Se é para ficar em casa, que seja bem vestida
Aos poucos, as t-shirts antigas começam a desaparecer das gavetas. No lugar surgem pijamas coordenados - de seda, algodão ou até com penas - que tratam o vestir em casa com a mesma atenção que antes era reservada à rua.
Há muito tempo que a moda deixou de acontecer apenas na rua. Durante décadas, o imaginário coletivo construiu-se em torno do momento de sair: o vestido escolhido para um jantar, o casaco perfeito para uma manhã de inverno, os sapatos pensados para atravessar a cidade. A casa era outra coisa - um bastidor invisível onde a estética parecia suspensa. Vestia-se conforto, não estilo. Funcionalidade. Mas, silenciosamente, esse cenário começou a mudar. Hoje, a moda também acontece em casa.
Talvez tenha começado de forma quase impercetível: um tecido melhor, um corte mais elegante, uma cor inesperada num conjunto que antes seria apenas prático. De repente, o pijama deixou de ser apenas aquilo que se veste antes de apagar a luz. Tornou-se uma peça com identidade própria. Há marcas que os desenham como quem desenha um fato - linhas limpas, botões bem escolhidos, tecidos que caem com a mesma graça de uma camisa bem feita. É o caso de etiquetas contemporâneas como a Sleeper, que transformou o chamado party pajama num fenómeno de estilo, ou da britânica Olivia von Halle, conhecida pelos conjuntos de seda inspirados nos pijamas que Coco Chanel usava nas suas viagens. Mesmo marcas de grande consumo, como a Sfera, começaram a tratar o pijama com uma atenção estética que antes estava reservada ao pronto-a-vestir.
Na verdade, a ideia de transformar roupa de dormir em roupa de viver não é completamente nova. Nos anos 1920, Chanel já tinha introduzido os famosos pajama suits nas estâncias balneares da Riviera francesa, propondo conjuntos fluidos que libertavam o corpo feminino das estruturas rígidas da época. Décadas mais tarde, essa mesma ideia voltaria a surgir nas passerelles. A Dolce & Gabbana, por exemplo, explorou de forma evidente o chamado pajama dressing em várias coleções, trazendo para o guarda-roupa de dia camisas de seda estampadas e calças de corte relaxado que pareciam ter saído diretamente de um quarto elegante. O gesto traduzia-se em transformar o íntimo em público.
O que mudou, no fundo, foi a perceção do próprio espaço doméstico. Durante muito tempo, vestir-se bem implicava uma audiência. A roupa existia para ser vista, validada, fotografada. Mas nos últimos anos - e, inevitavelmente, depois da pausa coletiva que a pandemia impôs - a casa ganhou uma nova centralidade. Passámos mais tempo dentro dela, como também mais conscientes de nós próprios dentro desse espaço. E, curiosamente, quando o mundo exterior desacelerou, a relação com a roupa tornou-se mais íntima.
Foi nesse contexto que o loungewear deixou de ser apenas um intervalo entre o dia e a noite para se tornar numa categoria de moda com identidade própria. Marcas como a Damson Madder ajudaram a normalizar a ideia de que conforto e estilo não são opostos, enquanto designers de luxo começaram a olhar para o universo doméstico como um território criativo legítimo. Tecidos suaves, silhuetas relaxadas e conjuntos coordenados passaram a ocupar o mesmo espaço simbólico que antes pertencia apenas à alfaiataria ou ao vestido de noite.
Os pijamas bonitos surgem precisamente dessa mudança de escala. Não são apenas sobre dormir; são sobre habitar o próprio dia. Sobre acordar e não sentir a urgência de trocar imediatamente de roupa para “começar a viver”. Sobre tomar café à janela com um conjunto de algodão suave que tem a mesma dignidade estética de uma camisa bem cortada. Há algo de subtilmente revolucionário nesta ideia: vestir-se bem, mesmo quando ninguém está a ver.
No fundo, a moda descobriu algo que sempre esteve diante de nós - que o estilo não começa quando saímos de casa. Começa no momento em que abrimos o armário, ainda de manhã cedo, e escolhemos o que vestir para viver o dia, mesmo que esse dia aconteça inteiramente dentro de quatro paredes. E, nesse gesto aparentemente simples, o pijama deixou de ser apenas o epílogo da roupa. Tornou-se parte da história da moda.
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