Trench coat da Burberry. Quando um casaco é tão famoso que merece uma exposição
"The Burberry Trench: Crafting an Icon" é uma exposição que vai estar patente no museu britânico V&A e que conta a história de uma peça de vestuário icónica. Um casaco que saiu das trincheiras rumo a Hollywood e acabou no guarda-roupa de (quase) todas as mulheres.
O trench coat – também conhecido como gabardine por estas bandas – é uma das peças de roupa mais icónicas, versáteis e democráticas de sempre, com lugar cativo em todas as coleções de moda, das mais luxuosas às mais massificadas. E se hoje poucas são as marcas que não têm uma versão para oferecer, convém lembrar que foi a Burberry que lhe deu vida. Aliás, o trench coat da Burberry é ainda, e provavelmente sempre será, símbolo do mais puro luxo britânico. Não admira, por isso, que no ano em que se celebram os 170 anos da Burberry, o famoso museu Victoria & Albert (V&A) tenha decidido homenagear a marca através desta incontornável peça de vestuário. O objetivo é mostrar a evolução do trench coat, desde as suas origens militares até ao seu estatuto como um dos maiores clássicos da moda contemporânea. De 21 de setembro até 3 de janeiro do próximo ano, se der por si nas imediações do V&A South Kensington, em Londres, não deixe de visitar a exposição "The Burberry Trench: Crafting an Icon". A entrada é gratuita.
A narrativa da exposição organiza-se em três grandes eixos: Invention (Invenção), que explica como a criação do tecido gabardine por Thomas Burberry revolucionou o vestuário impermeável e tornou possível o nascimento do trench coat; Craft (Artesanato/Fabrico), que fala da construção da peça, dos seus detalhes técnicos e do processo de confeção, evidenciando a combinação entre funcionalidade e excelência artesanal; e, por último, Creativity (Criatividade), que mostra como foi reinterpretado por sucessivos diretores criativos da Burberry e por diferentes gerações de designers, mantendo-se relevante na moda contemporânea.
Talvez não saiba, ou nunca tenha pensado nisso, mas trench coat quer dizer, literalmente, “casaco de trincheira”. Ou seja, era um casaco de uso militar que teve o seu apogeu na Primeira Guerra Mundial, embora tenha começado a ser pensado muito antes. Em 1879, Thomas Burberry, o homem que fundou a marca em 1856, desenvolveu um tecido a que chamou “gabardine” – uma palavra francesa que, até então, era usada em França para referir uma capa com capuz. A gabardine era um tecido de algodão de trama muito apertada, cujas fibras eram impermeabilizadas antes da tecelagem, e que conseguia ser, simultaneamente, resistente à chuva, respirável e leve, ainda que robusta. Até então, a maior parte dos impermeáveis era feita de tecidos revestidos com borracha, muito pesados e pouco confortáveis. A gabardine representou, assim, uma inovação tecnológica importante para o vestuário de exteriores.
Curiosamente, o tecido foi patenteado muito antes do famoso trench coat ter sido desenvolvido. Durante mais de 30 anos, a gabardine foi utilizada numa grande variedade de peças, como casacos de viagem, capas, sobretudos, vestuário para caça, roupa para equitação e equipamento para exploradores – Ernest Shackleton, por exemplo, levou acessórios de gabardine para as suas expedições à Antártida. Foi só em 1912, quando a Burberry patenteou o Tielocken Coat, um casaco de corte simples, sem botões frontais, preso por um cinto, que foi dado o primeiro passo no sentido do trench coat tal como hoje o conhecemos. Poucos anos depois, já durante a Primeira Guerra Mundial, o War Office – departamento do governo responsável pela administração do Exército Britânico – pediu adaptações para responder às necessidades dos oficiais destacados nas trincheiras: dragonas para indicar a patente, argolas em D para prender equipamento, entre outros elementos funcionais. Foi com essa evolução que nasceu este ícone intemporal. Cada detalhe do trench coat foi pensado para resolver um problema prático – proteger da chuva, facilitar o movimento ou transportar equipamento – o que explica por que razão acabou por ser tão valorizado, tanto na guerra, como fora dela. E é, precisamente, esta passagem do funcional ao icónico que faz do trench coat da Burberry um caso exemplar na história do design e da moda.
De todos os seus elementos, o cinto e a storm flap – a pala de tecido que cobre a parte superior das costas e também a parte da frente do lado direito do peito, dando uma proteção acrescida às zonas mais expostas à chuva – são os mais reconhecíveis. Para além, naturalmente, da cor inconfundível, que hoje, é o tom de areia a que a marca chama Honey, mas que na altura da Primeira Guerra era o khaki, e do forro com o padrão xadrez típico da marca, que também só foi incorporado mais tarde, na década de 20. Entre as peças que podem ser vistas na exposição encontram-se catálogos históricos da Burberry, trench coats militares, exemplares pertencentes a figuras conhecidas, como o designer Hardy Amies, looks marcantes das passerelles, modelos desenhados por Christopher Bailey e Daniel Lee – dois diretores criativos da Burberry –, bem como documentação do arquivo da marca e do próprio V&A. Será também evidenciada a longa relação entre a Burberry e o V&A, dois pilares da moda britânica que partilham o compromisso de garantir que o seu legado e as suas colecções inspirem a próxima geração de criativos.
De resto, a exposição antecipa a abertura da Galeria Burberry, marcada para o Outono de 2028, e que consiste numa grande transformação das galerias de moda do V&A South Kensington, apoiada pela Burberry como parte de uma parceria com o museu. Acima de tudo, esta exposição pretende mostrar que o trench coat é simultaneamente um objeto de design industrial, uma peça de vestuário técnico e um símbolo da cultura britânica. Ao mesmo tempo que explica como saltou das trincheiras para o guarda-roupa de todas (ou quase todas) as mulheres, muito por influência de Hollywood. Afinal, quem poderá esquecer Audrey Hepburn como Holly Golightly, na cena final de Breakfast at Tifanny’s (1961), a dar um beijo apaixonado em George Peppard como Paul Varjak, sob chuva torrencial? Se isso não for inspiração suficiente, temos também Meryl Streep em Kramer vs. Kramer, Catherine Deneuve em Le Sauvage, Diane Keaton em Manhattan, e, nas suas vidas reais, Brigitte Bardot, Jane Birkin, Kate Moss e a Princesa Diana.
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