Mundial de Futebol 2026. Jogar à bola está na moda

Com o arranque da maior edição de sempre de um campeonato do mundo de futebol, os relvados serão, nas próximas semanas, o centro de todas as atenções. Pendentes do apito inicial estarão, além dos adeptos, os responsáveis pelas marcas (de luxo e não só) que perceberam que o desporto-rei é uma máquina de fazer dinheiro. Agora, além de vestir os atletas, elas são parte do jogo.

Para celebrar o regresso do Haiti ao Mundial de Futebol (a última vez tinha sido há 52 anos), a Stella Jean lançou “L’Haitiana”, uma fabulosa coleção de camisolas e vestidos inspirados na herança cultural do país. Foto: @stellajean_sj_
12 de junho de 2026 às 14:24 Ana Murcho

Até podem não conquistar o Mundial, mas já ganharam o prémio de "melhor vestuário". O comentário do especialista citado pelo The New York Times é transversal a tantos outros que se debruçam sobre esta matéria: os jogadores da seleção francesa - entre eles Kylian Mbappé, Jules Koundé, Ousmane Dembélé, Hugo Ekitike ou Michael Olise - são os vencedores de uma categoria muito particular deste campeonato de futebol que agora começa, com pilhas de estilo à frente de qualquer das equipas oponentes. Nos últimos anos, a sua chegada ao centro de treinos oficial em Clairefontaine, nos arredores de Paris, deixou de ser um momento banal e transformou-se num desfile de moda informal, onde as carteiras Birkin e os relógios de milhares de euros se confundem com looks inusitados, assinados por Dior, Balenciaga e Louis Vuitton; à sua espera estão dezenas de paparazzi que “documentam” as suas indumentárias da mesma forma que, noutros tempos, fotografavam as chamadas de figuras como David Beckham e Cristiano Ronaldo. Se há 20 anos eram elas que faziam correr tinta nas revistas cor-de-rosa, agora são eles, os atletas, que deixam toda a gente curiosa sobre o seu próximo passo… ou faux pas. Basta folhear revistas como a Vogue UK, que destaca Declan Rice, estrela do Arsenal e da seleção inglesa, nas suas páginas, ou a Vanity Fair, que coloca Mbappé, capitão francês e ídolo do Real Madrid, na capa da sua edição global dedicada ao desporto, para perceber que o foco, agora, está no que eles vestem. Não é por acaso que, tanto um como outro, são a cara de marcas como a Burberry e a Dior, respetivamente. Fashion goals? Nem mais.

Foto: Vanity Fair 1 de 2 / Kylian Mbapp é, jogador do Real Madrid e capitão da seleção francesa, foi capa da primeira edição global dedicada ao desporto da revista Vanity Fair, publicada em maio. O atleta é também uma das principais caras da Dior.
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Foto: Flaunt Magazine 2 de 2 / O mais recente número da Flaunt Magazine tem como tema “The Beautiful Game” e conta com o jogador português Rúben Dias, um dos principais elementos do Manchester City, na capa. Na entrevista que acompanha o editorial, fala-se de futebol… e de moda.
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"O futebol arranja sempre maneira de sair do estádio e entrar na vida quotidiana", escrevia a secção de estilo do South China Morning Post, que por estes dias publicava um longo compêndio sobre a associação entre o desporto e a moda. “Um exemplo disso: , participou nas orações do Eid al-Adha no Bronx, no mês passado, vestindo uma kurta personalizada inspirada no equipamento away [usado em jogos fora de casa] do Arsenal para a época 2025/26. Como era de esperar, a Internet entrou em ebulição quando ele, mais tarde, publicou um artigo de opinião no The Athletic, reforçando a sua lealdade ao clube.” Claro que a escolha de Mamdani foi apenas mais um pretexto para justificar o que há muito já se suspeitava: que o blokecore (estética que adapta as camisolas de futebol para o vestuário urbano do dia a dia) está a ganhar um novo fôlego. A personalização de equipamentos oficiais e o seu uso em espaços (e dias) pouco habituais fez com que os jerseys que durante décadas vimos nos estádios se convertessem, mais do que numa questão de fé - de clube ou de seleção - numa questão de identidade. O futebol já não se resume a um jogo de 90 minutos dentro de quatro linhas. É, assumidamente, uma forma de estar, uma cultura global. O que os jogadores dizem e - principalmente - como se vestem, reflete algo mais vasto do que o próprio desporto. Tudo aquilo que até há pouco tempo era encarado como linguagem visual (e em muitos casos aborrecida) do futebol, dos casacos pré-jogo aos cachecóis bafientos, faz agora parte de um circuito muito mais glamouroso, o da moda. Boa parte dessa mudança coincidiu com a , claro, que impulsionou a autoexpressão pessoal como forma (não oficial) de comunicar. Basta passear por qualquer metrópole: as camisolas de futebol são a peça-chave de muitos outfits of the day de mulheres e raparigas que disputam o trono do blokecore com membros do sexo masculino. O desporto-rei, comenta-se, é para ser vivido dentro e fora do relvado.

Foto: Getty Images 1 de 2 / Zohran Mamdani nas orações do Eid al-Adha no Bronx, em Nova Iorque.
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Foto: Getty Images 2 de 2 / Adriana Lima veste uma camisola da seleção brasileira de futebol durante a Semana da Moda de Alta-Costura Outono 2018

Tal como acontece com outros eventos do género, o torneio que agora começa tem-se expandido de forma constante para os mundos da geopolítica, da sociedade e da economia - especialmente no caso de um campeonato que continua a ser uma das edições mais controversas da história recente - precisaríamos de outro texto só para assinalarmos tudo o que já não está a correr bem, e é muita coisa… Nos últimos meses, tornou-se impossível ignorar a sua presença nas montras das lojas, nas plataformas de comércio eletrónico, nas redes sociais e nas campanhas publicitárias, alimentando o vasto ecossistema comercial que rodeia o grande palco do futebol. O impacto esperado é avassalador. A decorrer simultaneamente em três países - Estados Unidos, Canadá e México -, o Mundial 2026 é o primeiro a ser organizado por três nações (será “o maior de sempre”) e arranca com 48 seleções; terá um total de 104 jogos e será transmitido em diferentes fusos horários, idiomas e comunidades. A FIFA, entidade responsável pela organização, prevê que seis mil milhões de pessoas assistam a pelo menos um jogo. Mais do que uma competição desportiva, o Mundial 2026 é uma plataforma extremamente lucrativa, e negar essa evidência seria ignorar o modus operandi do novo milénio.

Inspiradas na história e na cultura de cada país, as camisolas away (literalmente, para “os jogos fora”) das 13 federações vestidas pela Adidas para este Mundial dão um novo toque aos clássicos elementos de design da marca. Foto: © FIFA World CUP™ 2026 Federation Away Kits

Em 2024, o mercado global de camisolas de futebol foi avaliado em 87,5 mil milhões de dólares, fasquia que se deve aproximar dos 140 mil milhões até 2034, de acordo com estimativas de vários estudos de mercado. O que antigamente era encarado como roupa desportiva é agora abraçado como um produto legítimo de activewear, o que proporciona às empresas envolvidas um público crescente, que vai muito além dos adeptos tradicionais. Alguns dos nomes mais conhecidos do panorama fast fashion reconheceram rapidamente o poder comercial do futebol, casos da Zara e da H&M, que há muito lançam, ocasionalmente, coleções inspiradas nas cores de algumas seleções. Mas há cada vez mais marcas de nicho, como a brasileira Farm Rio ou a americana Aimé Leon Dore, que adotam a estética do futebol para alcançar um público (muito) mais vasto. Um exemplo claríssimo desta nova roda dos milhões: quando em 2023 Kim Kardashian foi vista a usar uma camisola vintage da AS Roma, meio mundo enlouqueceu - a outra metade tentou comprar uma camisola igual (feito praticamente impossível, já que as peças mais antigas são raras e custam centenas, ou até milhares, de euros). O estilo mainstream abraçou o blokecore e gritou “queremos mais”. Rihanna, que mistura como poucas streetwear e high fashion, é outra habitué nestas andanças: são dezenas as imagens da cantora com jerseys de futebol - a mais recente tem apenas dias.

Foto: Getty Images

Os grandes eventos servem, por isso, como montras globais para as mais importantes marcas de moda, que procuram novos públicos, mantendo ao mesmo tempo a sua relevância cultural: a presença de nomes como a Louis Vuitton ou a Rimowa nos Jogos Olímpicos de Paris ou nas diferentes etapas do campeonato de Fórmula 1 é recorrente. Porém, o futebol foi sempre visto como “o parente pobre” desta equação, muito devido ao seu público-alvo. Enquanto agregador de massas, nomeadamente da classes média e baixa, o futebol nunca recebeu a mesma atenção que os chamados “desportos de elite”, ao ponto de ser prática comum dizer que um empresário de topo “não perdia tempo a ver a bola”, daí não fazer sentido anunciar relógios de 100 mil euros durante um jogo entre o Brasil e Portugal. Mas o futebol nunca será sempre só futebol, e a sua influência crescente é disso prova. Com ou sem o brilho dos diamantes, ele permanece o desporto mais visto do mundo, com cerca de 3,5 mil milhões de adeptos a nível global. Tal como lembrava o site Elite Traveler, o Mundial 2026 “chega num momento em que a cultura do futebol nunca foi tão visível – nem tão comercializável. As redes sociais transformaram os jogadores em figuras globais de lifestyle. […] Até a FIFA está a refletir essa mudança na sua estratégia para o torneio, anunciando o TikTok como o seu primeiro parceiro, ou ‘plataforma preferencial’ para dar acesso aos bastidores e transmissões ao vivo para os ecrãs dos espectadores.”

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A Ferragamo aproveita a boleia do Mundial para lançar um novo capítulo na série “Legends, Reimagined Series”, com a ajuda de… José Mourinho, que apesar de não fazer parte do Mundial continua a ser o eterno Special One. “What does it take to be special?”, questiona a campanha Foto: Ferragamo

Vestir atletas - e seleções nacionais - tornou-se uma poderosa oportunidade de promoção para certas marcas: a Loewe vai estar com os jogadores da equipa espanhola durante pelo menos quatro anos; em França, a Jacquemus uniu-se à Nike para criar um equipamento especial para os “Bleus” (alcunha dada aos jogadores da seleção francesa); a Adidas tem coleções cápsula em vários países, nomeadamente na Argentina, onde colabora com o designer Willy Chavarria e com a Kith - aqui numa homenagem a Lionel Messi, que deverá jogar o seu último Mundial; a Levi’s lançou uma série de t-shirts alusivas aos países que fazem parte do torneio e a American Eagle aproveitou para lançar uma campanha com o espanhol-prodígio Lamine Yamal (que, recorde-se, foi fotografado com uma muito cobiçada carteira Chanel by Matthieu Blazy); a super cool Ami Paris escolheu o português João Neves para ser a sua nova cara… Já antes disso, o Liverpool tinha “fechado um acordo” com a Tommy Hilfiger, seguindo os passos da Dior, que assina a roupa de viagem do Paris Saint-Germain. É impossível enumerar todas estas “Bolas de Ouro” de estilo. Onde está o limite? Na nossa carteira. Há leilões de camisolas do Brasil ’94, réplicas quase perfeitas do jersey usado pela Alemanha em 88, ofertas astronómicas por exemplares do equipamento escolhido pela Argentina em 1986… Parece exagerado, mas não é. Um site venezuelano especializado em merchandising escrevia há semanas: “Há um momento que se repete a cada quatro anos em que o futebol deixa de ser apenas um desporto e se torna o centro cultural do planeta. Esse momento é o Mundial. E em 2026, algo diferente está a acontecer: a moda não está a seguir o futebol. A moda é o futebol.” É aqui que o blokecore atinge um novo patamar, o de loucura global. O futebol veste-se. O que distingue este - core de todos os outros é a intenção: “É escolher uma peça que revele de onde vens, que cultura representas e que história tens por trás.”

Foto: @socccerbible 1 de 2 / No México, a Adidas juntou-se à Someone Somewhere (uma empresa social dedicada a criar oportunidades de trabalho justas e sustentáveis para artesãos e trabalhadores têxteis) para criar uma coleção de edição limitada, costurada à mão e assinada pelo seu criador/a.
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Foto: Jacquemus 2 de 2 / A Jacquemus criou uma das camisolas pré-jogo mais cobiçadas do torneiro. Aproveitando a referência à alcunha da seleção nacional, “Les Bleus”, a camisola é totalmente azul, pontuada por riscas brancas.

Nada disto é indiferente ao lucro. Mas a magia de um jogo não se extingue no saldo final que poderá ou não proporcionar a terceiros - como noutras coisas, o importante é o processo. Mesmo que os bilhetes fiquem absurdamente caros e se os VIPs comecem a ocupar o lugar dos casuals (adeptos considerados mais perigosos), haverá sempre espaço para o sonho. O futebol é uma celebração coletiva. É de todos. Não é de ninguém. Tal como relembrava o The Athletic, “muito antes de as casas de moda de luxo aprenderem a vender camisolas com capuz por 900 dólares”, os verdadeiros apaixonados já sabiam que ali estava um filão - de dólares, e de sentimentos. As camisolas de futebol, “naquele poliéster brilhante e de corte quadrado, pertenciam a um universo completamente diferente. Eram tribais. Eram feitas para as bancadas, os bares e, por vezes, para serem penduradas nas paredes. Usavam-se para representar o clube, o país, o bairro. De preferência, enquanto se levava com cerveja derramada por cima, em comemoração (ou luto), num bar de bairro perto do estádio local. O futebol era demasiado sério para a moda. Demasiado suado. Demasiado da classe trabalhadora. Demasiado obcecado com o sentimento de pertença em vez da estética. Até que deixou de o ser.”

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Foto: Getty Images
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