'Sou brasileira e estou ofendida'. A Havaianas subiu ao salto - ou foi o salto que lhes subiu à cabeça?
Do Brasil para Copenhaga, o novo salto reacende a obsessão da moda pelos chinelos e o debate sobre quem pode reinventar um ícone cultural.
Em fevereiro de 2011, então no auge da sua passagem pela Dior, John Galliano foi detido após suspeitas de insultos antissemitas dirigidos a um casal no La Perle, um café no Marais - um bairro historicamente judaico de Paris. Pouco depois, uma outra mulher afirmou ter sido vítima de uma agressão semelhante, no mesmo sítio, meses antes. Em menos de nada, surgiu um vídeo, filmado no local e publicado pelo jornal inglês The Sun, onde se via Galliano, visivelmente embriagado, a dizer a outro cliente: "Adoro o Hitler" e "Pessoas como tu estariam mortas. As vossas mães, os vossos antepassados, estariam todos a ser gaseados, porra!" O constrangimento foi geral. A casa francesa - que a princípio apenas suspendeu Galliano -, acabou por não ter outra opção senão despedi-lo, classificando a sua conduta de “particularmente odiosa". Em setembro de 2011, foi julgado por “insultos públicos com base na origem, filiação religiosa, raça ou etnia”; foi condenado e recebeu uma multa de seis mil euros, sem pena de prisão. Em sua defesa, alegou que não se recordava dos acontecimentos devido a uma “tripla dependência” de álcool, barbitúricos e comprimidos para dormir. O seu longo e calculado processo de reabilitação, suportado por nomes de peso como Anna Wintour, diretora-global da Vogue, contou com a ajuda da ADL (Liga Antidifamação), que recrutou o rabino Barry Marcus, da Sinagoga Central de Londres, para o supervisionar.
Antes disso, o criador britânico já tinha apresentado o seu mea culpa: "O antissemitismo e o racismo não têm lugar na nossa sociedade. Peço desculpa, sem reservas, pelo meu comportamento, caso tenha causado alguma ofensa". O regresso à ribalta fez-se em outubro de 2014, quando Galliano foi nomeado diretor criativo da Maison Margiela, cargo que ocupou durante a década seguinte, repetindo o sucesso de outros tempos. O público e a crítica pareciam ter feito as pazes com o enfant terrible da moda: o documentário High & Low: John Galliano, realizado por Kevin Macdonald, estreou em março de 2024, e recebeu um coro de aplausos - até de Sidney Toledano, o ex-CEO da Dior (judeu) que despediu Galliano. Em março passado, o designer anunciou uma parceria de dois anos com a Zara, descrita pela marca como um processo de “reinterpretação do seu arquivo”, reformulando peças do passado em vez de criar a partir do zero. A retrospetiva do Costume Institute, comentava-se nos bastidores, era uma questão de oportunidade. Só que, aparentemente, nem toda a gente perdoou os deslizes daquele que muitos consideram um génio.
É uma questão antiga, que terá passado despercebida durante séculos, e que a globalização e as redes sociais vieram acordar: como reagir perante a obra de um criador “maldito”? O que fazer quando alguém é moralmente condenável, mas estética e intelectualmente fabuloso? Como é que os pecados de um cantor/escritor, etc, afetam o seu trabalho? É possível apreciar uma criação sublime e esquecer o homem/mulher que está por detrás dessa mesma criação? A resposta mais fácil é também a mais ambígua: o artista é uma coisa, a obra é outra. Basta pensar em Pablo Picasso para perceber que é impossível ser tão literal quando a discussão envolve dilemas éticos. O espanhol, provavelmente um dos maiores pintores de sempre, é conhecido tanto pelo seu brilhantismo como pela sua biografia negra, de onde sobressai a observação que partilhou com Françoise Gilot, a única companheira que o abandonou: as mulheres são “máquinas de sofrer”. Com uma vida pessoal cheia de controvérsias - e uma importância incontornável para a história da arte -, é viável separar o artista da obra? A dissociação é complexa. Das mulheres com quem se relacionou, duas enlouqueceram e duas suicidaram-se; a sua masculinidade tóxica tem sido amplamente documentada - até por familiares. “Ele submetia-as à sua sexualidade animal, domesticava-as, enfeitiçava-as, ingeria-as e esmagava-as na sua tela. Depois de passar muitas noites a extrair a sua essência, quando finalmente elas sangrassem até secar, ele descartava-as”, escreveu a neta Marina Picasso em Meu Avô, Pablo Picasso (2001). Devemos esquecer Guernica (1937), ele próprio um manifesto universal contra a violência e o militarismo, só porque Picasso era… um pulha? Cada cabeça, sua sentença.
Qualquer que seja a decisão, ela terá de ter em conta que existe todo um filão de “monstros”, isto é, de artistas moralmente condenáveis, que nos habituámos a adorar - e cujo repertório faz parte da nossa própria experiência enquanto seres humanos sedentos de conhecimento e cultura. Renegar Pablo Picasso significa, de certa forma, renegar Ernest Hemingway, o prodigioso romancista americano vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1954 cuja personalidade complexa e viril, misturada com um espírito aventureiro e um alcoolismo descontrolado, destruiu a sua imagem. Em novembro de 1952, na altura do seu 21.º aniversário, Gregory, o mais novo dos três filhos de Hemingway, escreveu ao pai: “Quando se somar tudo, pai, ficará assim: ele escreveu algumas boas histórias, teve uma abordagem nova e original à realidade e destruiu cinco pessoas — Hadley, Pauline, Marty [Martha Gelhorn, a terceira esposa de Hemingway], Patrick e, possivelmente, eu próprio. O que achas que é mais importante, as tuas tretas egocêntricas, as histórias ou as pessoas?” Para o autor de Adeus às Armas (1929), a resposta seria óbvia. Estes dois exemplos - à semelhança de Norman Mailer, pioneiro do chamado Novo Jornalismo, duas vezes Prémio Pulitzer e responsável por títulos como O Combate(1975), que num acesso de raiva chegou a tentar matar uma das suas esposas - são cruciais quando esperamos que os valores morais de uma pessoa (bons ou maus) a validem (ou cancelem) em termos artísticos. Porque é que esperamos que os artistas, os génios, sejam melhor que nós? É suposto nascerem livres de defeitos - ou devemos, dado o seu virtuosismo, dar-lhes “carta branca” para as suas transgressões?
“Sabemos agora que um homem pode ler Goethe ou Rilke à noite, que pode tocar Bach e Schubert e, de manhã, ir trabalhar para Auschwitz.” A frase pertence ao crítico Gorge Steiner e surge no prefácio da sua coleção de ensaios Language and Silence: Essays 1958-1966, uma obra que reflete sobre a forma como os traumas modernos - nomeadamente o Holocausto - afetam a linguagem; face aos factos, as palavras falham, tornando o silêncio uma alternativa possível ao terror. É uma observação poderosa, que de certa forma deita por terra o debate sobre a suposta necessidade de riscar a obra dos homens (e mulheres) cujo caráter não se coaduna com a nossa deontologia. Richard Wagner e Edgar Degas, reconhecidos antissemitas, são responsáveis por algumas das obras mais memoráveis das suas disciplinas - um enquanto compositor, o outro como pintor. Da mesma forma, Vladimir Nabokov, cuja vida pessoal foi aparentemente imaculada (com as devidas aspas, nenhuma vida é realmente imaculada, nem a de um cidadão comum), escreveu Lolita (1955), um romance marcante sobre um tema supostamente “mau” - de forma breve, a obsessão e o abuso sexual de um homem adulto (Humbert Humbert) sobre uma menina de 12 anos (Dolores Haze). Isso significa que as pessoas “boas” também podem fazer coisas más (de qualidade)? E que as pessoas “boas” podem fazer coisas que, no limite, não têm reconhecimento devido — ou que não são do agrado geral (coisas “más”)?
De volta a John Galliano. O anúncio do Metropolitan Museum of Art reacendeu velhos fantasmas. Ao revelar que o inglês seria o tema da próxima exposição do Costume Institute, com inauguração marcada para nove de maio, a instituição trouxe ao de cima as vozes dissonantes da indústria, que se debatem entre o apoio e a condenação a este importante, e raro, reconhecimento. A retrospectiva intitulada John Galliano: Horizons, promete consagrá-lo, definitivamente, entre os maiores criadores de todos os tempos. Para se ter uma ideia do feito, basta lembrar que apenas dois outros designers, enquanto vivos, foram dignos de tal homenagem: Yves Saint Laurent (1983), e Rei Kawakubo, da Comme des Garçons (2017). Dana Thomas, autora do seminal Gods and Kings: The Rise and Fall of Alexander McQueen and John Galliano (2015), escrevia esta semana no The New York Times que “a nossa cultura oferece inúmeros exemplos de artistas que se comportam de forma vergonhosa e que, mesmo assim, são venerados, e a alta-costura - que, em certa medida, constitui uma celebração explícita da desigualdade de riqueza - nunca foi o local onde se deviam procurar lições de virtude”. Mesmo assim, ela considera a “reabilitação de Galliano” uma “uma reviravolta notável”, em parte devido ao longo cadastro do criador: “Desde os seus primeiros tempos como designer em dificuldades em Londres e Paris até ao período em que esteve no auge da indústria da moda, o Sr. Galliano era conhecido por ser verbalmente abusivo para com funcionários, amigos e desconhecidos”. Anna Wintour, por seu lado, afirmou que “não há ninguém mais merecedor de uma exposição desta envergadura do que John Galliano”. “A sua carreira não se define por um único momento - algo com que ele terá de conviver para o resto da vida.” Mas Wintour deixou uma garantia: “a exposição não irá ignorar nenhum dos seus lados mais sombrios”. Em todo o caso, a polémica está instalada - e promete durar. O Wall Street Journal destacava um dos sinais que provam este desconforto: “Ao anunciar o seu envolvimento, o Met não revelou os nomes dos patrocinadores do evento. […] Os anúncios das galas dos anos anteriores mencionavam os patrocinadores; um representante do Met afirmou que os patrocinadores para 2027 seriam revelados numa data posterior”. Quem serão as marcas disponíveis para se associar a um evento que gera semelhante controvérsia?
Se até há poucos dias o caso de Galliano parecia resolvido, pelo menos em termos jurídicos, outros há que permanecem incógnitas - e não existe forma de se resolverem, pelo menos não como gostaríamos, com uma régua e esquadro. Em Monsters: What Do We Do with Great Art by Bad People? (2023), Claire Dederer explora precisamente esta questão: o que fazer com a obra extraordinária de pessoas más? Ao longo de vários capítulos, relembra a necessidade de escrutinar e justificar alegados atos de figuras como Roman Polanski, Woody Allen, Michael Jackson ou Miles Davis - atos que o público desaprova, criando uma relação de amor-ódio à qual é impossível escapar. A conclusão a que chega não é animadora, mas é pragmática. No fundo, e por mais que isso magoe o nosso ego humanista, é muito provável que não exista uma solução certa, como escreve Dederer. "Por outras palavras: não existe uma resposta correta. Tu não és responsável por encontrá-la. O teu sentimento de responsabilidade é um chavão, um reforço do teu papel tragicamente limitado como consumidor. Não existe autoridade e não deveria existir autor-idade. Estás livre dessa responsabilidade. És inconsistente. Não precisas de ter uma grande teoria unificada sobre o que fazer em relação ao Michael Jackson. És um hipócrita, repetidamente. Adoras o Annie Hall, mas mal consegues olhar para um quadro de Picasso. Não és responsável por resolver esta contradição irreconciliável. Na verdade, não resolverás nada através do teu consumo; a ideia de que o podes fazer é um beco sem saída. A forma como consomes arte não faz de ti uma pessoa má, nem boa. Terás de encontrar outra forma de o conseguir.” Ainda tem dúvidas? É normal. Pesquise um pouco sobre os “ataques de loucura” que conduziram Oscar Wilde à “sua ruína e à sua decadência mental.” Assim notava um artigo da revista The Atlantic publicado em 2023: “Para a maioria dos seus contemporâneos, Wilde acabou por ser um monstro. Para nós, é um ícone. Mas se fosse avaliado segundo os padrões atuais de comportamento sexual adequado, homossexual ou heterossexual, voltaria a ser um monstro”. De volta à estaca zero, portanto.