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Crónica Isabel Stilwell. As mães (de filhos pequenos) são heroínas!

Não estamos nem perto do Dia da Mãe, mas pouco me importa, é hoje que quero fazer uma ode às mães de filhos pequenos e, por isso, é hoje que a farei. Às mães de filhos pequenos e às mães dos adolescentes e, por maioria de razão, às que acumulam ambos os papéis. São umas heroínas.

Dia da Mãe: homenagem às mães de filhos pequenos e adolescentes, heroínas do quotidiano
Dia da Mãe: homenagem às mães de filhos pequenos e adolescentes, heroínas do quotidiano Foto: Getty Images
10 de março de 2026 às 12:50 Isabel Stilwell

Não sei como conseguem aguentar. As noites mal dormidas, a falta de horas de sono, a incerteza ao deitar a cabeça na almofada de quantos minutos faltam para o início da sessão de tortura, antecipando o momento em que serão puxadas do fundo do poço pelo choro de um bebé. Pela pequenina mão que vos sacode para que lhe encontrem a chucha perdida ou lhes sosseguem os medos.

O esforço (paradoxal) de os arrancar da cama, de os vestir e preparar para saírem de casa - sempre a correr - a paciência com que suportam os esquecimentos do saco de ginástica, ou do livro de matemática e que obrigam a voltar atrás, os amuos porque a camisola que queriam não estava lavada, as birras porque as meias picam, os queixumes que se prolongam pelo trânsito caótico, sem uma única palavra de agradecimento. A entrega na escola, com mais ou menos protestos, a que se soma um longo caminho de transportes para chegar ao emprego, onde dão tudo por tudo, sem pausas para cafés ou redes sociais, porque sabem que é preciso sair impreterivelmente à hora marcada para os ir buscar, percorrendo o trajeto de volta como formigas de regresso ao formigueiro.

Pegam, então de novo, ao segundo emprego, levando-os a esta atividade e aquela, algumas por mania deles, outras (demasiadas) por uma absurda ideia de que lhes estão a dar uma qualquer vantagem competitiva, e esperam no carro, combatendo o cansaço e o frio, enquanto respondem a e-mails e preparam reuniões, sabendo que ainda falta ir às compras, fazer o jantar, lavar e dobrar a roupa, mesmo que engomar não faça parte da vossa religião.

Tudo isto, enquanto dão mimo, acolhem lágrimas, constroem torres de lego, leem livros e contam histórias, consolam corações partidos, riem com eles, e amam-nos com todo o vosso coração.

E depois de darem tudo de si, vão ainda culpar-se por falhas, mais imaginadas do que reais, comparar-se com as outras mães (incluindo a vossa própria mãe), recriminando-se pelo grito que não conseguiram conter, pela vez que disseram “Que bonito” ao desenho sem sequer olhar para ele, gastando os minutos que vos sobram a pensar no que amanhã poderão fazer melhor.

Desculpem, não consigo continuar, estou já demasiado exausta só de me pôr mentalmente no vosso lugar.

, se nós, os mais velhos, queremos que nasçam mais crianças para nos alegrarem a vida e, já agora, pagarem as pensões, temos de começar a pensar nas mães e nos pais de outra maneira. Com outro respeito, e medidas concretas.

Não podemos aceitar que os governantes passem o dia a proclamar o seu amor às famílias, mas depois boicotem as iniciativas dos cidadãos que se limitam a pedir coisas tão básicas como mais tempo para as mães e pais estarem com os seus bebés, mais tempo para amamentar, com todos os benefícios que a amamentação comprovadamente proporciona. Não podemos aceitar que as nossas crianças batam todos os recordes de horas passadas na creche e jardim de infância, e até na escola, porque os pais não têm outra alternativa senão aceitar horários de trabalho demasiado pesados e horas extraordinárias para pagar as contas. É urgente não só diminuir-lhes os impostos, como atribuir-lhes prémios, e não podemos exigir que sejam as empresas a fazê-lo à sua custa.

Mas, os empregadores inteligentes, têm de perceber que as mães são mão de obra mais preciosa, porque mesmo que as constipações dos filhos as obriguem a uma ginástica acrobática, são as mais focadas, as mais treinadas a planificar e cumprir objetivos. Aquelas com mais capacidade de resolver conflitos - quem calça sapatos a uma criança de dois anos que encolhe os dedos dos pés, consegue tudo -, as mais capazes de distinguir o essencial do acessório e, de longe, as que encontram soluções mais criativas para os problemas, porque é aquilo que fazem a toda a hora.

A sociedade tem, também, de valorizar as mães que escolhem sê-lo a tempo inteiro, que fazem dos filhos e da casa a sua profissão, abandonando a postura dúplice que leva a que da boca para fora sejam elogiadas, mas na realidade constantemente desvalorizadas, como se tivessem escolhido a via mais fácil, ou fossem dondocas sem nada na cabeça. Da mesma forma que é politicamente correto defender as licenças para o pai e a (urgente) divisão de tarefas entre o casal, mas na prática se humilham os homens que as tiram, que são capazes de cancelar uma reunião importante porque é preciso que alguém fique em casa com o filho doente (“Não, a minha mulher hoje não podia!).

E nós que já não temos filhos pequenos, sejamos ou não avós, precisamos de ser mais amigos dos vizinhos com filhos, mais solidários e menos críticos em relação aos pais, calando de vez o julgamento e as vanglórias de um tempo que nunca foi (alguma vez dormiam dez horas seguidas, estavam lá sossegados à mesa, ou diziam sempre “se-faz-favor” e “obrigada”!). Menos impacientes quando no restaurante as criaturas gritam na mesa ao lado da nossa, menos polícias quando os adolescentes fazem barulho no cinema, menos rápidos a multar a mãe da criança que se atira para o chão com uma birra.

Juro que vou ser mais assim, mas para já o que posso oferecer a estas heroínas, é a certeza de que o caminho melhora, que há de chegar o dia em que podem dormir até mais tarde, acabar um livro sem interrupções, em que vão conseguir ver cinco episódios de uma série de seguida, em que podem sonhar uma viagem (curta, é certo), em que vão poder escolher (mais) como usar o vosso tempo. E a minha enorme gratidão.

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