Gota. A doença de Henrique VIII voltou para atormentar quem come demasiada proteína?
Entre batidos proteicos, treino de força e o objetivo de envelhecer com saúde, há uma pergunta que começa a surgir com frequência: pode uma alimentação rica em proteína aumentar o risco de gota? A Máxima falou com um especialista para perceber se a preocupação tem fundamento.
A proteína está na moda. E com razão. O seu consumo apoia a manutenção da massa muscular magra, estimula o metabolismo, melhorar a energia e a função física, e protege contra a osteoporose e a sarcopenia (perda muscular associada à idade). Se esta descrição não é música para os ouvidos de qualquer mulher com mais de 35 anos, devia ser. Afinal, todos estes problemas tendem a agravar-se com a diminuição dos níveis de estrogénio que ocorre durante a perimenopausa e na menopausa. Razão pela qual o treino de força em conjunto com uma alimentação com enfoque no consumo de proteínas é vulgarmente recomendado a mulheres nesta faixa etária. Mas nem tudo são rosas. Algumas começam a reportar níveis elevados de ácido úrico, o que pode promover o desenvolvimento de gota. Pode a doença do sedentarismo e dos excessos alimentares – historicamente conhecida como uma das patologias que atormentava Henrique VIII – vir assombrar mulheres modernas e preocupadas com a saúde e com a boa forma física?
A Máxima falou com António Hipólito de Aguiar, médico de clínica geral e especialista em medicina da longevidade, que confirmou que embora a gota seja mais comum nos homens, a partir da menopausa as mulheres ficam mais propensas a desenvolver esta doença. Além disso, apesar do termo “gota” suscitar uma imagem algo anacrónica, o médico garante que se tem tornado “mais frequente nas últimas décadas”.
O que é a gota, como se desenvolve e quais são os primeiros sintomas?
A gota é uma forma de artrite inflamatória causada pela acumulação de cristais de ácido úrico nas articulações. O ácido úrico é uma substância produzida naturalmente pelo organismo durante a degradação das purinas – compostos presentes nas nossas células e em alguns alimentos. Normalmente, é eliminado pelos rins, mas quando é produzido em excesso ou eliminado de forma insuficiente, os níveis no sangue aumentam e podem, então, formar-se cristais que desencadeiam uma inflamação muito intensa. O primeiro sinal costuma ser uma crise súbita de dor intensa, frequentemente durante a noite, com vermelhidão, calor, inchaço e grande sensibilidade numa articulação. A mais clássica é a do dedo grande do pé, mas também podem ser afetados o tornozelo, o joelho, o punho ou o cotovelo. Sem tratamento, as crises tendem a repetir-se e podem tornar-se mais frequentes.
Existe uma predisposição genética para desenvolver gota ou depende mais dos hábitos de vida e da alimentação?
A gota, como várias outras doenças, resulta da combinação de fatores genéticos e ambientais. A predisposição genética tem um papel importante, sobretudo na capacidade que os rins têm para eliminar o ácido úrico. Algumas pessoas nascem com uma maior tendência para acumular esta substância, independentemente da alimentação. No entanto, os hábitos de vida influenciam significativamente o risco de desenvolver gota. O excesso de peso, o consumo elevado de bebidas alcoólicas, especialmente cerveja, uma alimentação rica em carnes vermelhas e alimentos ultraprocessados, bem como doenças como hipertensão, diabetes ou doença renal crónica, podem favorecer o aumento do ácido úrico.
Quais são os alimentos que mais contribuem para o aumento do ácido úrico e quais os que, pelo contrário, têm um efeito protetor?
Os alimentos mais associados ao aumento do ácido úrico são as carnes vermelhas, as vísceras, alguns mariscos e peixes ricos em purinas – como sardinhas, anchovas e cavalas. O álcool, sobretudo a cerveja, aumenta significativamente o risco de crises, tal como as bebidas açucaradas e os refrigerantes adoçados com frutose. Em contrapartida, uma alimentação baseada em vegetais, frutas, cereais integrais e leguminosas parece ter um efeito protetor. Os produtos lácteos magros também estão associados a um menor risco de gota, assim como o café, em algumas pessoas e quando consumido com moderação. A hidratação adequada é igualmente muito importante, porque facilita a eliminação do ácido úrico pelos rins.
A gota é uma doença crónica? Qual o tratamento?
A gota é considerada uma doença crónica, porque a tendência para acumular ácido úrico, geralmente, mantém-se ao longo da vida. No entanto, isso não significa que uma pessoa esteja condenada a sofrer crises repetidas. Com diagnóstico precoce, tratamento adequado e alterações no estilo de vida, é possível controlar a doença e prevenir novas crises durante muitos anos ou mesmo indefinidamente. Durante uma crise aguda utilizam-se medicamentos anti-inflamatórios, nomeadamente a colchicina ou corticoides para aliviar rapidamente a dor e a inflamação. Nos doentes com crises recorrentes, níveis persistentemente elevados de ácido úrico ou complicações, recorre-se a medicamentos que reduzem o ácido úrico, como o alopurinol ou o febuxostato, associados a medidas como perda de peso quando necessária, alimentação equilibrada, redução do álcool e boa hidratação.
A doença é tradicionalmente associada aos homens. Qual é a realidade nas mulheres? O risco aumenta na menopausa?
A gota continua a ser, efetivamente, mais frequente nos homens, sobretudo entre a meia idade e a idade mais avançada. Nas mulheres, o risco é relativamente baixo antes da menopausa, no entanto, com a chegada dessa fase e a decorrente diminuição de hormonas femininas (estrogénios, essencialmente), aumenta progressivamente, aproximando-se do observado nos homens mais velhos. Além disso, o envelhecimento, o excesso de peso, a hipertensão, a doença renal e alguns medicamentos, como determinados diuréticos, também contribuem para aumentar o risco nas mulheres.
Vivemos num tempo em que há uma enorme preocupação em consumir mais proteína – seja através da alimentação ou de batidos e suplementos – para preservar a massa muscular. Esta tendência pode aumentar o risco de desenvolver gota?
Existem diferenças importantes entre as várias fontes de proteína. A carne vermelha e as vísceras (fígado, rins, coração, moelas) são as que apresentam maior associação ao aumento do risco de gota. Alguns peixes e mariscos também são ricos em purinas, embora o peixe, de forma geral, continue a fazer parte de uma alimentação saudável pelos seus benefícios cardiovasculares. O marisco, sim, deve ser consumido com moderação, quando existem níveis elevados de ácido úrico. As proteínas vegetais, incluindo leguminosas, soja, tofu e frutos oleaginosos, não parecem aumentar o risco de gota da mesma forma e podem fazer parte de uma alimentação equilibrada. Quanto aos suplementos proteicos, como a proteína de soro de leite, não existem provas consistentes de que aumentem o risco quando consumidos de forma adequada. O problema surge quando o aumento do consumo proteico é acompanhado por excesso de carne, pouca hidratação, excesso de álcool ou outras alterações do estilo de vida que favorecem a acumulação de ácido úrico.
Tem a perceção de que a gota se está a tornar mais frequente?
Sim. A gota tornou-se mais frequente nas últimas décadas em muitos países. Algo que parece estar relacionado com o envelhecimento da população, o aumento da obesidade, da diabetes, bem como num maior consumo de alimentos ultraprocessados, bebidas açucaradas e álcool. Além disso, atualmente há maior reconhecimento da doença e mais pessoas são diagnosticadas do que no passado. Ainda assim, apesar de existir um tratamento muito eficaz, a gota continua frequentemente subdiagnosticada e subtratada.
Que conselhos deixaria a uma mulher que quer aumentar ou manter a massa muscular, mas que também quer reduzir o risco de desenvolver gota?
É perfeitamente possível aumentar ou preservar a massa muscular sem aumentar o risco de gota. A estratégia passa por privilegiar uma alimentação equilibrada, com proteína suficiente, mas proveniente de fontes diversificadas, incluindo peixe, aves, ovos, lacticínios magros e proteínas vegetais. A prática regular de exercício de força continua a ser uma das medidas mais eficazes para manter a massa muscular, devendo ser acompanhada por hidratação adequada e um peso saudável. Também é importante limitar o consumo excessivo de carne vermelha, bebidas alcoólicas e refrigerantes açucarados. Nas mulheres, sobretudo após a menopausa ou na presença de antecedentes familiares de gota, hipertensão, obesidade ou doença renal, pode ser útil vigiar os níveis de ácido úrico em contexto clínico. O equilíbrio está em não associar uma alimentação rica em proteína a excessos alimentares, mas sim integrá-la num padrão alimentar saudável, semelhante ao da dieta mediterrânica, que oferece benefícios tanto para a saúde muscular como para a saúde cardiovascular e metabólica.
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