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Moda / Tendências

John Galliano x Zara: o que acontece ao valor do luxo quando deixa de ser inacessível?

Num momento em que as fronteiras entre luxo e mass market se tornam cada vez mais porosas, esta colaboração não surge apenas como mais uma parceria estratégica, mas como um ponto de inflexão cultural.

John Galliano
John Galliano Foto: Szilveszter Makó
20 de março de 2026 às 13:57 Safiya Ayoob

Galliano sempre foi mais do que um designer. Foi - e continua a ser - um contador de histórias obsessivo, um arquiteto de emoções, alguém que transforma tecido em drama. Da opulência barroca dos seus anos na Dior à desconstrução poética na Maison Margiela, o seu percurso nunca foi linear, mas sempre intensamente autoral. Por isso, a entrada no universo da marca espanhola levanta uma questão inevitável: o que acontece quando um dos criadores mais teatrais da moda dialoga com uma máquina global de consumo rápido?

A resposta não é simplista - e é precisamente aí que reside o interesse. Não é apenas sobre roupa. É sobre narrativa, acessibilidade e a redefinição do desejo na era contemporânea.  

Esta colaboração, que se estenderá ao longo de dois anos - com início já em setembro -, não se limita a uma simples coleção-cápsula, mas propõe um exercício mais profundo de reinterpretação. Galliano estará focado no vasto arquivo da Zara, trabalhando a partir de peças já existentes e excedentes de produção, num processo que cruza memória, reciclagem e reinvenção. Mais do que criar de raiz, trata-se de revisitar, desconstruir e reconfigurar - um território que lhe é particularmente familiar. Neste contexto, a sua linguagem não é domesticada, mas antes reativada: silhuetas enviesadas, cortes assimétricos e uma certa nostalgia decadente emergem como ecos do seu ADN criativo, agora filtrados através de uma lógica de escala, acessibilidade e imediatismo que define a Zara.

Mas há também uma leitura mais crítica deste encontro. Para a jornalista de moda e lifestyle Patrícia Barnabé, a colaboração "é curiosa e inesperada, mais por parte do designer, que sempre foi elitista", inserindo-se numa dinâmica mais ampla onde "o mais popular e vulgar tenta entrar no território do sofisticado e raro". Esta aproximação, sublinha, não é isolada, mas antes sintoma de uma transformação estrutural impulsionada pela internet, que "nos faz acreditar que todos podem tudo, sem gradações, para o bem e para o mal".

Neste contexto, a colaboração ganha contornos estratégicos distintos para cada parte. Barnabé aponta que "a Zara está a fazer um enorme esforço para se descolar da fast fashion e subir um patamar”, investindo não apenas na experiência física - como se observa nas suas flagships - mas também na construção de capital cultural, através de iniciativas como a programação expositiva da Fundação MOP. Já para Galliano, a parceria poderá funcionar como uma reconfiguração de imagem: “uma forma de limpar a sua imagem (…) parecer menos elitista e mais próximo das pessoas (…) e arrecadar o suficiente para a sua velhice”. Esta dualidade - entre reposicionamento e legitimidade - reforça a ideia de que estas colaborações são menos sobre produto e mais sobre perceção.

Durante anos, o luxo construiu-se na ideia de inacessibilidade - não apenas financeira, como também simbólica. Possuir uma peça de Galliano era, para muitos, um sonho distante, quase mítico. Ao colaborar com a Zara, esse sonho sofre uma reconfiguração. Não desaparece, mas aproxima-se. Torna-se tangível, ainda que fragmentado.

Contudo, como lembra a pensadora da área, esta aproximação não é propriamente inédita: "Nos anos zero, já a La Redoute convidava o Gaultier e o Lacroix (…) e depois a H&M fez imensas colecções com designers". O que muda hoje é a escala, a velocidade e a forma como estas iniciativas são absorvidas culturalmente. Se por um lado existe "o lado bom de todas poderem aceder e vestir criatividade de topo”, por outro, emerge uma inevitável "vulgarização do gosto” num tempo em que, como afirma, “vale tudo”.

Curiosamente, esta visão crítica contrasta - ou complementa - uma leitura mais estrutural e até otimista proposta por Eduarda Abbondanza. Para a presidente da Associação ModaLisboa, o verdadeiro interesse desta colaboração não reside apenas na assinatura de Galliano, mas no seu propósito: “o trabalho vai basear-se no arquivo da Zara e no excedente da produção”, enquadrando-se numa lógica de circularidade que responde às novas exigências éticas e regulatórias da indústria.

“Para mim, esta é a parte mais interessante do projeto”, afirma à Máxima, sublinhando que a escolha de um criador como Galliano para trabalhar sobre excedentes "é, para já, uma excelente ideia”. Numa altura em que a União Europeia impõe novas regras sobre desperdício têxtil, esta colaboração pode ser lida como um movimento estratégico, como também uma oportunidade criativa.

Abbondanza é clara ao estabelecer limites conceptuais: “não consigo imediatamente fazer essa transposição da moda rápida para o luxo - são coisas absolutamente diferentes”. O luxo, recorda, implica “produtos muito cuidados, séries limitadas” e uma relação intrínseca com o saber-fazer artesanal. No entanto, desloca o foco da discussão: mais do que luxo, interessa aqui o talento. “É o talento criativo do Galliano a olhar para produtos que já existem e a trabalhar a partir daí.” Essa mudança de eixo - do luxo para o propósito - é reveladora de uma nova sensibilidade na indústria. E talvez seja precisamente aí que esta colaboração encontra a maior relevância.

Se existe risco de banalização? As opiniões divergem. Para Barnabé, não necessariamente - estas coleções-cápsula são efémeras por natureza: “a intenção é criar buzz (…) e depois tudo volta ao que sempre foi”. Já Abbondanza propõe outra métrica de avaliação: “hoje em dia, o propósito das coisas justifica”. Se este projeto contribuir para reduzir desperdício e repensar sistemas de produção, então poderá representar “uma benção para todos nós globalmente”.

Num mercado saturado de colaborações, esta destaca-se não só pelo nome, como também pela densidade criativa que o sustenta. Não é apenas marketing - é, de certa forma, curadoria. Mais do que uma parceria, reflete uma mudança mais ampla na indústria. O consumidor contemporâneo já não distingue de forma rígida entre luxo e acessível. Mistura, adapta, reinterpreta. Quer história, como também quer acesso. Quer autenticidade, mas sem esperar anos por ela. Galliano x Zara responde a essa ambivalência, agora enriquecida por uma camada adicional de consciência: estética, cultural e, potencialmente, ética.

Se será um momento isolado ou o início de uma nova era, ainda é cedo para dizer. Mas uma coisa é certa: esta colaboração não é apenas relevante - é sintomática. Revela uma indústria em transformação, onde o valor não reside apenas no preço ou na exclusividade, mas na capacidade de criar significado.

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