Histórias de Amor Moderno: "Quando déssemos conta, estaríamos a meio de um beijo intenso, profundo e longo"
“Os nossos rostos iriam aproximar-se, eu sentiria o seu cheiro bom, ouviria os sons pequeninos que as pessoas fazem quando ficam demasiado perto umas das outras.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.
É um espetáculo quase obsceno, quase enternecedor: homens adultos de volta do fogo, de camisa aberta e óculos escuros sobre a testa. Disputam entre si o título de mestre dos grelhados, de rei das brasas, de sábio do lume e do carvão. São másculos, são tontos. São brutos, são rudes. Ao mesmo tempo, são fofos. São infantis naquela urgência de ser macho. Mostram os dotes, exibem os contornos, quando os têm, debitam receitas, conselhos, técnicas e teorias sobre o acendimento, o aquecimento, a ignição, o incêndio e a queimadura.
“Boys will be boys”, já sabemos, o que quer que isso queira dizer - e sabemos que muitas vezes não passa de uma desculpa pobre e barata para serem puros mentecaptos, quando não pior ainda. Contudo, não é o caso. Aqui, em torno do churrasco, comportam-se como primitivos modernos, crianças crescidas, touros cheios de testosterona e ambições pueris. No caso, levar o carvão ao rubro para assar comida na grelha.
O meu verão não costuma compor-se disto, deste tipo de rituais. Mudei-me para Londres aos 21 anos, já lá vão quase 15. As minhas visitas a Portugal costumam concentrar-se muito mais no inverno, para as festividades natalícias, às vezes guardo uns dias para a família na Páscoa. Mas o verão costuma ser reservado para as viagens pelo mundo, pelos destinos exóticos e distantes, pelas culturas surpreendentes, pelas cidades com paisagens, letreiros, alfabetos e aromas distintos daqueles a que nos habituámos. Só que, este ano, uma grande amiga minha fez-me um convite: vem a Portugal, passa cá as férias de verão.
A Catarina e o marido compraram recentemente uma casa na Costa Vicentina, num sítio lindíssimo. A casa não é uma mansão, mas é ainda assim grande o suficiente para albergar algumas pessoas. “Comemos petiscos de mar bem fresquinhos, fazemos churrascos junto à piscina, podemos passar as manhãs na praia e os fins de tarde em sunsets privados, só com amigos.” O convite, com um plano tão simples, pareceu-me desinteressante, à primeira. Mas depois pensei: porque não? Quando passamos muito tempo distantes de casa, a própria casa não se tornará exótica? Liguei-lhe, “Catarina, dá-me datas para as tuas férias e conta comigo.” Ficou felicíssima. “Que bom, ainda bem que vens. Vamos ter cá outros amigos”, disse ela, e depois acrescentou: “Alguns, são solteiros”.
O Vítor, um homem nos seus mid-30s e uma barriguinha elegante, é quem costuma coordenar as operações junto ao grelhador, embora não seja ele quem melhor domina o fogo. Penso nestas frases e apercebo-me do quão primitivos podemos e conseguimos ser quando reduzimos o quotidiano às coisas mais simples e primordiais, tais como fazer fogo para confecionar comida. Ou, de maneiras pouco sofisticadas, ensaiar rituais de acasalamento.
É o caso do Vítor. Não sendo um homem exuberante, sempre que me aproximo do grupo masculino para observar as lutas de poder em torno do lume, o Vítor muda a postura. Torna-se mais interventivo. Imagino que na cabeça dele isso signifique ser alfa. E acredito que ele ache que eu valorizo esse perfil de macho, em detrimento do beta e do sigma e do ómega, sei lá eu quantos tipos de macho existem segundo o alfabeto grego.
O Vítor é um homem interessante. Diria que me sinto moderadamente atraída por ele. Acho que, se ele fosse um bocadinho mais atrevido - ou mais descarado, mais corajoso na hora de ir direto ao assunto, na abordagem -, já nos tínhamos envolvido durante estas férias. Porém, o Vítor tem aquele toque de gentleman: ao mesmo tempo que faz por sobressair entre o grupo, quando temos oportunidade de ficar a sós e de conversar um pouco, diverge, tergiversa, perde-se em deambulações. Sem se dar conta, torna-se desinteressante. E eu desligo-me e sigo com a minha vida.
Outro dos rapazes que se juntam em redor do fogo é o Jacinto. Não tem os modos nem a elegância do Vítor. É fit, sem dúvida, tem um corpo bem cuidado, mas falta-lhe claramente o toque distintivo que o podia tornar apetecível ou, no mínimo, especial. Também ele tenta exercitar o alfismo junto dos outros machos, mas congénita a falta de brilhantismo acaba por remetê-lo naturalmente a um lugar secundário, não raras vezes de subserviência.
Olhamos para ele e, por mais que tente impor-se, não demora até que esteja a rir-se das piadas dos outros, que desate a concordar com outro em sinal de reverência e de admiração, ou que, por fim, obedeça aos outros sem hesitação. É como se não tivesse capacidade para se afirmar.
E, contudo, é bem mais arisco do que o Vítor na hora de fazer avanços. O que lhe falta em subtileza, sobra-lhe em força de vontade. Se tem instinto, intuição, sensibilidade? Dificilmente. Agora, convicção não lhe falta. O Jacinto abordou-me, logo no primeiro dia, de uma maneira tão desastrada - “Tu é que és a Mónica? Uau, já tinha ouvido falar de ti, mas não tão bem assim” - quanto engraçada. Fez-me rir com gosto. Achei que havia ali potencial. Infelizmente, depois vim a conhecê-lo melhor.
Quer dizer, isto não é totalmente verdade. Na primeira noite na casa da Costa Vicentina, o ambiente foi de festa. Houve oportunidade para conhecer novas pessoas, para tentar perceber quem é quem, medir e avaliar. Entre os solteiros, o Vítor foi o primeiro a despertar-me interesse, depois o Jacinto fez a sua abordagem desastrada, mas que podia ter dado frutos, não fosse ter acontecido duas coisas: termo-nos conhecido um bocadinho melhor e, ao mesmo tempo, ter surgido uma outra personagem nesta história: o Simão.
O Simão é o típico homem de quem não me quero aproximar - porque sei que é o tipo de homem com a criptonite certa para tirar a força e a resistência. Um tipo tão normal que se torna exótico.
Ainda agora, enquanto todos os outros tentam sobrepor-se e superar-se à volta do churrasco, mostrar os dotes e as habilidades, o Simão vai comendo acepipes, com um copo de vinho branco na mão, sem poses nem pretensões. Nada nele é particularmente interessante nem especial, e é precisamente esse conjunto coerente e harmonioso que lhe dão o brilho despreocupado, tornando-o, de longe, no homem mais charmoso neste terraço. O toque extra é a expressão no olhar e no sorriso, subtilmente malandro - malandro, mas não marialva -, com uma expressão que dá a impressão de que é capaz dos pensamentos mais perversos, porém compensa essa capacidade com uma bonomia genuina que o faz distinguir o bem do mal.
Não sei se o Simão distingue realmente o bem do mal. Sei que, na primeira noite, fomos ficando para o fim. Os casais foram-se recolhendo a pouco e pouco. Os soletiros foram sucumbindo ao cansaço e à bebedeira. Eu e o Simão fomos dando bitaites sobre a playlist e, quando demos por nós, estávamos a acrescentar músicas, que íamos debatendo a cada nova entrada.
O Simão fez-me sentir bem. E fez-me sentir medo. Eu já me conheço e sei bem como reajo a homens com charme e confiança, mas confiança verdadeira, não insuflada - e esse é um tipo de espécimes bem mais raro do que se possa pensar.
No momento em que íamos ficar sozinhos, senti um frémito percorrer-me de cima abaixo, antecipando o que aí vinha. Ficaríamos sós, provavelmente o Simão posaria a sua mão sobre a minha, de modo completamente acidental, claro. Depois, os nossos rostos iriam aproximar-se, eu sentiria o seu cheiro bom, ouviria os sons pequeninos que as pessoas fazem quando ficam demasiado perto umas das outras, o meu coração bateria mais depressa, o tempo abrandaria até ao limite impossível, imediatamente antes de parar. Quando déssemos conta, estaríamos a meio de um beijo intenso, profundo e longo.
Só que não. O Simão, com a sua maneira blasé e os seus bons modos descontraídos, ao ver os últimos resistentes retirarem-se, disse-me muito tranquilamente, “bom, parece que está na hora de ir dormir”. Apanhada de surpresa, reagi com um meio sorriso surpreendido. Ele aproximou-se, pousou a sua mão sobre a minha, aproximou o rosto, abrandou o tempo e acelerou-me o batimento cardíaco, tudo tal como previsto, para me dizer ao ouvido: “A minha mulher chega amanhã cedo, não posso acordar com um ar cansado.” Deu-me um beijo na testa e lá foi ele, com o seu copo relaxado de quem anda assim pela vida, como se pairasse sobre ela. Há muitas maneiras de brincar com o fogo.
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