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Leite de fórmula vs leite materno. Existe uma escolha certa - ou uma sem culpa?

O debate entre um e o outro não é novo, mas a pergunta persiste, atravessando gerações de pais, profissionais de saúde e opiniões públicas: existe, afinal, uma decisão objetivamente melhor ou depende de quem a está a fazer?

Mother and Child, circa 1920.
Mother and Child, circa 1920. Foto: Getty Images
10 de fevereiro de 2026 às 13:02 Safiya Ayoob

A discussão em torno do leite materno e do leite de fórmula é antiga, apaixonada e, por vezes, injustamente polarizada. Entre recomendações médicas, expectativas sociais e a realidade quotidiana de cada família, a alimentação do bebé nos primeiros meses de vida continua a ser um tema sensível e profundamente pessoal. Mais do que eleger vencedores, importa compreender diferenças, reconhecer contextos e devolver nuance a um debate que raramente é preto no branco.

O leite materno é, por definição, o alimento biologicamente desenhado para o recém-nascido. Nos primeiros dias após o parto, o colostro - espesso, amarelado e produzido em pequenas quantidades - funciona como uma verdadeira “primeira vacina”, ajudando a proteger o intestino do bebé e a reforçar o sistema imunitário. À medida que a amamentação se estabelece, o leite adapta-se: muda ao longo do dia, ao longo da mamada e ao longo das semanas, acompanhando as necessidades do bebé. Esta capacidade de adaptação é uma das suas maiores virtudes. O leite materno contribui para a proteção contra infeções, apoia o desenvolvimento de órgãos, ajuda na autorregulação do apetite e fornece uma combinação complexa de nutrientes, anticorpos e enzimas impossível de replicar integralmente. Não é por acaso que a Organização Mundial da Saúde recomenda a amamentação exclusiva até aos seis meses de vida, sempre que possível.

Apesar de todos os benefícios amplamente documentados, amamentar está longe de ser uma experiência universalmente fácil. A médica Claire McCarthy, da Harvard Health Publishing, tem sublinhado um ponto essencial: a amamentação funciona melhor quando existe apoio. Apoio familiar, apoio profissional e apoio social.

Na prática, muitas mães enfrentam desafios como atraso na subida do leite, produção insuficiente, mamilos dolorosos ou invertidos, ou simplesmente exaustão física e emocional - especialmente nas primeiras semanas. Para as primeiras mães, sem uma rede sólida ou num contexto laboral pouco flexível, a pressão para “fazer resultar” pode transformar-se num fardo pesado. Quando a narrativa pública ignora estas dificuldades, o risco é claro: transformar uma recomendação de saúde num motivo de culpa.

É neste espaço que o leite de fórmula assume um papel legítimo. Produzido maioritariamente a partir de leite de vaca desnatado e sujeito a um rigoroso processamento industrial, o leite de fórmula é desenvolvido para responder às necessidades nutricionais dos bebés quando a amamentação não é possível ou não é a opção escolhida.

As fórmulas atuais incluem combinações de lactose, óleos vegetais, vitaminas, minerais, ácidos gordos essenciais e, em algumas versões, probióticos, aminoácidos e enzimas. Existem diferentes gamas e adaptações - para recém-nascidos, para necessidades específicas ou para sensibilidades digestivas - todas sujeitas a controlo e regulamentação. Embora não replique a complexidade biológica do leite materno, a fórmula é uma alternativa segura e eficaz para apoiar o crescimento saudável do bebé.

A neonatologista Maria Augusta Gibelli, resume, num artigo publicado pela plataforma informativa Tua Saúde, a posição médica clássica: o leite materno deve ser a primeira escolha sempre que possível. Mas a própria ciência reconhece que “sempre que possível” não é uma nota de rodapé - é o centro da questão.

A socióloga e investigadora do CIES-ISCTE (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia) Dulce Morgado Neves diz que a amamentação é uma das primeiras porque é também uma das primeiras portas de entrada para a noção do que é ser-se uma boa mãe. "Subsiste a ideia de que se trata de uma escolha quando, na verdade, é uma não escolha: é óbvio que uma mulher deve amamentar, é esse o discurso social da boa maternidade, é uma decisão natural."

"O problema", continua a socióloga, "é que a amamentação implica um enorme conhecimento pericial, investigação, procura de consultoras especializadas" e um universo vastíssimo com o qual poucas mulheres se deparam antes de terem o primeiro filho. Por outras palavras, o que é natural pode implicar uma enorme logística, que muitas vezes se esconde nos bastidores das nossas vidas. Pelo menos em , está-se a contestar esta ideia, "existe finalmente um discurso público que quer contradizer o ideal da mulher sacrificial, as mulheres não são supermulheres, não se pode exigir que façam uma coisa e ao mesmo tempo o seu contrário".

Num , o debate surge de um ângulo menos discutido: o peso quase invisível que recai sobre a mãe quando a alimentação do bebé depende exclusivamente do seu corpo. Queiramos ou não, é muitas vezes isso que acontece: a mãe torna-se o principal - e por vezes único - meio de sobrevivência daquele ser. Um fardo silencioso que, segundo a autora, pode mesmo contribuir para o desgaste de uma relação. No texto, a jornalista relata a sua experiência pessoal: durante oito meses, foi a única responsável pela amamentação da primeira filha. As noites em claro, a exaustão acumulada e a ligação inevitavelmente mais próxima com o bebé acabaram por criar uma distância emocional em relação ao companheiro, enquanto marido e pai da criança. O resultado foi uma fase particularmente difícil do relacionamento, marcada por cansaço, ressentimento e solidão. Um tema que, como a própria sublinha, raramente é falado de forma aberta no espaço público.

Com a chegada da segunda filha, a decisão foi diferente - e consciente. O casal optou por uma abordagem partilhada: amamentação combinada com leite de fórmula. Não como um compromisso menor, mas como uma estratégia de cuidado. Essa escolha permitiu à mãe descansar, recuperar física e emocionalmente, proteger a sua saúde mental e, ao mesmo tempo, deu espaço ao pai para criar uma ligação mais ativa e presente com o bebé. Mais do que uma opção alimentar, foi uma decisão tomada para salvaguardar o equilíbrio familiar e reconhecer que cuidar de um bebé não deve ser um exercício solitário.

Demonizar a fórmula não fortalece a amamentação; apenas fragiliza mães que, por razões médicas, emocionais ou circunstanciais, optam por outro caminho. Como lembra Claire McCarthy, existem muitas formas de cuidar, nutrir e criar bebés saudáveis para além da amamentação. O vínculo, a responsividade, a segurança e o amor não vêm numa embalagem - nem num rótulo “exclusivo”.

No fim, a escolha entre leite materno e fórmula deve ser feita com informação clara, acompanhamento profissional e, acima de tudo, empatia. Um bebé bem alimentado é um bebé que cresce; uma mãe apoiada é uma mãe mais confiante. E talvez seja essa a verdadeira base de uma infância saudável: menos julgamentos, mais compreensão e espaço para escolhas reais, vividas no mundo como ele é.

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