Zahra Omarji: "Quando eu usava essas coisas era vista como “suja”; agora o cabelo sleek com óleo é 'clean girl'"

Há formas de beleza que não começam no espelho, mas na memória. Nos gestos repetidos ao longo de gerações, nos rituais que nos são ensinados antes de sabermos o seu significado, nas mãos que nos cuidam quando ainda não aprendemos a cuidar de nós. A estética torna-se, assim, um lugar de continuidade, onde a cultura, a identidade e a história pessoal não só se encontram, permanecem.

Foto: Cristiana Morais / MÁXIMA
27 de julho de 2026 às 11:35 Patrícia Domingues

Decidi cortar o cabelo quando ele estava muito comprido e as pessoas diziam que parecia “indiana demais”. Cortei-o e doei-o para fazer uma peruca para uma associação de cancro no Reino Unido. Não foi nada dramático: o cabelo cresce e a vida é mesmo isso – explorar coisas diferentes até descobrir o que nos faz sentir bem. O cabelo é quase sagrado na medicina aiurvédica, mas eu não o vejo dessa forma. Sou bastante experimental e, quem sabe, hoje quero o cabelo supercomprido e amanhã não. Vai depender de como acordo. 

Ao crescer, a minha relação com a beleza não foi das melhores. O padrão de beleza indiano é extremamente diferente: pele clara e feições eurocêntricas é o que é considerado o ideal. Sendo uma criança mais morena, cheguei a sofrer complexos. Ouvia que era escura demais ou que tinha de fugir do sol, e isso obviamente não ajudava. No 10.º ano, quando vim para Portugal, apercebi-me de que era a única indiana numa escola inteira. Tentei muitas vezes mudar o meu cabelo e estilo para encaixar. Foi um longo caminho para desaprender o que me foi ensinado. 

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Foto: Cristiana Morais / MÁXIMA

Já percebi que vivemos numa sociedade que nunca está satisfeita com nada: se ando destapada, sou vulgar; se ando coberta, sou oprimida; se emagreci, pareço doente; se engordei, tenho de ter cuidado com o que como. O mais importante é cada mulher fazer aquilo que a faz sentir-se bem – e isso começa por dentro. A estética é secundária. O meu estilo e a minha imagem vão mudando conforme o meu estado de espírito, por isso não me agarro demasiado a isso e preocupo-me primeiro com o meu bem-estar interior. 

A beleza da minha cultura está na diversidade, na hospitalidade e na resiliência. Vimos de uma cultura milenar. Tudo, desde a saúde à beleza, comida, arquitetura, moda, música e literatura, tem muito para oferecer. As práticas de bem-estar aiurvédicas quase vivem comigo e com muitos de nós sem sequer nos apercebermos. As músicas com que crescemos nos anos 1990/2000 foram muitas vezes samples de clássicos indianos. Os temperos que usamos já foram mais valiosos do que o ouro, e a alta-costura na Europa não seria o que é sem artesãos que nunca receberam o devido reconhecimento. 

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Há muitos estereótipos negativos sobre imigrantes do sul da Ásia, e eu só quero que as pessoas percebam como os restaurantes, os minimercados, as lojas e tudo isso só acrescentam à cultura portuguesa. Não a apagam. A diversidade não é o inimigo e temos mais a ganhar com amor do que com ódio. Sinto-me feliz quando as pessoas mencionam corretamente as origens culturais, e desapontada e injustiçada quando há whitewashing e rebranding da minha cultura. As pessoas adoram experimentar coisas novas, e valorizo a globalização que é resultado disso, mas detesto quando a origem é apagada, porque quando eu usava essas mesmas coisas era vista como “suja”, e agora o cabelo sleek com óleo é clean girl. Percebem o problema e os double standards

Adoro um lip liner dos anos 1990 e um eyeliner; os olhos são sempre mais marcados e, quando me apetece, uso um bindi para completar o look. Usar elementos culturais é algo político, uma forma de resistência num contexto atual mais anti-imigração. Apesar de ser estético, a moda e a forma como nos expressamos são políticas. Ao usar elementos da minha cultura, também mostro a outras pessoas – especialmente às mulheres mais novas – que não precisamos de apagar o que nos torna diferentes para sermos aceites. 

Foto: Cristiana Morais / MÁXIMA

Fotografia: Cristiana Morais 

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Realização: Cláudia Barros

Maquilhagem: Balu 

Localização: Bijucaca, no Martim Moniz

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