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Os Bourbons, uma dinastia de viciados em sexo

Desassombrado e cheio de humor, 'Os Bourbons e o Sexo' conta a rocambolesca intimidade da dinastia que reina em Espanha desde o princípio do século XVIII. A propósito da edição portuguesa do livro, entrevistámos a autora.

Retrato da rainha Isabel II de Espanha, por Franz Xaver Winterhalter, 1852
Retrato da rainha Isabel II de Espanha, por Franz Xaver Winterhalter, 1852 Foto: D.R
14 de maio de 2022 Maria João Martins

Sabia que Afonso XIII de Espanha, avô do rei emérito Juan Carlos, era produtor de filmes pornográficos, sob pseudónimo? E que o fundador da dinastia, Filipe, o quinto do nome, chegava a receber os seus ministros ainda na cama com a sua segunda mulher, a italiana Isabel Farnésio? Tudo isto e muito mais, de Filipe V a Filipe VI, fica a saber quem ler o divertido livro de Marta Cibelina, curioso pseudónimo de uma "jornalista madrilena todo-o-terreno" nas palavras da própria, Os Bourbons e o Sexo (edição A Esfera dos Livros). Neste ensaio histórico-sexual, segundo a autora, são-nos descritos os gostos reais na cama, os seus desejos, vícios, fantasias. Com um sentido de humor muito próprio, afirma que "os espanhóis sempre foram muito tolerantes em matéria de sexo" mas, acrescenta, "exceto quando as protagonistas destas histórias foram rainhas e não reis." Monárquica assumida, Marta Cibelina defende que Juan Carlos, ao contrário do que pretendem os seus detratores, não ficou caro aos cidadãos. 

Este livro vem confirmar a lenda dos pícaros Bourbons, uma dinastia com mais gosto por sexo do que as suas congéneres europeias?

Não é uma lenda, é um facto consumado… Os Borbouns sempre tiveram uma capacidade inusitada para o sexo desde tempos imemoriais. Luis XIV, o avô do primeiro Bourbon que reinou em Espanha, era praticamente um septuagenário quando continuava a praticar sexo três vezes por dia com a sua segunda esposa, Madame de Maintenon. Ela chegou a pedir ajuda ao seu confessor para ver se era pecado nessas idades. Não teve sorte. O neto, Filipe V de Espanha, era pior ou melhor, consoante a perspetiva. Esgotou literalmente as suas duas esposas com tanta paixão. Com a primeira dormiu até ao dia da morte dela. E parece que o rei emérito Juan Carlos I supera em muito os seus antepassados. O problema é que, ao contrário de Filipe V, não era monogâmico.

Marta Cibelina, autora de 'Os Bourbons e o Sexo'
Marta Cibelina, autora de 'Os Bourbons e o Sexo' Foto: Bernardo Paz

Como desenvolveu a sua investigação?

Trabalhei sobretudo no Arquivo Histórico Nacional, mas também falei com descendentes de personalidades que aparecem no livro, fontes que preferem não aparecer, ainda que outras, sim… "Vivi" durante muito tempo na Biblioteca Nacional de Espanha, que tem vindo a sofrer cortes orçamentais tremendos. Este livro também é dedicado ao grande profissionalismo dos seus funcionários.

Crê que a História e a posterioridade julgam mais as personalidades femininas do que as masculinas? Por exemplo, são mais moralistas a ajuizar o comportamento de Isabel II de Espanha do que o seu neto, Afonso XIII?

Sim, tem sido muito injusta. De Isabel, a Católica, uma rainha da dinastia Trastâmara mas que é ascendente direta dos nossos reis, as pessoas pouco aficionadas à História só sabem uma anedota escatológica, que não está confirmada. Dizem que não mudou de roupa até conquistar Granada. E da generosidade da nossa Isabel II ninguém fala, só da lista dos seus amantes, que, na realidade, é muito vasta. Esteve ligada até a um chefe de bandoleiros de origem italiana. E se a opinião pública foi muito mais tolerante com Afonso XIII, a verdade é que, pela calada, o pai deste, Afonso XII, deve ter tido muito mais amantes.

Retrato de Isabel II de Espanha, de Franz Xaver Winterhalter, 1852
Retrato de Isabel II de Espanha, de Franz Xaver Winterhalter, 1852 Foto: D.R

Que peso teve a conduta sexual de Afonso XIII, com um historial de infidelidades e muitos filhos ilegítimos, na queda da monarquia e consequente ida da família real para o exílio, em 1931?

Pouco, os espanhóis, ao contrário dos anglo-saxónicos, sempre foram muito tolerantes em assuntos de braguilha, digamos assim. O que prejudicou, sim, foi a má educação que recebeu, estava demasiado mimado pela mãe, que o tratava em privado como a um pequeno faraó. Por isso, quando a vida lhe colocou algumas provas duras nem sempre tomou as melhores decisões. Por exemplo, quando ocorreu um atentado em Madrid no dia de seu casamento, houve mortos. Teria sido importante não celebrar o banquete, mas ele fê-lo…. Repito, em Espanha somos muito tolerantes com os assuntos lúdico-sexuais,  e não só com os reis, mas também com os políticos, ainda que hoje haja mais censura do que antes nesta matéria. Um presidente de Governo, José Luis Zapatero, atacou uma revista porque o fotografaram com a sua família num barco, e era uma foto muito familiar e inocente. Uma importante política espanhola, a valenciana Mónica Oltra, vetou a participação de uma jornalista numa conferência de imprensa por ter sido muito crítica a respeito da investigação em torno do seu ex-marido, Luis Eduardo Ramírez, por abusos a uma menor. Em contrapartida, parece que há bar aberto para atacar Don Juan Carlos.

'Os Bourbons e o Sexo', edição A Esfera dos Livros
'Os Bourbons e o Sexo', edição A Esfera dos Livros Foto: D.R

Crê que a opinião pública se tornou demasiado moralista com Juan Carlos?

O que se passe na cama de Juan Carlos só diz respeito à sua mulher. O rei não saiu caro aos espanhóis, bem pelo contrário. Com comissões ou sem elas, quando ocorreu a grande crise energética dos anos setenta, Espanha tinha petróleo a bom preço graças a Juan Carlos. Trouxe a Democracia a Espanha, quando tinha todo o poder que lhe delegou Franco nas mãos e legalizou partidos como o Partido Comunista. Arriscou várias vezes. Juan Carlos era um ótimo lobista, sim, de tal maneira que até Gerard Piqué, antigo capitão da seleção espanhola, lhe pediu ajuda no escândalo que envolveu a realização da Supertaça espanhola na Arábia Saudita, o que o rei recusou. As comissões eram pagas pelos árabes ao rei. Hussein ofereceu-lhe um palácio em Fuerteventura e Juan Carlos legou-o ao Património Nacional. Agora os Presidentes da República ficam lá a dormir quando se deslocam a Espanha.

Juan Carlos I e Sofia de Espanha no 80º aniversário do rei emérito em Madrid, 2018
Juan Carlos I e Sofia de Espanha no 80º aniversário do rei emérito em Madrid, 2018 Foto: Getty Images

O que podemos esperar de Filipe VI? É um homem mais caseiro do que o pai?

Foi um solteiro muito desejado. Todas as mulheres da sua idade sonhavam casar com ele e as suas mães queriam-no para genro. O mesmo acontecia com Harry, não só no Reino Unido mas em toda a Commonwealth. Mas saiu-lhes o tiro pela culatra. Letizia tem muito mérito, é muito respeitada em todas as casas reais europeias. Se Filipe, que é mais Grécia que Borboun, começasse a bourbonear, a sua mulher opor-se-ia com veemência. Tem muito carácter, e já o demonstrou em várias ocasiões. Foi muito melhor opção que a namorada da juventude, Isabel Sartorius, de quem falo muito no livro. Faltava-lhe o auto-controlo de que uma rainha precisa.

Na sua vida de jornalista conheceu pressões para não falar deste ou daquele tema, desta ou daquela personalidade?

Nunca estive muito convencida de que o livro, com todos os seus capítulos, incluindo o do último rei, saísse, mas felizmente tudo correu bem. Recebi pressões, sim, mas de outro tipo de personalidades. Proibiram-me, num jornal onde trabalhei muitos anos, de falar de Rodrigo Rato, que foi presidente do FMI, ex-ministro da Economia e ex vice-presidente de Governo, com Aznar. Também foi presidente de Bankia. O problema é que me inteirava de muitas notícias sobre ele e isso causava-me uma frustração tremenda. Como sabe, a 23 de fevereiro de 2017 foi condenado a quatro anos e meio de prisão, por um delito continuado de apropriação indevida entre 2003 e 2012, no caso dos cartões Black. Também estava proibida de falar sobre qualquer toureiro. A publicação era anti-tourada e só se falava do tema quando alguém morria.

Rainha Letizia de Espanha e rei Felipe VI de Espanha no serviço de ação de graças dedicado ao príncipe Philip
Rainha Letizia de Espanha e rei Felipe VI de Espanha no serviço de ação de graças dedicado ao príncipe Philip Foto: Getty Images

Como começou a escrever sobre estes temas?

Sobre a Casa Real comecei muito cedo, com 19 anos, a trabalhar como paparazza numa agência de notícias enquanto estudava Jornalismo. Ia ao Clube de Campo fazer fotos da infanta Elena, às regatas no Levante fazer fotos da infanta Cristina, e nos verões ia algumas vezes cobrir Mallorca, onde veraneia a Casa Real. Houve um verão em que estive os três meses como correspondente na ilha. Nessa época estavam lá o verão inteiro, agora só passam por lá. Apenas a rainha Sofia fica mais tempo. Quanto aos temas históricos, creio que sou uma historiadora frustrada. Por isso o livro está tão documentado. É um ensaio histórico lúdico-sexual, mas é tudo absolutamente rigoroso e descobri dados inéditos. Creio que os Bourbons mortos me ajudaram do outro lado. Porque aconteceram casualidades incríveis que serviram para poder escrever um livro tão interessante como divertido e, repito, rigoroso do ponto de vista histórico. Há pessoas que ficaram sem dormir para o ler numa só noite. 

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