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Histórias de Amor Moderno: “O Daniel ajoelhou-se, tirou do bolso uma caixinha que abriu, como acontece nos filmes”

“Eu sei que é um pensamento egoísta, mas foi este um dos primeiros que me ocorreram quando o pai do Daniel morreu: ‘E agora, como é o Natal?’.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

Foto: IMDB
23 de dezembro de 2023 Maria Olívia Sebastião

"O amor não é só regalias", dizia-me o meu pai, que Deus tem já lá vão mais de três anos. Os pais e as mães tornam-se sábios com a idade - não com a idade deles, com a nossa, quando damos por nós a amadurecer e a decifrar as suas frases meio vagas, meio tontas, que se vão encaixando na realidade, naquilo que nos acontece na vida, compondo um puzzle complexo, no seu todo, mas feito de verdades e constatações simples nos seus detalhes. O amor não é, de facto, só regalias. Se, no seu despontar, o amor é alimentado pelo fogo da paixão e da inconsequência, com o passar do tempo e sob o assédio das responsabilidades, o amor vê-se muitas vezes cercado pelas situações difíceis e, principalmente, pelas decisões que magoam.

Eu e o Daniel começámos a namorar há quatro anos. Conhecemo-nos em Lisboa, através de amigos comuns - num jantar de aniversário de uma grande amiga minha, na verdade, com quem fiz o liceu ainda em Miranda do Corvo, a terra de origem comum a nós as duas. A Andreia, assim se chama essa amiga daquelas de uma vida inteira, fazia parte da mesma equipa que o Daniel que participava nas noites de quizzes que havia, há uns tempos, num sítio qualquer na Avenida de Roma. Como é que se juntaram na mesma equipa, isso já não sei, nunca esclareci, mas imagino que tenha sido também graças a amigos em comum ou a colegas de trabalho. Um dia, pergunto ao Daniel.

Nesse jantar, não gostei do rapaz. Era muito bonito, isso estava à vista de qualquer um, mas falava muito e parecia demasiado cheio de si. Ele, pelo contrário, parece ter simpatizado comigo, ou pelo menos deve ter-me achado alguma graça, algum encanto que eu própria desconheço, uma vez que me começou a seguir nas redes sociais e a deixar-me likes em forma de coraçãozinho em toda e qualquer foto em que eu aparecesse, mais ou menos despida, sozinha ou acompanhada, à mesa ou na praia: tanto fazia. Se havia publicação, lá estava seguramente o coraçãozinho do Daniel.

Aos poucos, fui ficando curiosa acerca dele e comecei também eu a segui-lo. Os seus posts despertaram-me curiosidade, parecia ser culto e inteligente - ora, como é óbvio: de outra forma, porque raio integraria a equipa de quizzes da Andreia, que é uma das pessoas mais inteligentes que conheço? Mea culpa pelo mau julgamento inicial, e por ter ignorado o que era óbvio e evidente. Começámos a trocar mensagens, mas muito pontualmente - mensagens inocentes, aquelas piadas, aquele meme pontual (de inocentes não tinham nada, na verdade: acredito cada vez mais de que era uma forma elegante, inteligente e subtil de flirtar comigo - e eu com ele, claro). A vez seguinte que nos encontrámos foi, de novo, num jantar de um outro amigo comum, o Joel, namorado da Andreia. Dessa vez, conversámos, ficámos próximos. Senti-me estranhamente atraída para ele, como se estivesse a abduzir-me e eu não me importasse. No dia seguinte jantámos e daí em diante não mais nos largámos.

Isto é, não mais nos largámos em sentido figurativo: começámos a namorar, sim, e estávamos juntos em quase todas as ocasiões, claro. Mas largámo-nos. Largámo-nos em, pelo menos, quatro ocasiões: em todos os natais desde que começámos a namorar. No primeiro Natal, ainda a nossa relação estava fresca e passar a Consoada juntos não era uma obrigação nos nossos horizontes. No segundo, a questão já se pôs, mas como o meu pai tinha morrido recentemente e como a família do Daniel é do Baixo Alentejo, mais precisamente de Cuba - o que faz com que tenhamos os nossos ascendentes à nada simpática distância de quase 350 quilómetros uns dos outros -, optámos por passar o Natal separados. Depois dessa ocasião, conversámos muito sobre o assunto e sobre o que fazer nos anos seguintes: queríamos passar o Natal juntos; iríamos para Miranda do Corvo, uma vez que a minha mãe estava sozinha; o Daniel concordou. Só que, nesse ano, nasceu o primeiro sobrinho do Daniel. E então ele fez questão de estar com a família. Fui compreensiva com ele e ele comigo. Fizemos um pacto: enquanto não fôssemos casados ou não tivéssemos filhos (o que acontecesse primeiro desfaria o pacto), passaríamos a Consoada cada um com a sua família. Não havia necessidade de deixar uma das partes sozinha quando, no fundo, passávamos o resto do ano juntos - até podia servir como uma espécie de folga em que os dois voltavam à origem sem o fardo quotidiano do companheiro (é o melhor fardo do mundo, já agora).

Este ano foi um ano de mudanças e de acontecimentos que começou da melhor maneira. No final de 2022, metemo-nos no carro e fomos, estrada fora, pelas cidades e aldeias de Espanha. Na passagem de ano, numa praça muito animada na cidade velha de Málaga, depois de comermos as 12 uvas espanholas (entre as uvas e as passas, prefiro mil vezes o reveillon em Espanha, não me levem a mal), o Daniel ajoelhou-se, tirou do bolso uma caixinha que abriu, como acontece nos filmes mais adocicados e pegajosos, e disse "Maria, queres casar comigo?", e exatamente como acontece nesses filmes embaraçosos, saltaram-me as lágrimas, mas lágrimas de alegria, eu sorri e chorei e escondia o sorriso com as mãos e limpei as lágrimas com a manga do casaco e tapei cara com vergonha, mas uma vergonha boa, uma vergonha de criança feliz. E então o Daniel pegou-me e elevou-me no ar, rodopiámos e ainda havia fogo de artifício nos ares andaluzes, um fogo de artifício que podia ser para nós e por nós, pela nossa felicidade. Nunca imaginei que um pedido tão simples, numa altura em que vivíamos juntos há algum tempo, pudesse fazer-me tão feliz. Mas fez.

E assim estava quebrado o nosso pacto natalício. De então em diante, como íamos casar em breve - casámo-nos ainda em janeiro, não fazia sentido prolongarmos um noivado como o nosso: a cerimónia foi simples, breve e modesta, mas muito divertida -, passaríamos a fazer os nossos natais como os outros casais: em conjunto, fosse onde fosse. Só que, no amor, convém não fazermos demasiados planos, muito menos planos a longo prazo - 11 meses pode ser muito tempo e era precisamente esse o tempo que ainda faltava o Natal seguinte, que é este de agora, o deste ano. E eu devia ter sempre presente a frase do meu falecido e sábio pai, "o amor não é só regalias".

Quando, em março, chegaram os resultados dos exames, ficámos destroçados: seria uma questão de tempo, uns poucos meses, se tanto. Um tumor no fígado cujos sintomas foram sendo ignorados ao longo de anos e anos, era agora detetado demasiado tarde. As metástases estavam espalhadas por toda a parte, do abdómen à espinal medula. O pai do Daniel estava condenado.

As viagens a Cuba tornaram-se mais frequentes e os cuidados do Daniel com o pai redobraram-se, a atenção de um pelo outro transformou-se numa demonstração ávida de não se quererem perder mutuamente. Era um cenário dilacerante em que cada encontro se revestia de despedida e todo o momento podia ser o último. O senhor Joaquim fez tratamentos, melhorou um pouco, piorou outro tanto e foi-se mantendo neste equilíbrio ondulado, de melhoras e agravamentos, durante alguns meses. Até que em outubro a situação se agravou definitivamente. Morreu no princípio de novembro.

Eu sei que é um pensamento egoísta, mas foi este um dos primeiros que me ocorreram quando o pai do Daniel morreu: "E agora, como é o Natal?" Não verbalizei, guardei para mim, mantive o pensamento enterrado e em segredo o mais que pude, porque não era justo carregar o Daniel com uma preocupação dessas, não nesse momento - o assunto era fútil, se posto em perspetiva ao lado da perda de um pai.

Não falámos sobre o tema até chegar o princípio de dezembro. Foi o Daniel que puxou o assunto. Disse-me "Mariana, no Natal, como eu sei que compreendes, não posso ficar longe da minha mãe". O meu coração acelerou, fiquei agitada, nervosa, triste - não queria deixar a minha mãe sozinha. Sorri e disse-lhe "eu sei, eu sei, meu amor", mas as lágrimas escorriam-me pelo rosto. E ele então disse "mas também não quero que fiques longe da tua, porque ela precisa de ti. Vamos adiar o nosso plano e para o ano tentamos de novo". E foi então que eu senti, como nunca antes tinha sentido, o que é o amor, o verdadeiro, aquele que temos por alguém, muito para lá das regalias. Sou muito feliz.

* Se conhecer uma história real envie-a para m.oliviasebastiao@gmail.com. As suas ideias podem dar origem à história do próximo sábado.

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