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Pontas de Lança

Mariana Águas: “Ainda estamos longe da igualdade de género no futebol”

Um dos rostos mais fortes da CMTV, modera como ninguém os debates mais acesos da estação. À Máxima, abre-se sobre o seu percurso, sobre como foi crescer no meio do futebol, e como hoje encara o seu trabalho.

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08 de maio de 2023 Rita Lúcio Martins

O desporto sempre fez parte do ADN da família Águas. Filha e neta de futebolistas de sucesso, Mariana habituou-se desde cedo a ver, ouvir e respirar futebol. "Além disso, os meus pais conheceram-se na Faculdade de Desporto e sempre nos incentivaram para a prática de várias modalidades". Jogadora de vólei de competição durante quase duas décadas, Mariana cresceu sem uma vocação clara e inequívoca. "A verdade é que não sabia bem o que queria ser nem tinha uma inclinação particular para ser jornalista. Já na fase final da faculdade [estudou Ciências da Comunicação, primeiro na Universidade do Minho, depois na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa], pensei que talvez pudesse juntar a área da comunicação ao desporto". Quando decidiu ser jornalista, o desporto, mais do que uma escolha, era quase um chamamento inevitável. Afinal, é essa a grande paixão da sua vida. Começou como estagiária no jornal Record onde acabou por ficar até 2013, altura em que começam as emissões da CMTV, estação para a qual se muda em definitivo dois anos depois. E à qual regressou recentemente, depois de gozar a licença de maternidade pelo nascimento do seu primeiro filho, Tomás.

Como foi a chegada à redação do Record?

Quando comecei a trabalhar no Record, o jornal ainda estava localizado na Avenida João Crisóstomo [Lisboa] e era bem diferente da redação de hoje, muito modernizada e a funcionar em open space. O próprio ambiente era diferente. Recordo-me de ter sido muito bem recebida. Trazia um apelido conhecido dentro do meio, e apesar de ter tentado que não houvesse essa colagem, isso acabou por acontecer, até porque cedo comecei a assinar uma rubrica de entrevistas dirigidas a atletas, mas cujos conteúdos eram fora do âmbito do desporto. Também recordo outra rubrica que assinei com atletas de várias modalidades, as chamadas "estrelas de amanhã". Comecei a abrir.

Já havia mais mulheres a trabalhar na redação?

Sim. Fui inserida na secção de modalidades, cuja editora era uma mulher, foi ela quem mais me ensinou nessa fase inicial. Depois, ao longo dos anos, fui tendo colegas mulheres, ainda que a maioria fossem homens. Recordo que, mais tarde, antes de surgir a CMTV, estive durante algum tempo na secção O Jogo da Vida (onde se falava sobre as mulheres dos jogadores, uma espécie de página cor-de-rosa dentro do Record). Estava quase com um pé de fora, talvez um pouco por causa disso, mas acabei por encarrilar. Sim, os homens sempre dominaram as secções de desporto dos jornais. Em televisão é diferente. Nos últimos anos passou a haver uma aposta grande nas mulheres. Então, quase que os papéis se inverteram no que diz respeito ao género no desporto em televisão. Apesar de não ter sido pelos motivos certos e de ter acontecido um pouco à força, só assim é que se começou a perceber dentro do meio que as mulheres podiam fazer aquele papel. Eu defendo iguais oportunidades para homens e mulheres, depois entra a meritocracia. Isso é que faz sentido.

Quem chega hoje à redação da CMTV já encontra uma realidade diferente?

Claramente. Não só existe equilíbrio relativamente à presença de homens e mulheres, como hoje uma mulher já não vai sentir a mesma desconfiança que, por exemplo, eu senti. Houve uma evolução. Vai ser cada vez mais natural para uma mulher trabalhar neste meio.

Mariana Águas. Look: Vestido, e pulseira, Massimo Dutti. Sapatos, Fendi na Stivali. Anel Quemete, Juliana Bezerra.
Mariana Águas. Look: Vestido, e pulseira, Massimo Dutti. Sapatos, Fendi na Stivali. Anel Quemete, Juliana Bezerra. Foto: Ricardo Lamego

Refere o momento em que fez o primeiro relato como um dos que mais a marcou. Como é que se aprende a fazer um relato?

Acho que não se aprende, ou melhor, aprende-se pela vivência. Vi e ouvi muitos jogos desde pequena, por isso a linguagem do futebol foi-se tornando natural para mim. Não tive qualquer tipo de preparação específica, além do estudo das equipas e do contexto do jogo. Consegui fazê-lo precisamente porque havia essa familiaridade com a linguagem e, em vez de copiar outros exemplos, procurei fazê-lo de uma forma que me fosse natural. Admiro vários relatores e jornalistas, mas queria fazer as coisas à minha maneira. Por exemplo, defendo que o pivot, tendo o dever da imparcialidade, não deve abdicar da sua personalidade. Mais do que o género, parece-me que é a personalidade que faz a diferença.

Quem foram as pessoas fundamentais na sua formação profissional?

A Isabel Dantas, que foi minha editora no Record, ensinou-me muito. A base é fundamental para tudo o resto. Em televisão, é mais difícil nomear alguém. Tive pessoas que apostaram em mim e isso fez toda a diferença. Depois, aprendi muito com as horas de estúdio.

É importante haver essa legitimação de quem divide a emissão consigo?

Sem dúvida, considero essa uma das grandes vitórias do meu percurso. Foi importante perceber que me respeitavam além do meu apelido (que, muitas vezes, jogou mais contra do que a meu favor). Sinto-me realizada por ter feito ver às pessoas que estava ali por mérito. Creio que a atitude inicial é sempre de alguma condescendência, depois vem a surpresa do "Então, mas é mulher e consegue fazer isto?!" e só mais tarde chega o respeito profissional. Mas consegui, rapidamente, conquistar o meu lugar.

Porque é que o seu apelido jogou mais contra do que a favor?

Tinha um legado familiar longo, não só pelo meu pai [o antigo jogador e treinador, Rui Águas], mas também pelo meu avô [José Águas, o antigo capitão do SLB que, na época de 1960-61, ergueu a Taça dos Campeões Europeus]. Há sempre aquela ideia de que só estamos ali porque somos filhas ou netas de alguém. O futebol é um meio particularmente complicado e essa questão do apelido sempre esteve muito presente. Não direi que me fragiliza, mas tive de aprender a lidar com isso e acabo por valorizar o lado bom, que é o do orgulho que tenho na minha família.

Mariana Águas
Mariana Águas Foto: Ricardo Lamego

Como é que se faz essa gestão de filtrar comentários?

Essa é outra batalha porque o clubismo em Portugal é muito vincado. Em outros países, há espaço para que os jornalistas, e até os jornais, assumam as suas preferências. A cultura desportiva que por cá existe não permite que isso aconteça. Há muito esse discurso de ódio. Eu e os meus colegas, tendo a visibilidade que temos, estamos sempre muito suscetíveis a ataques. Eu vou tentando fazer uma gestão da atenção que dou a esses comentários: não me ponho numa redoma, porque também há comentários bons que vale a pena ouvir, mas procuro defender-me um pouco.

O futebol vai sendo, cada vez menos, um território de homens?

Ainda há muito para desbravar, porque ainda é uma questão muito cultural. Sempre se associou o futebol aos homens. Nos últimos anos, as mentalidades começaram a mudar. Hoje, os pais de uma menina já não acham estranho que ela queira jogar futebol. No entanto, ainda estamos longe da igualdade de género no futebol, logo a começar pelos salários do futebol feminino. Mas penso que estamos a caminhar no sentido certo. Quero acreditar que sim.

Créditos
Fotografia. Ricardo Lamego
Styling/produção: Marina Sousa
Cabelos: Eric Ribeiro
Maquilhagem: Elodie Fiuza
Entrevista em Vídeo e Edição: Rita Silva Avelar e Ana Sofia Pinto
Saiba mais
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