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Céline Abecassis-Moedas: “O mundo do trabalho foi desenhado pelos homens e para os homens”

Senhora de uma carreira em nome próprio na Universidade e no mundo dos Negócios, Céline Abecassis-Moedas nunca será apenas a mulher do recém-eleito Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. O combate às dificuldades que as mulheres ainda conhecem no trabalho e na família é o legado que quer passar aos alunos e aos seus três filhos.

Céline Abecassis-Moedas
Céline Abecassis-Moedas Foto: Ricardo Lamego
18 de novembro de 2021 Maria João Martins

É uma parisiense a quem a luz de Lisboa arrebatou. Céline Abecassis-Moedas, professora associada da Católica Lisbon School Business & Economics, administradora não executiva da CUF e Vista Alegre Atlantis, mãe de três filhos, casada com Carlos Moedas, o recém-eleito presidente da Câmara Municipal de Lisboa, tem muito clara a consciência de que ninguém há-de perguntar ao marido como concilia a vida familiar com as exigências profissionais. E, no entanto, espera a todo o momento que lhe dirijam essa mesma pergunta. Mas não será nesta entrevista à Máxima. Do que aqui se fala é, entre outras coisas, de diferentes expetativas da sociedade e das famílias face a homens e mulheres. Num mundo laboral "ainda desenhado pelos homens e para os homens", como diz, apesar de todos os avanços das últimas décadas, Céline Abecassis-Moedas não abdica do percurso em nome próprio e procura transmitir a importância dessa mensagem quer aos filhos, quer aos alunos. 

Céline Abecassis-Moedas, professora associada da Católica Lisbon School Business & Economics, administradora não executiva da CUF e Vista Alegre Atlantis e mãe de três filhos
Céline Abecassis-Moedas, professora associada da Católica Lisbon School Business & Economics, administradora não executiva da CUF e Vista Alegre Atlantis e mãe de três filhos Foto: Ricardo Lamego

Doutorada em Estratégia Empresarial (pela École Polytechnique, Paris), é fundadora e diretora académica do Center for Technological Innovation & Entrepreneurship e professora associada nas áreas de Estratégia e Inovação. Antes de chegar à Universidade Católica, foi professora na Queen Mary University of London e trabalhou como consultora de estratégia na AT Kearney, em Londres, e como Gestora de Produto na Lectra, em Nova Iorque. Quando consegue encontrar um tempo para si, Céline gosta de ler ficção (sobretudo em francês, para manter a ligação à cultura em que cresceu), praticar pilates e acompanhar a Moda, de que é uma consumidora consciente. E de andar a pé nesta cidade que ainda a arrebata. Por ora, não tem reclamações a apresentar ao Presidente da Câmara.

É professora universitária, investigadora e, neste momento, também é administradora não executiva de duas empresas de topo em Portugal. O que é que estas duas áreas de trabalho lhe dão em termos intelectuais? Precisa de ambas?

Desde o princípio da minha carreira que tenho procurado estabelecer a ponte entre estes dois mundos, o académico e o empresarial. Quando terminei o meu doutoramento, em 1999, fiz uma coisa pouco vulgar: fui trabalhar para a indústria, ao contrário da maioria dos meus colegas que seguiram, de imediato, uma via académica. Eu ainda tinha dúvidas, queria ver mais do mundo prático antes de tomar uma decisão mais definitiva. Fui então para uma empresa francesa em Nova Iorque e concluí que não era só aquilo que queria fazer. Procurei um ponto intermédio, que é a consultadoria. Por isso, quando quis voltar à vida académica já trazia esta experiência prévia. Aqui na Católica, montei uma primeira cadeira de Strategic Consulting Pojects, com 12 alunos e duas empresas. Hoje, 10 anos depois, são 150 alunos, 30 projetos e 8 professores. E depois, um bocadinho por acaso, comecei a ter funções de administradora não executiva em empresas, onde sinto que são valorizadas pessoas não apenas com experiência, mas também com uma postura de independência e algum distanciamento em relação ao que se passa numa empresa. Por outro lado, a vida do investigador é muito solitária: trabalhamos sozinhos durante anos e depois publicamos o paper, que se for lido por 100 pessoas já será muito bom. Sabe a pouco, não é? A maneira de dar mais visibilidade a este trabalho é partilhá-lo com as empresas. 

O que a levou a optar pela área dos Negócios e da Economia? O que queria ser quando crescesse?

Em pequenina queria ser bailarina, como tantas outras meninas. Depois, na adolescência, gostava muito de estudar, mas queria algo que não me isolasse das pessoas. Física ou Matemática ser-me-iam impossíveis, por exemplo. Acabei por optar pela Economia, talvez porque exigindo rigor e análise, não deixa de ser uma Ciência Social. Ainda considerei as Ciência Políticas, mas acabou por prevalecer a Economia.

As mulheres no mundo do trabalho

A área dos Negócios é muito procurada por raparigas? Tem muitas alunas?

Creio que o número deve estar equilibrado. Podemos dizer que, no ingresso nas carreiras, não há qualquer barreira. Entram muitas mulheres nas empresas até porque, em regra, são elas as melhores alunas. O problema é a evolução na carreira. À medida que se sobe na escala hierárquica, o número de mulheres vai diminuindo drasticamente. 

E no mundo académico é diferente?

Não. Nesta escola pode-se dizer que até somos um bom exemplo. A reitora é uma mulher, tivemos uma diretora, na equipa de direção, composta por seis pessoas, temos duas mulheres e temos três catedráticas em oito. Mas o panorama nacional não é este. De resto, Portugal não é caso único. Nos países anglo-saxónicos, por exemplo, é muito triste ver as mulheres que fazem MBAS (que lhes custam uma fortuna e muito esforço) para ficarem em casa com os filhos. A responsabilidade é em parte das próprias mulheres, claro, mas a sociedade cobra-nos muito mais do que aos homens. Parece que o mundo foi desenhado pelos homens para os homens. Com os meios de que dispomos hoje é possível criar um modelo de trabalho mais flexível, adequado a pais e mães que, em determinado momento, precisem de acompanhar mais os filhos, sem que tenham de abdicar da realização profissional.

A ambição das mulheres ainda é estigmatizante?

Há um podcast de uma jornalista francesa que se intitula Femmes Puissantes. À pergunta: "Você é uma mulher poderosa", todas hesitam em responder que sim. Há uma carga muito pesada na palavra ambiciosa ou poderosa, eu própria hesitaria se me fizessem a mesma pergunta, mas claro que tenho objetivos profissionais. Na verdade, podia ter menos ambição e usufruir de uma vida mais calma. Mas não é para mim. 

As mulheres, sobretudo as que são mães, são culpabilizadas pela sociedade e até por si mesmas?

Totalmente. É um sentimento que nos é inculcado muitas vezes por mães e sogras, enfim pelas mulheres da geração anterior. Lembro-me perfeitamente dos meus filhos serem pequenos e de eu ter uma conferência nos Estados Unidos, onde ia estar apenas quatro ou cinco dias. Houve logo quem perguntasse: "Mas como é que abandonas os teus filhos?" Abandonar? Os meus filhos ficavam com o pai, com a minha sogra, com todo o conforto e atenção. Nunca ninguém perguntou isso ao meu marido ou a qualquer outro homem. Esta diferença é muito injusta porque temos de nos perguntar quantas mulheres efetivamente desistem dos seus objetivos para não parecer que estão a deixar os filhos para trás. As nossas vidas são como uma corrida em que estamos sempre a perder: perdemos em relação aos colegas do sexo masculino porque eles têm mais disponibilidade para o trabalho e perdemos em relaçao às outras mães porque elas estão mais presentes. É verdade que estou em mais corridas, mas tenho de admitir que é muito desgastante. Mas há que não baixar os braços: sinto que tenho quase uma responsabilidade social de passar a mensagem da igualdade de oportunidades aos meus filhos e alunos.

Céline Abecassis-Moedas, professora associada da Católica Lisbon School Business & Economics, administradora não executiva da CUF e Vista Alegre Atlantis e mãe de três filhos
Céline Abecassis-Moedas, professora associada da Católica Lisbon School Business & Economics, administradora não executiva da CUF e Vista Alegre Atlantis e mãe de três filhos Foto: Ricardo Lamego

Há algumas semanas, numa conferência promovida pela Executiva, disse que muitas empresas (e até governos) chamam as mulheres para a liderança quando a situação é crítica. Em sua opinião, porque é que isto acontece?

A Christine Lagarde disse, numa entrevista, que quando todas as soluções tidas por normais (ou tradicionais) já foram tentadas, vai-se buscar uma mulher para ver se ela traz outra perspetiva. Não sei exactamente qual a razão, mas sei que muitas delas acabam por aceitar porque têm a percepção de que será uma das poucas oportunidades que alguma vez terão. 

Como vê a carreira política do seu marido? Alguma vez temeu que a visibilidade pública dele engolisse a sua própria carreira?

Não é o meu estilo. Somos casados há mais de 20 anos, iniciámos as nossas carreiras em conjunto, partilhamos as nossas decisões, sobretudo quando isso pode afectar a vida familiar. Quando aceitei o cargo aqui de directora da formação de executivos, estávamos em Bruxelas e eu vinha aqui três dias por semana. Ele deu-me o suporte necessário a que tal fosse possível. Depois, quando ele pensou avançar para a Câmara de Lisboa, perguntou-me o que eu pensava. O normal em todos os casais, julgo eu. Quem quiser pensar que eu sou apenas a mulher de Carlos Moedas, que pense. Na verdade, comecei a minha carreira muito antes do meu marido ser uma figura pública. 

Lisboeta de coração

Imagine que não é mulher do presidente da Câmara. Como lisboeta de adoção, o que quer reivindicar? Do que gosta e o que a exaspera?

Cheguei aqui em 2004 com os meus dois filhos mais velhos ainda muito pequenos, falava muito pouco português, só tinha vindo cá de férias. Gostei do tempo, gostei da luz. Eu sou de Paris, vivi em Londres e em Bruxelas, que são cidades muito escuras, onde nesta altura do ano anoitece cedíssimo. Estive em Bruxelas entre 2015 e 2019 e era terrível: ia levar os meus filhos ao autocarro às 7.45 da manhã e eles voltavam a casa por volta das 4 da tarde, o que significava que saíam e entravam em casa sempre de noite, pelo menos, durante três meses. Em Lisboa não é assim, nem mesmo no inverno, e isso é maravilhoso. Na verdade, gosto de tudo em Lisboa. Talvez seja uma cidade pouco preparada para quem, como eu, gosta de andar a pé, mas isso decorre da própria geografia. É a condição natural de Lisboa. Quando cheguei cá, ia com os meus filhos, a mais velha com três anos e o do meio com três meses, para o Jardim das Amoreiras. Subir aquela rua, com carrinhos e o peso dos dois, era de perder o fôlego. Mas são coisas que não se podem mudar.

O que gosta de fazer quando não está a trabalhar?

Gosto muito de ler, poucos livros de negócios fora do trabalho. Leio muita ficção (nos últimos tempos, li muitos livros de mulheres, Leïla Slimani, por exemplo, mas também De Noite Todo o Sangue é Negro, de David Diop, que ganhou o Booker Prize depois de ter tido o Goncourt des Lycéens) e banda desenhada. Gosto de fazer pilates, que me proporciona a minha hora de liberdade, em que ninguém me chama. Aqui na Universidade são as obrigações profissionais, em casa estou sempre a ouvir: "Mãe!Mãe! Onde é que está isto ou aquilo?" Aos fins-de-semana gosto de andar, mas com calçado confortável.

Do que gosta em Moda? Tem um interesse académico também por este setor…

Tenho trabalhado muito com a indústria da Moda e, por isso, tenho muito interesse por essa área. Admito que faço habitualmente as minhas compras em Paris, em primeiro lugar, porque é uma maneira, tal como as leituras, de continuar a ser francesa, mas porque continuo a achar a oferta em Portugal mais tradicional. Gosto de wrap dresses, sobretudo depois de ler a autobiografia da mulher que os criou, Diane von Furstenberg, The Woman I Wanted To Be. Uma peça que nasceu do engenho de uma mulher em dificuldades tem um valor acrescido.

Fotografia: Ricardo Lamego

Maquilhagem: Miguel Stapleton

Cabelos: Eric Ribeiro

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Céline Abecassis-Moedas, Católica Lisbon School Business, Carlos Moedas, Vista Alegre Atlantis, Paris, política, feminismo, igualdade de género
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