenas um quilómetro de minha casa. Parecia bater tudo certo: trabalho, interesses, estilo de vida. Uns meses antes, vira a atriz Ana Brito e Cunha contar numa entrevista na televisão que tinha manifestado o marido. Num momento de melancolia escreveu numa folha como gostaria que o homem da sua vida fosse, descrevendo as suas principais características físicas, psicológicas e por aí adiante. Sem nada a perder pensei: "Porque não?", e fiz o mesmo. Agora estava ali a trocar mensagens com aquele homem que, no dia anterior e inesperadamente, tinha corrido atrás de mim pela praia – ainda por cima depois de eu ter feito uma boa ação -, e parecia preencher muitos dos requisitos. "Tu queres ver que aquilo funciona mesmo?", pensei, perplexa.

Combinámos ir ao miradouro da Graça beber um copo ao final do dia e, se tudo corresse bem, jantar em minha casa. Ele surfava desde jovem, eu queria surfar. Ele ia ensinar-me. A praia preferida dele era uma das minhas praias de infância. Iriamos lá juntos. Ele não gostava de pessoas, eu também não. Não gostaríamos juntos. Ele detestava acordar tarde e perder o dia, eu se há coisa que me aborrece é esperar pelos outros. Estaríamos sempre a horas. Igualzinhos os dois, em tudo! E não sei se era porque estávamos na Graça ou não, com a igreja mesmo ali ao lado, mas eu já ouvia os sinos a tocar. Chegados a minha casa, jantámos sushi na varanda, à luz de uma vela que ele acendeu e deixei-o fazer-me coisas das quais não me envergonho que os vizinhos tenham visto. Afinal, eu estava com um vestido verde de seda - e os vestidos de seda, seja de que cor forem, também são feitos para serem puxados até ao rabo, antes de saltarem completamente fora, por homens belos e carismáticos como este que tinha à frente. 

Conversa puxa conversa. Mãozinhas puxam mãozinhas. Mãozinhas afastam mãozinhas, porque vamos ser sérias no primeiro encontro, não vamos estragar tudo com este… até ele afirmar: "Pois, eu não vou querer nada sério durante uns bons tempos. Saí há três meses de uma relação e tão cedo não me meto noutra". Silêncio. A minha expressão congelou. No meu cérebro ecoava um: "Oh diacho… então, mas que conversa é esta? E as aulas de surf? E os fins-de-semana na praia, em casa do tio?". "Não quer dizer que vá andar por aí a engatar miúdas na praia, não é isso. Tu foste uma vez sem exemplo, nem sei como tive coragem, mas percebes, não percebes?", acrescentou. "Percebo, claro". Percebo que das duas uma: ou a m*rda do papelinho não funciona ou então não escrevi bem.

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