A poucas horas de Lisboa há um paraíso verde onde se come maravilhosamente bem, se escutam histórias fascinantes de outros tempos e as tardes são passadas a bebericar gins de olhos postos no mar. Assim é a vida nas ilhas.
Faial Costa a Costa, Açores (vista do Faial para o Pico)
05 de agosto de 2021 às 08:00 Rita Silva Avelar
É caso para dizer que o paraíso mora aqui ao lado. Se pensarmos que de Lisboa à Horta são pouco mais de duas horas e meia, o tempo que demoramos a chegar ao Algarve do mesmo ponto de partida parece um pouco silly nunca nos ter passado pela cabeça visitar o Faial, ou outra ilha, na verdade, do arquipélago dos Açores, considerado um dos destinos mais seguros do mundo por natureza.
Chamada a ilha azul, ou a pérola dos Açores, o Faial tem um ritmo próprio, diz-me uma amiga, antes de aterrar, e confirma-se. À chegada, a simpatia e a tranquilidade de Alda Pimentel, a guia que nos há-de acompanhar fielmente ao longo de cinco dias, é a prova de que estamos num sítio que pulsa de forma particular. Entre os quase obrigatórios e refrescantes gins do bar do Peter’s, as caminhadas pela cidade da Horta, redescobrindo as igrejas que os sismos abalam há vários anos, e os recantos verdes entre os "Cabeços", como a Caldeira, sem esquecer a visita ao enigmático Vulcão dos Capelinhos, uma semana não chega para viver em pleno esta ilha que faz o triângulo com o Pico e com S.Jorge. Que não se subestimem os seus apenas 21km de comprimento, já que há estradas e paisagens de perder de vista. As aventuras, essas, são incontáveis.
Além das vistas maravilhosas, o Faial é uma caixinha de Pandora com segredos e encantos por descobrir. Uma ilha povoada, em primeiro lugar, pelos flamengos, que desembarcaram na ilha em 1465, e cujas histórias incluem vulcões, baleias e aristocratas.
Vale a pena lembrar que Horta foi - e continua a ser mas noutra medida - uma cidade portuária de grande importância para quem fazia ligações naúticas Europa-América, mas não só. A somar à frequência com que os barcos atracavam no porto, trazendo tanto ouro como sede, fome a ânsias de pisar terra, no início do século XX a Horta tornou-se num dos maiores nós de cabos telegráficos submarinos no mundo. Ainda hoje encontramos as casas que pertenceram aos cabos, no centro da cidade.
A somar às atividades económicas, junta-se a caça da baleia, que teve uma importância relevante entre os séculos XIX e XX. Aconselha-se a visita ao Museu de Scrimshaw, que pertence ao legado do Peter Café Sport, um pequeno museu na cave do bar que apresenta uma interessante coleção de dentes de baleia e cachalote esculpidos e gravados por artistas ao longo dos anos. A caça à baleia era um trabalho duro, que envolvia muitos homens e sacrifícios no mar e em terra, e que pode ser recordado, em recriação, no museu da Antiga Fábrica da Baleia do Porto Pim.
Ainda sobre a caça à baleia, é impossível distinguir a história dos últimos dois séculos do Faial da da família Dabney, uma das mais proeminentes famílias que impulsionaram estes e outros negócios na ilha, empregando centenas de faialenses, e que começa quando desembarcam na ilha, em 1806. Hoje há um museu dedicado à família, uma proposta à descoberta da sua história, que se entrelaça com a do Faial. Trata-se da Casa dos Dabney, recuperada pelo Governo Regional dos Açores, junto ao chamado Monte da Guia, e que se estende até uma área de vinhas, pela encosta, em direção à baía de Porto Pim.
Não vale sair da ilha sem fazer uma prova de vinhos, e para isso há a Cantinho das Provas, uma simpática loja de vinhos onde também se servem petiscos, mas onde podemos descobrir um pouco dos vinhos açorianos, como o Terras de Lava, do Pico, Pedras Brancas, da Graciosa ou Adega do Vulcão Ameixâmbar, do Faial. Também pode provar alguns deles nos restaurantes locais, como é o caso do Genuíno, onde além de se comer deliciosamente bem podemos ouvir as aventuras de mar do proprietário, que correu mundo de barco. Outra hípotese é refastelar-nos com a comida caseira da Renata, no Kabem Todos, que em dias menos nublados oferece uma vista panorâmica sobre o canal e ilhas do Pico e S. Jorge. Por falar em comida, é essencial passar no Queijo Morro,uma fábrica familiar que produz um maravilhoso queijo artesanal, amanteigado, de pasta mole, que já entrou na lista de melhores iguarias da revista Wine Spectator.
Foto: Getty Images
Poucas sensações serão iguais às de percorrer o Faial de carro, ao sabor da paisagem e das histórias que Alda Pimentel nos conta, como quando o Vulcão dos Capelinhos entrou em erupção, e toda a gente na ilha se aproximou para assistir a este espectáculo da Natureza num misto de curiosidade e medo.
Para dormir, há a Quinta da Meia Eira, uma quinta campestre no sul da ilha, ou, caso queira mais centralidade, o Azoris Faial Garden, que permite ir a pé para o centro da cidade com facilidade. Por último, não se vá embora sem ver as pinturas da Marina da Horta, feitas por velejadores, que acreditam só terminar a viagem com sucesso se assim o fizerem. A mesma que nos levou nesta autêntica volta ao mundo sem sair do lugar.