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Crónica Isabel Stilwell. Porque nos custa tanto pedir ajuda

Foto: IMDB / The Woman in the Window
25 de janeiro de 2024 às 07:00 Isabel Stilwell Adicione como fonte preferencial no Google

Custa pedir ajuda. Mesmo aos mais próximos, mesmo quando bem precisávamos dela, seja física ou psicologicamente. Porque não queremos "pesar", porque antecipamos, mesmo sem termos feito a experiência, que nos provocaria um desconforto que não compensaria o esforço. Talvez, arrisco, porque nos queremos armar em heróis.

Ao ponto de endeusarmos a autoajuda, para benefício de toda a gente que anda por aí a vender manuais de como, um dia, nos podemos bastar a nós próprios. A doença é tal que tememos mais a dependência, do que a própria morte. Envelhecer, e precisar de alguém para nos calçar as meias, levantar-nos de uma cadeira, e tudo o resto em que nem queremos pensar, tem um sabor a derrota e a humilhação final.   

CONTRADIÇÃO:

Todos já experimentámos a alegria e a satisfação de contribuir de alguma forma para a felicidade de outra pessoa. Conhecemos bem as borboletas que nos voam na barriga quando ajudamos uma velhinha a atravessar a rua, somos capazes de ir em socorro de uma mãe que procura sair do metro, com um bebé, um carrinho e um saco das compras, de todas as vezes em que visitámos uma tia e percebemos como ficou contente pela nossa companhia, sempre que nos voluntariamos para trabalhar por uma causa e nos transformamos em parte da solução. Mas, se é assim, porque é que não conseguimos pedir, e aceitar, a ajuda dos outros? 

CAUSAS:

  1. Foram anos dedicados a conquistar autonomia, a ambicionar não pedir autorização para nada, uma adolescência inteira a provar que conseguíamos chegar lá sozinhos e, desde aí, a exibir a nossa independência. Tirámos a carta, superámos o medo de viajar sozinhos, de dormir em casa sem companhia, escolhemos uma profissão, um emprego, um marido. E, quando chegaram os filhos, intensificou-se ainda mais o nosso sentido de responsabilidade — cabe-nos velar por eles, vesti-los e alimentá-los, dar-lhes apoio e conforto, pedindo pouco ou nada em troca, porque Deus nos livre de sermos daqueles pais que apresentam a conta dos serviços prestados. Permitimos até que o pêndulo oscile excessivamente para o outro lado, infantilizando-os, mas no fundo somos recompensados pelo sabor da omnipotência — afinal, não passam sem nós.
  2. Pomos demasiado enfoque no individuo, em lugar de no coletivo. Por exemplo, repetimos da boca para fora que para criar uma criança é precisa uma aldeia, mas, na prática, quantas vezes não nos vangloriamos de, só com uma mão, gerirmos filhos, casa e profissão? Elogiamos o trabalho em equipa, mas depois custa-nos dividir o prémio — na carreira, na família, entre os amigos, procuramos o lugar no pódio.

SINTOMAS:

Exaustão, solidão, depressão, ansiedade, são só alguns dos sinais desta epidemia.

DIAGNÓSTICO:

Observar a doença pelo avesso, percebendo que, muitas vezes, a relutância em pedir ajuda:

  • Não é mais do que orgulho. Uma forma de mostrar que somos mais fortes do que os outros, que conseguimos lidar com a dor, o luto, a tristeza, os contratempos da vida, sem bengalas. Não somos desses que se vão abaixo. Não somos a mãe, o amigo, o vizinho que sobrecarrega os demais. Ou seja, precisamos da coragem para nos olharmos ao espelho e aceitarmos o que lá está: uma vaidade mascarada.
  • É sentida pelos outros como um "chega-para-lá". Porque dar-lhes a oportunidade de nos ajudar é oferecer-lhes a oportunidade de se sentirem úteis, importantes, confiáveis, amados. É dizer-lhes que precisamos deles, que acreditamos que aquilo que têm para nos oferecer vai enriquecer-nos, tornar o nosso sofrimento mais leve, contribuir para recuperarmos, para sermos melhores pessoas — todos aquelas emoções que nos fazem sentir especiais sempre que somos nós a ajudar.
  • Pode ser interpretada — ou ser mesmo! — uma forma de mantermos o Deve e Haver sempre a nosso favor. Fugindo à gratidão. Como se estarmos gratos, nos colocasse numa posição de fragilidade, quando é precisamente o contrário.

Feito o diagnóstico, resta propor o tratamento: neste (ainda) início de 2024, faça um favor a si mesmo e aos outros, e não hesite em pedir ajuda.

 

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