Como a Entrudo levou o artesanato português às mãos das 'it girls'
Num mercado saturado de tendências efémeras e de logótipos que mudam ao ritmo do algoritmo, a Entrudo escolheu outro caminho: o da permanência.
Vivemos numa época em que quase tudo é pensado para durar uma estação. A moda acelera, as tendências sucedem-se e o desejo tornou-se descartável. Mas, algures entre o ruído da indústria, há quem continue a acreditar que o tempo pode ser um luxo. É precisamente dessa convicção que nasce a Entrudo.
Fundada em 2017 por uma dupla de mãe e filha - Susana e Maria -, a marca portuguesa construiu um universo onde o design contemporâneo encontra o património artesanal nacional. Não há logótipos ostensivos, campanhas pensadas para o algoritmo ou peças criadas para responder ao fenómeno do momento. Em vez disso, há ráfia entrançada à mão, bordados feitos por artesãos portugueses e histórias que começam muito antes de chegarem às passerelles ou às redes sociais.
A origem da marca é, também ela, uma história de recomeços. Depois de vários anos a trabalhar como designer numa empresa têxtil, a fundadora viu esse capítulo terminar quando a empresa encerrou. A Entrudo surgiu como uma oportunidade de voltar ao desenho, aos materiais e ao processo criativo - desta vez ao lado da filha. "Quando fundámos a Entrudo foi precisamente para voltar a desenhar, a criar e a fazer o que tanto gostava", recorda Maria, em entrevista à Máxima.
O nome não foi escolhido ao acaso. Entrudo é o nome ancestral do Carnaval português - uma celebração profundamente enraizada na cultura popular e feita de máscaras, cores, texturas e rituais. Foi precisamente nesse universo que nasceu a primeira coleção e, desde então, cada peça continua a prestar homenagem a uma tradição diferente.
Há o cesto Póvoa, inspirado na conhecida Camisola Poveira e nos símbolos bordados das comunidades piscatórias. Há o Cambres, cuja linguagem visual recupera as cores e os padrões dos Caretos transmontanos. Cada coleção parte de uma memória coletiva, mas nunca se limita a reproduzi-la. A tradição é reinterpretada, simplificada e transformada em objeto contemporâneo. "A tradição aliada à modernidade e à qualidade consegue falar uma linguagem universal", explicam. E talvez seja precisamente essa universalidade que explique o percurso improvável da marca.
Sem grandes campanhas internacionais, a Entrudo começou a aparecer nos braços de algumas das mulheres que melhor representam uma elegância descomplicada. Kelly Rutherford, Rocky Barnes, Leandra Medine Cohen, Manon De Velder e Lucy Aylen são apenas alguns dos nomes que ajudaram a levar a marca portuguesa muito para lá das fronteiras nacionais.
Mas, curiosamente, esse nunca foi o objetivo. Nos primeiros meses de vida da marca, houve um momento que lhes confirmou que estavam no caminho certo. "Começámos a perceber, pelo feedback dos clientes, que a Entrudo já era reconhecida pelos materiais que usava e pela estética dos produtos. Conseguimos criar uma marca com personalidade."
Num mercado dominado pela novidade constante, a Entrudo continua a fazer exatamente o contrário. As peças não desaparecem ao fim de uma estação nem são substituídas por uma nova tendência. Regressam todos os verões porque foram desenhadas para permanecer. "Queremos criar peças intemporais, que fiquem connosco e contem a nossa história ao longo dos anos. Quem procura a Entrudo sabe que, provavelmente, no próximo verão verá o mesmo produto à venda, feito à mão, com tempo."
Essa palavra - tempo - talvez seja a que melhor define a marca. Tempo para desenhar. Tempo para produzir. Tempo para respeitar o saber dos artesãos portugueses, cujas mãos continuam a dar forma a cada carteira, cesto ou acessório. "Uma peça da Entrudo passa por muitas etapas e pelas mãos de muitos artesãos até chegar ao cliente. São peças únicas e intemporais." Numa indústria que durante décadas associou o luxo à exclusividade ou ao preço, a Entrudo parece propor uma nova definição: luxo é aquilo que não pode ser acelerado. É conhecer a origem dos materiais. É preservar técnicas ancestrais sem as cristalizar no tempo. É transformar a cultura portuguesa em design sem a reduzir a um postal ilustrado.
Por isso, as peças da Entrudo dificilmente podem ser vistas como simples souvenirs. São objetos que transportam identidade, mas recusam o folclore. São contemporâneos sem perderem a memória. Portugueses sem precisarem de o afirmar em voz alta. Esta é capaz de ser a maior conquista da marca: provar que o património não tem de viver apenas nos museus. Pode viver também no braço de uma mulher em Nova Iorque, Copenhaga ou Milão, desde que exista alguém capaz de contar a história certa.