As mulheres estão a virar à esquerda - e os homens não. O que o voto diz sobre género, poder e representação
As opiniões políticas já não ficam só nas urnas. Podem influenciar amizades, crushes e até o ambiente de trabalho.
Cristina Ferreira regressa ao centro da polémica, desta vez por declarações feitas em direto no Dois às 10, durante a rubrica Crónica Criminal. Em cima da mesa, um caso particularmente violento: a violação de uma jovem de 16 anos por quatro influencers, que terão filmado e partilhado o crime nas redes sociais.
Foi nesse contexto que a apresentadora lançou uma questão que rapidamente ultrapassou os limites: “mesmo que ela tenha dito para parar”, deverá ter-se em conta o efeito da “adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga”? Mais do que uma pergunta, a frase soou como um alarme e a Internet foi a primeira a reagir. O comentário reabriu o debate sobre a forma como o consentimento é abordado em contexto mediático.
Não é, de resto, um episódio isolado. Num outro momento, ao comentar o femicídio de Conceição Figueiredo, em Oliveira do Bairro, Cristina Ferreira questionou se a própria vítima, ao entrar no carro do agressor após um baile, não se teria “posto a jeito”. Declarações que regressam agora ao espaço público como eco e como sintoma de uma discussão mais funda: até que ponto o discurso mediático continua a deslocar o foco da responsabilidade para quem sofre a violência?
As declarações motivaram uma queixa junto da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), que na sua deliberação, refere que “declarações deste teor transferem a responsabilidade do sucedido para a(s) vítima(s)”, alertando para o impacto na perceção pública da violência de género e para o risco de revitimização.
Em resposta ao episódio mais recente, a TVI divulgou ontem um comunicado manifestando apoio a Cristina Ferreira. O canal afirma não poder “ficar indiferente à controvérsia gerada” e considera que uma pergunta feita no programa “desencadeou um coro de críticas, com particular repercussão nas redes sociais”. A estação lamenta ainda “a forma, o tom e a descontextualização” das palavras da apresentadora, sublinhando que não houve intenção de banalizar o crime.
No mesmo dia, o Movimento Democrático de Mulheres (MDM) apresentou uma queixa à Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) e à ERC. O movimento considera que foram feitas “afirmações que introduzem ambiguidades inaceitáveis sobre o conceito de consentimento”, nomeadamente ao sugerir que, em contexto de “adrenalina”, uma recusa expressa poderia não ser entendida como limite inequívoco.
Segundo o MDM, este tipo de discurso pode contribuir para a banalização da violência sexual, a culpabilização da vítima e a desresponsabilização do agressor, além de enfraquecer a compreensão pública do consentimento enquanto princípio jurídico e ético. O movimento recorda ainda que o Guia de Boas Práticas dos Órgãos de Comunicação Social na Prevenção e Combate à Violência contra as Mulheres e Violência Doméstica recomenda a evitação de discursos que possam culpabilizar vítimas ou relativizar a violência de género.