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No amor até o lixo reluz

"Estar atento é reparar não só naquilo que é belo mas olhar para o lixo do outro."

"Para King foram precisamente as críticas pejorativas sobre a sua suposta incapacidade que o levaram a querer escrever Carrie"
"Para King foram precisamente as críticas pejorativas sobre a sua suposta incapacidade que o levaram a querer escrever Carrie" Foto: IMDb
02 de novembro de 2020 | Cláudia Lucas Chéu

Talvez ninguém soubesse quem é Stephen King se a sua mulher não tivesse ido buscar as primeiras páginas de Carrie ao balde do lixo. Tabby King, também escritora, resgatou o trabalho que o marido tinha atirado ao lixo por considerá-lo valioso. Nesta altura King era apenas um professor e aspirante a escritor, que vendia contos de terror para revistas masculinas, os quais eram fortemente criticados pela sua incapacidade de escrever sobre mulheres; e Tabby era uma aspirante a poeta, que trabalhava numa loja de donuts. Para King foram precisamente as críticas pejorativas sobre a sua suposta incapacidade que o levaram a querer escrever Carrie: um conto que também seria para vender numa dessas revistas, mas que o autor quis destruir por não reconhecer nele qualidade, e ter de concordar com a sua inaptidão. Foi portanto a mulher que, resgatando o texto, o ajudou a dar verosimilhança a Carrie. Depois de terminado, cerca de trinta editoras recusaram o livro; porém, a editora Doubleday mostrou-se interessada em publicá-lo.

O livro ultrapassou mais de 13 mil exemplares vendidos, e o casal, satisfeito com o sucesso obtido, voltou a dedicar-se a outros projectos. No entanto, meses depois, King recebeu mais uma boa notícia: um telefonema da editora dizendo que os direitos do livro iam ser vendidos por uma quantia exorbitante. King, que até à data dava aulas como fonte de sustento, deixou de o fazer. E Tabby também se despediu da loja de donuts e dedicou-se à escrita. Sabe-se que, alguns anos depois, King foi até à joalharia Cartier em Manhattan e comprou um anel de noivado para Tabby. Já estavam casados há vários anos.

Tabby não estava certamente à espera de um anel da Cartier, nem do estilo de vida que o sucesso do marido lhe proporcionou, quando decidiu resgatar o dito manuscrito. Tabby fez o que qualquer companheiro/a faz quando há amor. A história dos King não é única, é apenas paradigmática de um sem-número de casais que conseguem alcançar o sucesso juntos porque estão atentos. E estar atento é reparar não só naquilo que é belo mas olhar para o lixo do outro. Ter olhos como uma lanterna nutrida por admiração, respeito e crença no valor do outro, e que muitas vezes escapa ao próprio. Um par de olhos extra que serve para enfrentar o mundo a dois. No amor, aquele a sério, até o lixo do outro reluz; e a iluminação vem muitas vezes dos olhos de quem vê.

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990. 

Saiba mais Stephen King, Carrie, Tabby King, Manhattan, Cartier, artes, cultura e entretenimento, literatura, Cláudia Lucas Chéu
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