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Ciência: “A maior parte dos nossos cientistas estão em situações precárias”

A propósito do Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência, a premiada bióloga Ana Sofia Reboleira fala à Máxima sobre a falta de recursos e tempo para a investigação, a igualdade de género na ciência e as mudanças, boas e más, provocadas pela pandemia.

Ana Sofia Reboleira
Ana Sofia Reboleira Foto: D.R.
11 de fevereiro de 2021 | Joana Moreira

Ana Sofia Reboleira já descobriu e descreveu mais de 70 novas espécies para a ciência e dedica-se atualmente a explorar o mundo dos ecossistemas subterrâneos. A bióloga das Caldas da Rainha e coordenadora de dois projetos internacionais sentou-se com a Máxima, via Zoom, para falar dos grandes desafios dos cientistas da atualidade – e desvendar qual a característica obrigatória para se ser um.

Há um ano, nesta mesma data, a Presidência do Conselho de Ministros reafirmava o compromisso de "continuar a trabalhar para derrubar estereótipos e combater a discriminação de género que mantém as mulheres afastadas das áreas da ciência". Da sua experiência, esta situação continua a ser uma realidade ou já vê mudanças? 

É evidente que há uma discrepância, sobretudo ao nível dos cargos diretivos e de maior poder. Talvez não tanto na ciência a nível dos doutoramentos e do percurso académico, em que penso que as mulheres são até em número maior do que os homens, pelo menos esses eram os dados na Dinamarca, onde eu trabalhava, mas penso que em Portugal a situação também é bastante similar. O que acontece é que, depois, no período do pós-doutoramento, há provavelmente mais homens com mais oportunidades. Isto tem diversas razões: a primeira é histórica, os homens sempre estiveram em posições de poder historicamente, e outra terá que ver também com a maternidade, e com o tempo e a disposição que isso implica, e com a falta de estabilidade ao nível dos cientistas para dar esse passo.

O que é que poderia ser feito para dar mais espaço às mulheres e atingir a igualdade de género na ciência? 

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Na Dinamarca existem certos programas de financiamento na ciência para pós-doutoramentos que são exclusivos para mulheres cientistas. Este tipo de iniciativa ajuda a contrabalançar um bocadinho a falta de oportunidades que existem depois a outros níveis.

Enquanto professora universitária nesta área, as suas aulas são equilibradas no que diz respeito ao género? 

Há áreas da ciência que são claramente dominadas por homens, como as informáticas e telecomunicações, por exemplo, e outras áreas em que há uma grande diferença. Na biologia eu não noto tanto. Não fiz cálculos, mas penso que deva ter igual número de homens e mulheres e tenho alunos brilhantes tanto homens como mulheres. Não vejo grande diferença por género na qualidade do trabalho que apresentam.

Como é que se interessou pela ciência? 

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Sobretudo pela curiosidade. Sou uma pessoa muito curiosa, a todos os níveis, e sobretudo tenho uma grande curiosidade pela Natureza. Foi esse gosto e esse contacto com a Natureza que me levou por aí. Depois, ao longo do meu percurso académico tive professores que me inspiraram muito, sobretudo na parte das ciências, e penso que isso tenha tido um papel fundamental nessa escolha. Depois, sempre gostei muito de grutas e de animais. Acabei por juntar uma paixão pela outra e enveredar pelo estudo da biologia subterrânea que, na altura, era muito pouco explorada.

Já ganhou prémios, coordenou projetos internacionais e fez uma série de descobertas. Há algum momento da carreira que a tenha marcado em particular?

A primeira espécie nova para a ciência que eu descobri. Por ser a primeira. Claro que depois vamos descobrindo muitas e o peso destas descobertas vai-se dissipando até ao ponto em que chega a ser uma dor de cabeça porque temos mais espécies do que tempo para as descrever. Depois, na evolução da minha carreira, ganhei um prémio na Dinamarca em 2017 que me permitiu estabelecer o meu grupo de investigação e montar um laboratório. Isso foi de facto um grande impulso para a minha carreira porque me permitiu constituir uma equipa para trabalhar numa área para a qual há poucas possibilidades de obter financiamento para trabalhar. Isso foi de facto um grande impulso.

Em que investigações está atualmente debruçada?

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Tenho vários projetos a decorrer ao mesmo tempo, mas talvez o maior seja o estudo dos impactos das atividades humanas em ecossistemas subterrâneos. Sobretudo em ecossistemas subterrâneos aquáticos. Debaixo dos nossos pés estão guardados 97% dos recursos totais de água doce disponível para o consumo humano imediato. Os locais onde esta água está guardada têm o nome de aquíferos, portanto são reservas de água subterrâneas. Do ponto de vista das normas europeias, apenas nos preocupamos atualmente com o bom estado físico-químico destas massas de água. Mas estas massas de água são também ecossistemas, e têm animais que vivem exclusivamente nestes locais. E que estão adaptados, perderam os olhos, o pigmento, que tiveram uma série de outras adaptações como o alargamento dos apêndices, uma estilização corporal... Estes animais são muito pouco conhecidos. E, no entanto, são muito importantes, porque nos proporcionam uma série de serviços. São estes animais que purificam a água que está guardada nestas reservas subterrâneas. Todo esse trabalho de purificação, de reciclagem dos nutrientes, mas também dos contaminantes que chegam a estes locais são nos proporcionados por esta biodiversidade que é, na sua grande maioria, desconhecida.

O que acontece é que estes ecossistemas estão debaixo de terra, mas não estão isolados dos problemas que temos à superfície. Toda a contaminação que nós fazemos à superfície, infiltra-se por gravidade, por exemplo, imagine que temos um campo agrícola e espalhamos pesticidas, quando chover, aqueles pesticidas juntamente com fertilizantes e outros químicos que se aplicam nestes locais irão descer por gravidade até estas massas de água. E nós sabemos que estes tipos de substâncias têm efeitos perniciosos na biodiversidade e nos seres que ali habitam. Este projeto foca-se no estudo dos impactos destes contaminantes e das ações humanas nestes ecossistemas subterrâneos, que são bastante desconhecidos. É todo um novo mundo desconhecido e difícil de estudar, quer seja pela falta de acessibilidade que temos a estes meios, porque grande parte destes ecossistemas é de difícil acesso, e nós temos acesso a partes ínfimas do que é este mundo subterrâneo, e, depois, porque devido às características destes animais é difícil trabalhar com eles também.

A pandemia condicionou alguns acessos?

Felizmente nós tínhamos grande parte do trabalho de campo deste projeto realizado, se tivéssemos começado agora seria impossível. Porque nós tivemos trabalho de campo desde a Austrália até ao norte da Noruega, e temos que viajar e fazer esse trabalho de campo, ir aos locais recolher os animais e fazer as experiências. A partir do momento em que começou a pandemia os trabalhos de campo ficaram suspensos. Sobretudo aqueles que envolvem a deslocação para o exterior. Por isso teria sido provavelmente impossível desenvolver todo o trabalho de campo que desenvolvemos nos últimos três anos e meio.

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E como estão a ser as fases seguintes da investigação?

Estamos todos limitados e os cientistas também e, portanto, as nossas deslocações à faculdade são as estritamente necessárias, que incluem a manutenção de culturas de animais. O bem-estar dos animais e tudo isso tem que ser assegurado. De resto estamos todos em teletrabalho.

O que é que faz um bom cientista? 

A curiosidade. O entusiasmo pela descoberta e o querer compreender o mundo natural que nos rodeia, no caso das ciências naturais onde se inclui a biologia. Isso também faz com que depois se possa trabalhar mais horas sem dar tanto conta disso. Os cientistas não têm um trabalho das nove às cinco, nós trabalhos 10, 12, 15 horas por dia, fins de semana incluídos, por isso é preciso realmente gostar muito da área da ciência que se trabalha para conseguir aguentar esse ritmo. A ciência é um mundo cada vez mais competitivo e, como tal, um bom cientista tem que ter muita vontade de trabalhar se não dificilmente conseguirá manter uma carreira, pelo menos atualmente.

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Quais são os principais desafios para quem hoje deseja ser cientista?

A precariedade é o grande desafio. A maior parte dos nossos cientistas estão em situações precárias, com contratos de curta duração, com bolsas de investigação e isto, como é óbvio, exerce uma certa pressão, quanto mais não seja emocional, de estabilidade, das próprias famílias e tudo isso. A precaridade está também intimamente ligada com o financiamento da ciência. A ciência não é barata e nós agora temos vindo a ver isto com o que podemos assistir em relação à Covid-19. A sociedade no último ano tem se apercebido mais da importância da ciência e do quão difícil é ter resultados. As pessoas querem resultados para ontem, mas isto não funciona assim. Nós para fazer ciência precisamos de reagentes, precisamos de recursos humanos para trabalhar, de capital intelectual para poder desenvolver os trabalhos, aparte do capital material. E tudo isso requer financiamento. Portanto, a captação de financiamento, quer nacional quer internacional, é uma parte fundamental do trabalho de um cientista.

Depois, as taxas de êxito das candidaturas em projetos são muito baixas. A última da FCT teve 8% de êxito, as internacionais andam nos 6% ou 7%, 10% quando muito. O que significa que 90% de quem concorre aos projetos científicos fica de fora. Portanto, o balanço entre captar os fundos e depois fazer a própria investigação, tudo isto requer tempo, e se nós estamos a preparar candidaturas a projetos não estamos a escrever os artigos que nos permitem ter um currículo que nos permite depois obter os projetos. De modo que isto é tudo um balanço complicado de gerir e de manter. Uma pessoa tem de estar constantemente a tomar decisões para perceber onde é que vai investir o seu tempo naquele preciso momento. A vida de um cientista também é isso.

Acha que é preciso chegar a situações limite como a que agora vivemos para que se valorize o trabalho da ciência?

Para os cientistas a importância da ciência é inegável, portanto será mais para os não cientistas terem esta consciência. Penso que esta pandemia veio colocar isso em evidência. Esta questão das vacinas, por exemplo. A metodologia que leva ao desenvolvimento destas vacinas já tinha sido explorada há 20 anos, a investigadora responsável não conseguiu financiamento para desenvolver estas técnicas. Ela mudou de área, foi trabalhar noutra área porque não conseguia. Agora, imagine, se essa investigação tivesse sido financiada há 20 anos, os resultados disso... Provavelmente não estaríamos a viver esta pandemia, estaríamos a viver outra, porque como já vimos, as pandemias são eventos cilícios e nós conhecemos isso bem da Ecologia, isto faz parte da dinâmica de populações, quer seja de humanos quer seja de qualquer outro sistema vivo. Mas isto veio demonstrar que as pessoas querem resultados para ontem, e a ciência não funciona assim. A ciência tem um método cientifico e é preciso tempo para nós validarmos, para vermos os resultados, para aumentarmos o tamanho da amostra, para podermos efetivamente chegar a algumas conclusões. É interessante ver também a mudança de opinião da sociedade à medida que nos vemos abraços com esta situação.

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