Opinião

Por que estamos tão obcecados com o drama Shakira-Piqué?

Shakira lançou a sua nova música, “BZRP Music Sessions 53”, em colaboração com o DJ argentino Bizarrap – e, em poucos dias, tornou-se a melhor estreia musical em espanhol desde sempre, com recordes no Youtube e Spotify: “O que para mim era uma catarse e um desabafo, nunca pensei que chegasse ao número um do mundo aos meus 45 anos e em espanhol”, escreveu a artista.

Gerard Piqué e Shakira posam com o troféu após o FC Barcelona ter ganho a final da Copa del Rey contra o Athletic Club no Camp Nou a 30 de Maio de 2015 em Barcelona, Espanha.
Gerard Piqué e Shakira posam com o troféu após o FC Barcelona ter ganho a final da Copa del Rey contra o Athletic Club no Camp Nou a 30 de Maio de 2015 em Barcelona, Espanha. Foto: Getty Images
19 de janeiro de 2023 Clara Drummond

Uma boa parte da canção pop é fundamentada a partir das experiências de coração partido dos compositores. A dor da traição, em especial, é tema recorrente em todos os géneros da música popular, de ABBA a Leonard Cohen. Como diz o protagonista do filme Alta Fidelidade: "O que veio primeiro, a música ou a tristeza? As pessoas se preocupam com crianças brincando com armas ou expostas a videojogos violentos. Ninguém se preocupa com crianças ouvindo milhares de músicas sobre rejeição, coração partido, tristeza, perda e dor. Eu ouvia música pop porque estava infeliz? Ou eu estava infeliz porque ouvia música pop?"

Shakira, portanto, não fez nada de inédito ao expor o seu relacionamento com o jogador de futebol espanhol Gerard Piqué. Inclusive, Miley Cyrus lançou na mesma semana uma música de temática semelhante sobre seu término com Liam Hemsworth. Então, porque estamos todos debatendo as questões éticas e estéticas de "BZRP Music Sessions 53"?

É inevitável abordar a clássica discussão sobre as diferentes maneiras como julgamos homens e mulheres – e, neste caso, mulheres latinas, que têm o estereótipo de serem mais "explosivas". Taylor Swift, conhecida por escrever sobre a sua vida amorosa, é bastante vocal neste debate: "Dizem: ‘Ela só escreve sobre os ex-namorados’. Francamente, este é um ângulo muito sexista. Ninguém diz isso sobre Ed Sheeran. Ninguém diz isso sobre Bruno Mars. Eles todos estão escrevendo sobre suas ex-namoradas, sobre suas atuais namoradas, sobre suas vidas amorosas, e ninguém acha isso alarmante".

Nós, mulheres, crescemos acreditando que a maior honra para alguém do sexo feminino é ser a musa inspiradora de um grande artista. Edie Sedgwick, Marianne Faithfull e Zelda Fitzgerald são algumas das mulheres que habitam o nosso imaginário coletivo, mas é como se só existissem em relação a um homem. É ele que tem a palavra, que comanda a narrativa, que realmente exerce o poder (as musas inspiram, mas são como sereias, só melodia, sem voz). Por sua vez, o homem mostra não se sentir confortável nesta posição, que é a posição de objeto, sem o controle da narrativa. Prova-o, por exemplo, a pergunta incessantemente repetida a Taylor Swift: "você não tem medo de espantar namorados ao escrever esse tipo de música?".

Nem sempre a mulher ocupa a posição de musa na canção popular, dada a quantidade de letras exaltando a violência doméstica e a cultura do estupro. Embora esse tipo de composição esteja mais associada a ritmos como rap ou funk, que embora bastante populares, ainda sofrem preconceito da cultura hegemónica, a violência física e sexual também está presente em versos de artistas como Lana del Rey e The Beatles (no caso de Lana, Ultraviolence, de 2014 - que inclusive é uma espécie de releitura de He Hit Me (It Felt Like a Kiss), do The Crystals, de 1962, no caso dos The Beatles é Run For Your Life). Nem a mais violenta destas músicas causou a controvérsia de "BZRP Music Sessions 53".

Íntimo e pessoal

Por décadas, especulou-se quem seria o homem vaidoso retratado em "You’re so Vain", canção composta por Carly Simon em 1972. Todos os palpites iam na direção de Warren Beatty, mas a confirmação só veio quarenta anos depois. Em geral, o mistério sobre os acontecimentos reais por trás de uma canção pop adensa o mito. Taylor Swift, por exemplo, costuma inserir easter eggs de propósito para entreter os seus fãs mais dedicados. Esses códigos podem fazer alusão tanto ao trabalho quanto à vida amorosa da artista.

Menos comum, no entanto, é dar nome aos bois, como fez Shakira em "BZRP Music Sessions 53". Gerard Piqué e sua nova namorada, Clara Chía Martí, são mencionados pelo nome – em trocadilhos, é verdade, mas ainda assim de modo bastante explícito.

Segundo os tablóides, Clara Chía está com medo de sair de casa por conta da repercussão da música e os pormenores nada simpáticos que saíram a público. Afinal, a sororidade tão falada na internet encontrou seus limites quando foi divulgado que a jovem teria comido toda a geleia favorita de Shakira – foi ao encontrar o pote vazio na geladeira que a cantora desconfiou que algo estava errado. Esse tipo de relato dá ainda mais sabor à música que já está gerando tanto assunto.

Não à toa, Shakira usa a palavra catarse para descrever sua composição. Para Shakira, vingança não é um prato que se serve frio, e sim no calor do momento – a música foi lançada ao mundo apenas seis meses depois do término. Acredito que venha daí o desconforto que muita gente sentiu ao ouvir a canção. Não é uma música que fala de dramas universais vivenciados por milhares de pessoas que estão a sofrer por amor, e sim de questões bem específicas.

Shakira repete: uma loba como eu não é para homens como você ("una loba como yo no está pa' tipos como tú"). É verdade que mulheres poderosas e autónomas ainda são vistas como intimidadoras pelo homem hetero padrão – o medo da castração simbólica é real. Nos últimos dias, a internet foi inundada de clips virais e memes que mostram Gerard Piqué a controlar Shakira e Liam Hemsworth fazendo o mesmo com Miley Cyrus. E como Piqué, de fato, trocou uma superestrela por uma garota doze anos mais jovem que ainda por cima é uma subalterna, funcionária da sua empresa.

No entanto, creio que a letra soou mais como autoafirmação do que como superação. É como se a mensagem do texto estivesse a contradizer a mensagem do subtexto. Shakira não assume a sua fragilidade emocional mesmo que seja evidente que a gestação da música tenha ocorrido num momento de grande dor – o que é normal, afinal, é o fim de um casamento de doze anos.

A letra só fala verdades: Shakira é mesmo um ser humano muito mais poderoso e interessante que seu ex-marido e sua nova namorada. Mas não basta uma verdade objetiva, é preciso também uma verdade emocional. Será que "BZRP Music Sessions 53" é um hino que o que tem a mais em autossuficiência, tem a menos em vulnerabilidade?

Shakira é autora de canções eternas, que sobreviveram décadas, e serão sempre clássicos, portanto não há grandes problemas se esse não for o caso de "BZRP Music Sessions 53". Talvez, por ora, seja suficiente mostrar ao mundo sua narrativa e, no embalo, ganhar rios de dinheiro – como, inclusive, a artista prevê num dos versos.

Esta semana, Gerard Piqué comprovou que talvez seja tão vazio quanto cantou sua ex-mulher: ao aparecer em um evento com um relógio Casio e dirigindo um Twingo, ele expõe o seu incómodo e parece querer admitir ao mundo que sim: trocou um modelo mais sofisticado por uma versão mais simplória.

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