Lívia Nunes cria coleção para a H&M e desafia os estereótipos do 'brasilcore': "A criatividade brasileira não corresponde a uma única estética"
É a primeira brasileira a assinar uma coleção para a marca sueca e fala com a Máxima sobre identidade, estilo e a vontade de mostrar uma nova perspetiva. A colaboração conta com 20 peças, muitas delas já esgotadas.
Depois da abertura da primeira loja no Brasil, em São Paulo, em 2025, a H&M dá mais um passo na consolidação da presença na América do Sul ao apresentar uma colaboração com a criadora de conteúdos Lívia Nunes, a primeira brasileira a assinar uma coleção para a marca sueca. Conhecida pelas parcerias com alguns dos maiores nomes da moda, da recente Stella McCartney a Magda Butrym, a H&M volta agora o olhar para uma voz influente da nova geração. Em entrevista exclusiva à Máxima, Lívia revela que o grande objetivo era desafiar a imagem estereotipada que, muitas vezes, existe da moda brasileira. O resultado é um guarda-roupa que reflete fielmente o seu universo estético: peças intemporais, versáteis e cuidadosamente construídas, pensadas para durar e feitas com a mesma atenção aos materiais que caracteriza o seu estilo pessoal. Hoje, uma das maiores referências de moda no universo digital vê a sua estética ganhar uma nova escala e conquistar o público, com várias peças da coleção já esgotadas no site da H&M.
Lembras-te da tua primeira reação quando a H&M te contactou? Foi um “sim” imediato ou precisaste de pensar no tipo de colaboração que querias desenvolver?
A minha primeira reação foi de puro entusiasmo, e foi um “sim” desde o primeiro momento. Desde o início, a equipa da H&M foi uma verdadeira parceira, assegurando que esta seria uma colaboração na qual eu poderia realmente trazer as minhas próprias ideias para a mesa, e não apenas associar o meu nome a um projeto que já estivesse decidido. A H&M tem esta capacidade de aproximar a moda das pessoas sem perder a criatividade, por isso o convite fez sentido quase de imediato. Aquilo que exigiu mais reflexão foi garantir que a colaboração não teria apenas o meu nome numa etiqueta, mas que refletiria verdadeiramente o meu ponto de vista, desde o primeiro esboço até ao último acessório.
Ao olharmos para a coleção, sentimos realmente que poderia ter saído diretamente do teu guarda-roupa. Esse foi sempre o objetivo: criar algo que parecesse uma extensão do teu estilo pessoal, em vez de ser apenas uma coleção com o teu nome?
Essa foi a intenção desde o início. Nunca quis que as pessoas olhassem para a coleção e pensassem nela apenas como uma linha de produtos. Queria que olhassem para ela e me reconhecessem. Cada escolha de tecido, cada contraste entre algo estruturado e algo mais suave, surgiu de peças às quais recorro verdadeiramente no meu próprio guarda-roupa. Mais do que isso, queria que a coleção abrisse diferentes possibilidades, diferentes versões daquilo que uma pessoa pode ser num determinado dia, para que quem a use se sinta confiante em ser exatamente essa pessoa.
O estilo pessoal é muitas vezes uma questão de instinto, mas criar uma coleção também implica fazer escolhas e editar. Qual foi a peça ou a ideia mais difícil de abandonar?
A edição foi provavelmente a parte mais difícil de todo o processo. Tinha muitas direções que queria explorar e reduzir tudo a 20 peças significou eliminar coisas de que gostava verdadeiramente. No final, tratou-se de proteger a coerência da coleção, garantindo que tudo o que permanecia conseguia dialogar entre si, mesmo quando as peças vinham de universos opostos.
Internacionalmente, a moda brasileira é muitas vezes reduzida a cores vivas, roupa de praia e estampados tropicais. Viste esta colaboração como uma oportunidade para apresentar uma perspetiva diferente sobre o estilo brasileiro?
Sem dúvida. Penso que essa imagem existe porque é fácil de apresentar e comercializar, mas representa apenas uma pequena parte daquilo que o Brasil realmente é. Queria que esta coleção mostrasse um lado diferente, construído a partir de tons neutros, alfaiataria, texturas e contenção, tendo o estampado de zebra como a única afirmação mais exuberante, em vez de ser o centro de toda a narrativa. O facto de ser brasileira manifesta-se mais na liberdade com que misturo referências do que através de qualquer código visual óbvio.
Consegues explicar-nos como decorreu o processo criativo? Como eram os primeiros moodboards? Houve alguma imagem, referência ou ideia que se tenha mantido desde as primeiras conversas até à coleção final?
As primeiras conversas não foram construídas em torno de uma única imagem fixa, mas sim em torno de uma sensação: a ideia de liberdade e de um guarda-roupa que pudesse acompanhar-nos ao longo de momentos completamente diferentes do dia. Aquilo que se manteve desde a primeira reunião até à coleção final foi essa tensão entre opostos: a alfaiataria ao lado de peças inspiradas na lingerie, linhas marcadas ao lado de linhas suaves. Esse fio condutor nunca abandonou o projeto.
A moda é cada vez mais global, mas o estilo pessoal continua a ser profundamente local. O que é que esperas que as pessoas em todo o mundo compreendam, não apenas sobre esta coleção, como também sobre a criatividade brasileira?
Espero que compreendam que a criatividade brasileira não corresponde a uma única estética. É uma mentalidade, uma forma de olhar para o mundo que nos surge naturalmente. Em termos de estilo, o Brasil não é um só país. São muitos países a viver dentro de um só, e essa pluralidade é algo que levo comigo, independentemente da cidade onde esteja ou da marca com que esteja a trabalhar. Se esta coleção conseguir fazer alguma coisa para além das próprias peças, espero que seja mostrar a verdadeira amplitude e diversidade do estilo brasileiro.
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