As mulheres estão a virar à esquerda - e os homens não. O que o voto diz sobre género, poder e representação
As opiniões políticas já não ficam só nas urnas. Podem influenciar amizades, crushes e até o ambiente de trabalho.
Escolher um partido já não chega. Hoje, votar é escolher quem queremos ser. E, mais uma vez, homens e mulheres parecem estar a escrever capítulos diferentes da mesma história. Em democracias ocidentais, dados de várias latitudes mostram um padrão: as mulheres tendem a votar mais para a esquerda, enquanto os homens flertam com opções conservadoras ou radicais. Investigadores suíços apontam que, em questões sociais, ambientais e de igualdade de género, as opiniões progressistas são mais frequentes entre eleitoras do que entre eleitores, o que se reflete nas urnas. E essa divisão parece acentuar-se nas gerações mais novas: pesquisas indicam que entre a Geração Z as raparigas gravitam muitas vezes para a esquerda enquanto os rapazes se inclinam para a direita, um fenómeno que já se observa na Ásia, na Europa e nas Américas.
Mas o que está realmente por trás desta divisão? Não é só política: é identidade, ambição, medo e desejo de futuro. Falámos com João Cancela, professor de Ciência Política na NOVA FCSH, para perceber como estas diferenças estão a redesenhar não apenas os mapas eleitorais, mas também a forma como nos relacionamos e nos vemos no mundo.
Em quase todas as democracias ocidentais, os dados mostram um padrão consistente: homens tendem a votar mais à direita, mulheres mais à esquerda. Estamos perante uma verdadeira divisão política de género ou estamos a simplificar uma realidade muito mais complexa?
A realidade é complexa, mas esse padrão geral tem-se vindo a verificar, sim. Ou seja: existe um padrão recorrente de gender gap eleitoral nas democracias ocidentais, mas não o devemos ler como uma clivagem homogénea. As diferenças entre homens e mulheres, sobretudo mais jovens, variam bastante em função da dimensão em análise (consoante seja económica ou cultural) e do contexto político. Apesar de em alguns países terem grande expressão, numa análise com dados portugueses de 2020, notei que muitas das diferenças que se supunha estarem a crescer não são tão marcadas como o debate público sugere, estando concentradas sobretudo na dimensão económica clássica esquerda–direita. O gender gap existe, mas não corresponde a uma divisão total entre dois blocos políticos coerentes.
Enquanto as mulheres jovens se tornam mais progressistas, muitos homens mostram sinais de afastamento ou radicalização política. Os homens estão a tornar-se mais conservadores ou estão sobretudo a reagir à perceção de perda de estatuto e poder?
Não se trata apenas de uma deslocação ideológica linear para a direita, mas de uma reação política a transformações sociais intensas. Em vários contextos, incluindo Portugal, observa-se uma crescente polarização masculina em torno de partidos que articulam discursos de perda de estatuto, ressentimento ou exclusão simbólica. O crescimento do Chega entre homens jovens e de meia-idade, em particular de áreas periféricas, pode ser ilustrativo disso. Mais do que conservadorismo clássico, trata-se muitas vezes de uma política ligada a perceções de injustiça e de desvalorização de trajetórias tradicionais de mobilidade social. Mas as perspetivas de sucesso de partidos de direita radical passam por não dependerem exclusivamente de eleitores jovens do sexo masculino, necessitando de alargar a sua base com vista a passar a outro patamar de resultados eleitorais.
Apesar de serem hoje o eleitorado mais progressista, as mulheres continuam sub-representadas no poder. Os partidos estão realmente a ouvir as mulheres - ou apenas a contar com o seu voto? O voto feminino é mais ideológico ou mais realista do que o masculino?
A sub-representação das mulheres no poder político contrasta com o seu peso eleitoral e com a sua crescente centralidade nos segmentos mais progressistas do eleitorado. Os dados portugueses mostram que partidos como o PS e o BE dependiam fortemente do voto feminino e perderam-no de forma particularmente acentuada entre 2022 e 2025. Isto sugere que estes partidos contavam com esse eleitorado mais do que representavam do ponto de vista substantivo. Quanto à natureza do voto, não há evidência robusta de que o voto feminino seja menos (ou mais) ideológico.
Entre a Geração Z, o gender gap político é ainda mais acentuado. Isto vai desaparecer com a idade ou estamos a assistir a uma mudança estrutural na forma como homens e mulheres se posicionam politicamente?
Penso que ainda é cedo para uma resposta definitiva. Parte do gender gap jovem pode ser um efeito de ciclo de vida, atenuando-se com a idade. No entanto, há indícios de que algumas diferenças podem ser mais estruturais, ligadas a socializações políticas distintas e diferentes respostas a experiências de desigualdade. A rápida transformação do sistema partidário português após 2022, bem como dados internacionais, não só da Europa como também da América e da Ásia, sugerem que novas clivagens estão a emergir.
A política deixou de ser apenas uma escolha eleitoral e passou a marcar identidades pessoais. Esta divisão política entre homens e mulheres pode transformar-se numa barreira invisível nas relações afetivas, sociais e até profissionais?
Sim, não é só um risco, mas já uma realidade, sobretudo em contextos de crescente polarização afetiva. Quando as posições políticas passam a funcionar como marcadores identitários fortes, podem transbordar para esferas não políticas, moldando redes sociais, escolhas afetivas e eventualmente ambientes de trabalho. Não é inevitável, mas é um efeito plausível quando a política deixa de ser apenas sobre preferências e passa a estruturar campos que carregam uma carga moral acentuada.
Eleições. Quão feministas são, afinal, os candidatos à Presidência da República?
Ainda que os poderes de um Presidente da República sejam constitucionalmente limitados, é inegável o seu poder de influência. Impõe-se, portanto, a pergunta: há diferenças substanciais entre candidaturas ou a igualdade de género não é um tema que mobilize o eleitorado? Fomos ouvir as opiniões de mulheres que apoiam as diferentes alternativas.
Quem é Rama Duwaji, a primeira-dama mais jovem e cool de Nova Iorque
Artista multidisciplinar e ilustradora, a nova primeira-dama pertence à geração Z e acompanha Zohran Mamdani na nova trajetória política como presidente da câmara de uma das cidades mais influentes do mundo.
E se Portugal tivesse uma Presidente da República?
Maria de Lourdes Pintasilgo candidatou-se em 1986, depois disso tivemos de esperar 30 anos, até 2016, para voltarmos a ter mulheres candidatas à Presidência da República. Nessa altura as candidatas foram Marisa Matias e Maria de Belém. Cinco anos depois, duas mulheres voltam a estar na corrida: Marisa Matias, de novo, e Ana Gomes, pela primeira vez. Falámos com uma socióloga e uma investigadora sobre este momento na política portuguesa.