Moda

O design português invadiu Paris

A capital da moda recebeu com muito entusiamo e uma fila de curiosos o showcase ModaPortugal, uma boa seleção de designers nacionais que representaram o que se faz (e muito bem) em terras lusitanas.
Por Aline Fernandez, 23.06.2019

Dois anos depois da primeira edição, um novo grupo de portugueses instalou-se no número 18 da rue du Bourg Tibourg, de 18 a 20 de junho, numa instalação que uniu 28 criadores (doze de moda – entre eles David Catalán, Inês Torcato, Luís Carvalho, Kolovrat, e Constança Entrudo, esta que apresentou a sua primeira coleção a pensar num público masculino –, nove de acessórios e lifestyle, quatro de calçado e três de joalharia). É o resultado dos esforços pela internacionalização da moda portuguesa das duas principais entidades nacionais, a ModaLisboa e o Portugal Fashion, que se juntaram pela primeira vez num projeto internacional do género. A convite do CENIT (Centro de Inteligência Têxtil), a Máxima esteve em Paris para ver de perto o showcase ModaPortugal, três dias de apresentações dedicados a criadores portugueses.

Para além de celebrar a criatividade e o trabalho de autor de Portugal, a ideia é que este seja um evento aberto ao diálogo, troca de experiências e, principalmente, de estabelecimento de contactos.

Esta vitrina da portugalidade contou ainda com a apresentação da nova coleção do desginer Hugo Costa, apoiado pelo Portugal Fashion, a aproveitar o calendário oficial da semana da Moda masculina de Paris.

Eduarda Abbondanza, presidente e diretora criativa da ModaLisboa, participou na curadoria do showcase, e explicou-nos os objetivos das entidades tutoras do evento. "Estamos na semana de Moda de homem então selecionámos três designers da ModaLisboa e três do Portugal Fashion", contou, acrescentando que o trabalho mais duro foi o de inovar. "Estive a ver todas as marcas que estão no armazém [BHV Marais – uma ação de promoção dos produtos portugueses em França com cerca de 50 marcas portuguesas representadas até 25 de junho] para não trazer nenhuma que já lá estivesse. Quis trazer marcas novas e marcas que ainda não são tão conhecidas cá", explicou.

Entre as marcas selecionadas para esta edição, esteve o calçado d’As Portuguesas. "Achámos que para aqui a marca era claramente muito poderosa, por causa da cortiça. É mesmo um sapato que não existe, um bocado como as Havaianas ou os espadrilles, e que pode, se for bem trabalhado, ser um produto embaixador português. E nós não temos produtos embaixadores, precisamos", atenta Eduarda. Abbondanza reforçou ainda que o País precisa de ter mais eventos que promovam o design nacional. "Portugal é um país pequeno e não tem verbas milionárias, não é? Paris é uma cidade caríssima, principalmente durante o calendário da Moda, portanto se Portugal quer impactar os mercados internacionais, mesmo em termo de comunicação, fazer uma coisinha aqui e outra ali não tem escala", continua. "Portugal ainda tem uma política de capelinhas. E não vamos ganhar nada com isso. Já temos 20 anos disso e não ganhámos. Sobrevivemos. Se queremos, não subir degraus, mas galgar patamares, que é aquilo que está pela frente, tem de ser assim. E há muitos setores que já estão a fazer isso e estão a ter resultados muito bons. Tem muito a ver com a forma como [os mercados internacionais] nos lêem. E lêem-nos mal", opinou.

O Secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias, também esteve no ModaPortugal e reforçou a importância do apoio conjunto no setor. "Não me importo nada que haja duas associações, o que tem de haver é um trabalho conjunto no exterior, promovendo a moda portuguesa", afirmou. "Muita gente não sabe, mas exportamos o segundo par de sapatos mais caro do mundo. Só os italianos vendem sapatos mais caros do que os portugueses. Vendemos o quilo de têxtil mais caro do mundo. E isso significa que exportamos produtos de elevado valor acrescentado", esclarece Eurico.

Marlene Oliveira, responsável pela unidade de internacionalização do CENIT explicou à Máxima que a instalação buscou aliar a tradição e o saber de confecionar com elementos do design nacional. "Portugal já é conhecido como um produtor, um parceiro seguro, flexível, sério acima de tudo e com capacidade de resposta, mas estamos a trabalhar na comunicação do nosso design."

Para a seleção de marcas, Marlene explicou que a diversidade foi calculada. "A moda agora é lifestyle. Quando entramos numa loja não vemos só roupa, vemos uma estética. Nós aqui quisemos criar essa experiência sensorial de descoberta do que é Portugal". Por isso, vimos os manjericos à porta da instalação, o catering português e a apresentação de Fred, dos Orelha Negra. "Isto é um projeto coletivo de promoção de imagem, que não terá retorno comercial no imediato, mas acreditamos que essas ações promociais conjugadas com outras ações de carácter mais comercial concorram para a mesma promoção de Portugal e, claro, que se converta em vendas e aumento das exportações, naturalmente", explica Marlene sobre o investimento de cerca de 100 mil euros no ModaPortugal. Para ela, essas ações também funcionam bem no plano interno. "Temos que reeducar o consumidor português. Aquela ideia que nós só apostamos no que é estrangeiro e nas grandes marcas e que o design português é caro, tudo isso é um mito."

O showcase ModaPortugal é organizado pelo CENIT e ANIVEC/APIV (Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção), em conjunto com a APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes e Artigos de Pele e Seus Sucedâneos) e ModaLisboa e em parceria com a AORP (Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal) e Portugal Fashion. A iniciativa é co-financiada pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, através Programa Operacional para Competitividade e Internacionalização do Portugal 2020.

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