"Respeitando-te enquanto minha convidada, não posso apresentar um programa de televisão onde se normalize que alguém com 120 kg está bem. E tu tens essa noção?" Esta foi a frase que trouxe um novo debate o país. No dia 22 de julho, os apresentadores Cláudio Ramos e Cristina Ferreira receberam no programa Dois às 10 Ana Rita Barros, criadora de conteúdos de 23 anos conhecida no TikTok pela rubrica Conversas com a Gorda, onde promove a auto-aceitação e a positividade corporal entre as mulheres. Ana Rita explicou que sabe quem é e quanto pesa, mas que não tem como objetivo incentivar ao aumento de peso: "a única coisa que eu falo é que as pessoas se devem amar mesmo ainda estando no processo [de emagrecer]".
"Só tenho coisas para dizer à Ana que ela não vai gostar de ouvir", começou por referir o apresentador. Durante a entrevista, questionou ainda se Ana Rita não seria mais feliz se fosse mais magra. "Sinto que fui um bocadinho atacada. Fui convidada para estar lá e senti-me mesmo atacada, principalmente pelo Cláudio Ramos, numa de quase preconceito", lamentou a influencer num vídeo partilhado após o programa. A verdade é que Cláudio Ramos espelha um preconceito que se instalou há muito na nossa sociedade e que, numa era marcada pelo Ozempic, parece estar ainda mais acentuado. Mas de onde surge este preconceito? E de onde vem a ideia de que a felicidade está associada ao peso?
A ideia de que a felicidade está associada ao peso tem raízes num fenómeno amplamente estudado pela psicologia: o estigma do peso. Para a psicóloga Marta Sécio, com quem a Máxima falou, trata-se de "um preconceito cultural que associa a magreza a virtudes como o sucesso e o autocontrolo, enquanto o excesso de peso é frequentemente visto como um defeito moral, resultado de escolhas pessoais, preguiça ou falta de força de vontade". A especialista sublinha ainda que "o sofrimento emocional associado a um corpo maior não decorre do peso em si, mas da rejeição, das piadas e da discriminação que a pessoa enfrenta no dia a dia".
Já lá vai o tempo em que o movimento de body positivity reinava nas redes socias (e na vida real) e parece que estamos a assistir a uma mudança dos padrões de beleza. A skinny culture está a regressar e podemos vê-lo em todo o lado: em campanhas, na passerelle, nas redes sociais (com a famosa trend "a felicidade é magra" e todos os vídeos com dicas para emagrecer até ao verão), em red carpets, em palcos. Mas existem perigos inerentes a esta tendência que tende a voltar e ditar quando uma mulher é, ou não, desejável.
"'A felicidade é magra' é um mito perigoso e infundado. A ciência prova que a felicidade é multi-dimensional e não estética. O bem estar humano depende de vários factores ; propósito de vida, estabilidade emocional, relações saudáveis e nada indica uma relação (de causa - efeito) em ser magro e por isso ser feliz", explica Marta Sécio e lembra que a discriminação e o preconceito que causam a infelicidade. "Estes comentários são geradores de enorme stress crónico, e demonstram um impacto muito grande na saúde mental, ansiedade, depressão e baixa de auto estima".
O apresentador referiu ainda que Ana, por ter exposição nas redes sociais, devia ter uma responsabilidade acrescida: “Tu acabas por ser uma referência, tens uma responsabilidade. Não acabam também por ver assim: 'Ah, eu vou ser como ela, eu fico confortável aqui porque ela é, eu também posso ser'?”. A criadora de conteúdos concorda com a necessidade de vigilância médica regular mas acredita que não se pode tornar refém do seu próprio peso. "A obesidade é uma doença, e não há como negar isso", admitiu , "Eu nunca disse, em momento algum, nas minhas redes sociais - nem é isso que passo - que nunca irei mudar ou nunca irei querer perder peso. Só que acho que tenho muito mais voz nessa parte, porque sempre foi a que mais me tocou: a ideia de que, olha, agora tens de parar mesmo de viver, e só podes viver quando estás magra”, conclui.
A obesidade é efetivamente uma doença que deve ser tratada por profissionais quando assim o exige. O desafio humano é o equilíbrio entre a ajuda, a aceitação pessoal e o combate ao preconceito em prol da saúde mental: "Esse equilíbrio é verdadeiramente difícil de encontrar, a obesidade é uma doença crónica e continua a ser importante proteger a saúde mental dos indivíduos. Temos que oferecer tratamento científico e humano e proteger, ao máximo, a mente do paciente enquanto os tratamos com dignidade", explica a psicóloga.
Num momento em que medicamentos como o Ozempic voltaram a colocar o peso no centro da conversa pública, especialistas alertam para a importância de distinguir saúde de aparência e de combater o estigma que continua a marcar quem vive num corpo maior. "Não existe uma forma fácil nem uma fórmula única. Sabemos, no entanto, que é fundamental adotarmos abordagens seguras e estratégias assentes na empatia e na ciência. Será seguramente importante falar sobre o tema sem denegrir a imagem corporal, talvez mudando o foco da imagem estética para a saúde e o bem-estar. Separar a doença da identidade da pessoa, formar equipas de saúde empáticas, com intervenção médica e apoio psicológico", defende Marta Sécio.
No fundo, mais do que o número que aparece na balança, é a forma como a sociedade continua a olhar para o corpo dos outros que pesa verdadeiramente na saúde e no bem-estar de muitas pessoas.