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“Não somos histéricas. Somos históricas.” A marcha do Dia da Mulher serviu para lembrar que nada está garantido

A Marcha pela Libertação de Todas as Mulheres reuniu centenas de pessoas em Lisboa. A Máxima falou com algumas delas para perceber o que as levou até lá.

Manifestantes defendem direitos das mulheres e a igualdade em Nova Iorque, em 1976.
Manifestantes defendem direitos das mulheres e a igualdade em Nova Iorque, em 1976. Foto: Getty Images
08 de março de 2026 às 21:37 Joana Rodrigues Stumpo

Faz calor no Marquês de Pombal. Entre dias de vento forte e temperaturas baixas, o inverno, já perto da despedida, deu tréguas este domingo. É Dia Internacional da Mulher e há encontro marcado na grande praça de Lisboa. Há décadas que, neste dia, organizações - políticas, filantrópicas - convocam manifestações para dar continuidade à longa luta pelos direitos da mulher. Em 1974 as mulheres passaram a poder votar, ter uma conta bancária e viajar sem autorização do marido. Em 2007, foi conquistado o direito à interrupção voluntária da gravidez (realizada de forma legal e medicamente regulamentada). E, claro, a Constituição da República Portuguesa define que “ninguém pode ser prejudicado [...] em razão de [...] sexo”. Então, o que mais falta?

Frederica, antes de marchar pelas ruas lisboetas, foi almoçar com o pai, que lhe dizia que “em Portugal as mulheres já estão muito libertas”. É por comodismos como este que é “cada vez mais importante fincar o pé”, assume. “Ainda há uma grande diferença salarial, na capacidade de expressão e no medo”. Ao lado de Frederica, Ana segura um cartaz que diz “Eles têm medo de que não tenhamos medo”, palavras retiradas de uma canção de Capicua, aqui tomadas como lema. Já têm por hábito sair à rua no Dia da Mulher, este ano com um novo acrescento: Luís, que se juntou a convite das amigas. “Os homens só precisam de ter as pessoas certas a convidá-los, às vezes acham que é um espaço onde não são bem-vindos. É preciso dizer aos nossos amigos que venham connosco porque também fazem parte desta luta”, explicam.

A Avenida da Liberdade é extensa, com mais de um quilómetro de comprimento e cerca de 90 metros de largura. Há espaço para todos nesta descida de domingo. E percorrer a multidão de cima a baixo é mergulhar num desafio dos sentidos. Veem-se bandeiras, símbolos, as cores gritantes que cobrem as saias compridas e as pálpebras das mulheres. É dia de festa e a maquilhagem exuberante é prova disso. Ouvem-se tambores, pandeiretas, palavras de ordem que ecoam avenida acima: “Abaixo o patriarcado que vai cair, vai cair”. Mesmo quem não fala português entra no jogo, entoando a musicalidade dos sons. É aí, junto aos megafones, que está Tahmina. Tem nas mãos um cartaz escrito em Bengali, que se traduz para algo como “as mulheres têm o poder de mudar o mundo”. Em Portugal há três anos, continua a tradição que começou em casa, no Bangladesh, de celebrar “a liberdade e a independência das mulheres”. É mesmo esse o ambiente ao longo desta marcha, de celebração.

Há quem cante alto e bom som, quem dance um samba de grupo e quem caminhe com um molho de cravos nos braços, distribuindo as flores pelas pessoas. Há ainda quem faça questão de trazer crianças a esta festa - é o caso de Verónica. Tem três filhas pequenas, uma de cada lado e outra ainda bebé de colo. É por elas que sai à rua. “É muito importante elas verem na mãe um exemplo”, diz. “Têm de ganhar consciência de que temos de continuar a lutar por equidade de género. Temos de continuar a tentar que as mulheres sejam uma presença fundamental em cargos de gestão”. Verónica tem 39 anos, a filha mais velha tem apenas 7. “Preocupa-me que elas não tenham os mesmos direitos que eu”. A angústia da incerteza é partilhada nesta manifestação. Cátia, que empunha uma bandeira de uma associação feminista, diz que tem “a sorte de não ter filhos”. Sabe que iriam “herdar um mundo muito difícil”.

O sol de inverno já queima, é preciso procurar abrigo debaixo das árvores nos passeios. Os bancos de rua estão todos ocupados, há cada vez mais gente a querer juntar-se ao povo. No degrau da entrada da estação de metro, uma mulher senta-se com um bebé no colo. Está a alimentá-lo em plena avenida. Atrás dela, um homem deixa-se ficar de pé a acariciar a cabeça da mãe que amamenta. Aquela composição piramidal - perfeitamente renascentista - é a materialização da força, do poder feminino, o motor graças ao qual a luta continua. E entre cuidar das crianças, da casa e dela própria, Judite, de 44 anos, conseguiu finalmente este ano “tempo para vir à manifestação”. Vem da Rua Alexandre Herculano com um complexo cartaz em forma de cubo, cada face com um escrito diferente. Explica que “já há pesquisas que confirmam o que todas as mulheres sabem: que somos sobrecarregadas pelo trabalho doméstico. Tudo isso é invisível. E ainda temos de nos manifestar para nos fazer ouvir. É o absurdo da nossa existência”. Essa, apesar de tudo, não é a única razão pela qual protesta, porque, no que toca a receios relativos aos direitos da mulher, seria mais fácil falar “no que não preocupa. Mais do que nunca precisamos de reconhecimento da restante sociedade de que as questões que enfrentamos não são somente problemas de mulheres”. No cubo que segura entre as mãos, lê-se “Não somos histéricas. Somos históricas”. O comboio de centenas segue o seu percurso.

Neste 8 de março, não precisamos dos limites da calçada. Fazemos da estrada rumo e caminhamos no asfalto da Liberdade.

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