ModaLisboa

Luís Carvalho: “Continuo a sonhar mesmo que isso já não se use”

Na era da rapidez e do cinismo, Luís Carvalho é um designer à procura dos seus sonhos. Aos 31 anos, cinco na passerelle da ModaLisboa, faz moda para as emoções e peças que queremos vestir hoje e guardar para sempre. Apresentou este sábado, na 51ª edição da ModaLisboa.
Por Rosário Mello e Castro, 13.10.2018

Cresceu em Vizela no meio dos tecidos e das máquinas de costura e desde pequenino que se imaginava a trabalhar com formas. Aprendeu com Alexandra Moura a pensar a moda e com Filipe Faísca a transformar ideias em peças de roupa. Depois de um par de estações na plataforma LAB da ModaLisboa, passou à passerelle principal e é hoje um dos seus mais importantes designers. Com uma marca de personalidade forte e ideias de futuro, tanto se inspira num tema dos The XX como brinca com a Natureza, expondo todos os seus defeitos e pormenores. Prestes a apresentar na 51ª edição da ModaLisboa diz-se feliz por mostrar "a melhor coleção que fiz até hoje."

Está a comemorar cinco anos de ModaLisboa. Porque é que este número é importante para si? 

Num país onde é tão difícil sustentar um negócio de moda, estes cinco anos são muito importantes. O crescimento da marca foi muito rápido, comecei como jovem criador da plataforma LAB e duas ou três estações depois já estava na passerelle principal. Hoje, consideram-me um dos nomes principais da ModaLisboa - não que eu ache isso de mim próprio [risos]. É incrível olhar para a evolução, até do meu próprio trabalho. Antes fazia coleções de vinte coordenados, hoje são quarenta e seis e trabalho de forma muito mais madura.

Aliás, veio em tempos à ModaLisboa e decidiu que na estação seguinte mostraria o seu trabalho naquela passerelle. Tem uma personalidade muito determinada?

A verdade é que isso aconteceu mesmo, na estação seguinte estava na plataforma LAB da ModaLisboa. Desde pequenino que sonhava ter a minha marca, passei por várias experiências de trabalho com outros criadores e numa marca de jeans e percebi que era a altura certa de dar o passo. Não tinha a certeza que estaria ali, como veio a acontecer, mas tinha a certeza de que ia trabalhar para isso.

Tem um lado romântico, característica que também vemos nas suas coleções? 

Sou um sonhador, acho super importante que se sonhe sempre, é isso que nos faz correr atrás do que queremos. Trabalho sempre nesse sentido, o que também implica correr riscos. É um bocado piroso dizer isto, mas digo sempre que temos de sonhar, essa ideia está impressa em mim e não me importo nada que digam que já não se usa.

A ModaLisboa foi um desses sonhos. E depois de se chegar lá o que acontece?

Assim que concretizei esse objectivo, percebi que era só o primeiro passo, é preciso chegar a mais públicos, estabelecer a marca e saber como a vender. Sem isso nada acontece. Criar a marca não é o mais difícil, o desafio é conseguir sustentá-la e abrir a primeira loja, que está junto ao meu atelier, em Vizela. Estou perto da indústria e é muito mais económico, para além de ter ali um público a que quero chegar.  

É um designer que se sente confortável com esses dois lados, o criativo e o comercial?

Acho que é essencial ter um bocadinho dos dois. Mesmo antes de criar a marca, já tinha tudo muito bem estruturado na minha cabeça. É uma questão de tentativa e erro e de pensar bem nas coisas, nesse sentido sou muito cauteloso, não gosto nada de dar passos maiores do que a perna. Muitas pessoas me perguntam porque não estou a fazer isto ou aquilo, agora que as pessoas estão a falar no meu trabalho, mas prefiro pensar sempre numa coisa de cada vez.

Como é que esse equilíbrio se reflete num desfile?

Tenho peças que sei que vão ser muito comerciais e que vão vender bem, depois há algumas peças, que se cruzam com estas e que fazem sentido em figuras públicas, o que também é importante, e, por fim, as peças que gosto de fazer, que são um statement porque marcam o desfile. Não se pode fazer um desfile com peças que as pessoas não vão comprar.

Criou uma assinatura reconhecível nas suas coleções, mas consegue sempre fazer qualquer coisa de inesperado. É importante surpreender?

Não gosto que as pessoas cheguem ao desfile e já estejam à espera daquilo que vão ver. Aconteceu por exemplo na estação passada, quis mesmo fazer uma cosia mais fora. Os cortes estavam lá, mas fiz uma mistura de padrões e de materiais diferentes, era uma coleção menos óbia meu, embora eu também lá estivesse. A colecção que vou apresentar nesta ModaLisboa é, para mim, a melhor que fiz até hoje. Sinto que é uma coleção que é a imagem perfeita da minha marca e um desfile que vai surpreender do início ao fim. Estou muito feliz.

Como é que esse processo  de criação de uma coleção, tem mais método ou instinto?

Sou super metódico e organizado. O meu desfile é sábado às onze da noite e eu estou aqui desde quinta, com tudo pronto desde segunda. Às vezes é bom trabalhar com pressão, mas nestes casos não gosto de sofrer! As minhas colecções tanto pode começar pela pesquisa, como com uma coisa que me vem à cabeça de repente. Nesta estação por exemplo, foram as cerejas e os estampados, depois comecei a investigar e fui encontrando outros caminhos. Na estação anterior foram prédios, depois veio a década de 60, o trabalho das formas. Construo sempre uma história.

Aprendeu com a Alexandra Moura, o Filipe Faísca ou o Ricardo Preto – foi uma escola importante para si?

Completamente, a Alexandra Moura, com quem tive aulas na Universidade, sempre me fez sonhar muito com o que eu quereria fazer. Observar o Faísca por exemplo foi uma experiência muito importante para mim, aprendi a trabalhar em atelier, antes disso não o entendia tão bem, depois fiquei fã, o processo, é inspirador poder ver como funciona a cabeça de alguém assim.

O facto de ter crescido no meio de máquinas de costura deu-lhe as bases da profissão. Como chegou ao resto?

Sempre estive muito à vontade no meio dos tecidos porque a minha mãe tinha uma confecção de tecidos, percebi desde cedo que iria trabalhar em arquitetura ou em moda. E depois observava muito a minha mãe, a forma como se vestia e arranjava, comprar revistas e livros de moda, foi um bocado por aí. Mas só quando fui para a Universidade comecei a ganhar outras noções. Hoje dou aulas na Escola Profissional CENATEX, em Guimarães, e vejo que há ainda muita falta de cultura de moda nos alunos, muitos querem ser designers para aparecer e a moda não é nada disso.  

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