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Faz de conta que as cidades são cidades

Começámos a reparar no vizinho de cima a puxar a expetoração, na vizinha da frente que gosta de caril com bastante regularidade e na velhota do rés-do-chão que talvez tenha desistido de limpar a areia dos gatos.

O Eclipse (1962), Michelangelo Antonioni
O Eclipse (1962), Michelangelo Antonioni Foto: D.R.
02 de fevereiro de 2021 | Cláudia Lucas Chéu

Roubei descaradamente o título à série produzida por Martin Scorsese para a Netflix, em que o realizador conversa com a mais célebre escritora-que-nunca-escreve, Fran Lebowitz, para constatar que as cidades, devido à pandemia e aos sucessivos confinamentos, se transformaram numa espécie de províncias. Sair à rua e só encontrar mercearias abertas tornou-se algo normal. Passámos a comprar o pão na padaria e a caminhar de um ponto ao outro sempre a pé, claro, porque andar de transportes públicos só mesmo em caso de necessidade.

Passeamos no nosso bairro e começámos a reparar nos vizinhos, e até descobrimos algumas curiosidades, como a vizinha da frente que passa a vida à janela, certamente a espantar a solidão que habita no apartamento, e observa a vida dos outros como se assistisse a um programa de televisão. Descobrimos, afinal, que é anã (porque a vimos sair de casa para ir comprar fruta) e que faz da marquise não só um miradouro para espreitar os outros, mas também um pódio de normalidade, empoleirada todo o dia em cima de um banco, sem que ninguém saiba.

Descobrimos ainda novas sonoridades — o vizinho de cima a puxar a expetoração do mais fundo dos brônquios e a escarrar, sabe Deus onde, todas as manhãs à mesma hora, tal qual relógio suíço. E também o sentido do olfato ganha outra importância no reconhecimento dos outros. Sentimos os cheiros vindos das outras casas à hora das refeições e, então, ficamos a saber que a vizinha da frente gosta de caril com bastante regularidade e que a velhota do rés-do-chão talvez tenha desistido de limpar a areia dos gatos, dado o fedor no patamar correspondente. E sabemos que está viva porque ouvimos alto e bom som o zapping constante entre os vários canais da pior espécie de programas de entretenimento. A cidade torna-se, pois, um bairro, cingido a uma área restrita e aos mesmos rostos todos os dias.

À janela, repara-se nos senhores que limpam o arruamento, nos vizinhos que passeiam os cães, e que relações têm com os respetivos bichos pela forma como seguram a trela, nos transeuntes que, não sendo da rua, não devem morar longe. As cidades estão diferentes. O ruído passou de macro a micro. Ouvimos o martelar de alguma obra em vez do buzinar constante, emaranhado em tantos sons que compõem o habitual ruído branco de uma cidade. Parece-nos que há mais pássaros no céu e menos motores de aviões, está tudo sossegado.

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O medo faz isso às pessoas, torna-as quietas por fora e inquietas por dentro; também o mar parece mais calmo antes de uma tempestade. "Faz de conta que a cidade é uma cidade", é o que devemos continuar a dizer a nós próprios, pois sabemos bem o poder que tem a imaginação. Agora mais do que nunca, é preciso imaginar.

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990.

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