Moda

Karl Lagerfeld, o designer que nunca parou de nos provocar

Em 1983, disseram-lhe que a Chanel era passado e Lagerfeld não resistiu à provocação. Tornou-se num dos mais emblemáticos designers de Moda de sempre, único na forma como vestiu a modernidade feminina e reinventou o trabalho da também icónica Coco Chanel. O designer de moda alemão Karl Lagerfeld morreu nesta terça-feira, 19, aos 85 anos, em Paris.
Por Aline Fernandez, 19.02.2019

Karl Lagerfeld, diretor criativo da Chanel e da Fendi, morreu na manhã desta terça-feira, aos 85 anos. O kaiser da Moda estava internado no Hospital Americano de Paris desde segunda-feira, segundo informações da agência Reuters, que cita a revista Paris Match.

A saúde de Karl chamou a atenção de todos após o desfile de alta-costura primavera/verão 2019 da Chanel, que aconteceu a 22 de janeiro, no Grand Palais, em Paris, e que pela primeira vez em 30 anos não contou com a presença de Lagerfeld. As causas da morte ainda não são conhecidas. 

Além de comandar a maison francesa desde 1983, e a italiana Fendi desde 1965, Karl Lagerfeld  também tinha a sua própria marca de moda homónima e lançou ano passado uma coleção de maquilhagem. Discípulo de Pierre Balmain, de quem foi estagiário no começo da carreira e conhecido como "kaiser", Karl era considerado um dos últimoss grandes mestres da alta-costura ainda. Com um estilo particularmente notável, não havia quem não reconhecesse o seu rabo-de-cavalo branco, óculos escuros e luvas. Poliglota, Karl falava alemão, francês, inglês e italiano. "Para mim Karl Lagerfeld sempre foi sinónimo de sobriedade, classe, elegância e intemporalidade, sem dúvida que foi um dos grande designers do século XXI e o fim de uma era, insubstituível", declarou o designer de moda português Diogo Miranda.

Incansável, o designer, mesmo nos seus 80 anos, criava uma média de 14 novas coleções por ano, entre a alta-costura e o street style, sem contar com as colaborações e projetos especiais. "As ideias chegam até nós quando se trabalha", confessou nos bastidores de um desfile da Fendi, aos 83 anos. E nunca parou de criar. Além do design de moda, Karl também foi fotógrafo, com o seu trabalho a ser exibido na Pinacoteca de Paris e esteve em diversas revistas de moda e campanhas publicitárias – a última coleção cruise 2018/2019 da Chanel foi filmada e fotografada pelo kaiser e contou com a atriz Penélope Cruz; e também tinha uma editora, tendo fundado o seu próprio selo para a editora alemã Steidl, Edição 7L; e foi autor de um popular livro de dietas em 2002, The Karl Lagerfeld Diet, no qual conta como perdeu quase 42 quilos em 2001.

Karl criou peças-desejo e transformou-se ele próprio um ícone de Moda. A mesma obsessão que o designer tinha por Coca-Cola Diet via-se que os seus fãs tinham por ele. Mundialmente. Um bom exemplo do "efeito Karl" foi em setembro de 2014, quando em colaboração com a Mattel foi lançada uma boneca Barbie vestida com o estlio de assinatura do kaiser por €200 e todas foram vendidas em menos de uma hora.

Tanto era chamado de génio como de caricatura de si próprio. A sua contribuição para o mundo da Moda não foi na criação de uma nova silhueta, como marcaram a história os designers Cristobal Balenciaga, Christian Dior e a própria Coco Chanel. Em vez disso, criou um estilo novo. "Eu gostaria de ser um fenómeno de moda multinacional", disse uma vez. E, de facto, as suas criações chamavam tanta atenção tanto quanto as suas declarações (muitas vezes polémicas). Ao ponto das suas citações serem coletadas num livro, O mundo segundo Karl, em 2013.

Karl-Otto Lagerfeld nasceu em Hamburgo, filho de Otto Lagerfeld, um diretor administrativo da filial alemã da American Milk Products Company, e de Elisabeth Bahlmann. A sua mãe era a segunda esposa de Otto e Karl tinha uma meia-irmã mais velha, Thea, e uma irmã mais velha, Martha Christiane. Lagerfeld morava sozinho com a gata Birman chamada Choupette, que ficou tão famosa quanto o seu mestre, com direito às suas próprias  almofadas, colares de diamantes e um perfil no Instagram.

Karl fugiu para Paris quando era adolescente e, embora não frequentasse a escola de Arte ou tivesse recebido uma educação de moda clássica, em 1954, aos 18 anos, participou de um concurso chamado International Wool Secretariat (agora renascido como International Woolmark Prize) e venceu na categoria de casacos (Yves Saint Laurent, também um jovem designer à época, venceu na categoria de vestidos no mesmo ano). Começou à trabalhar com Pierre Balmain, depois Jean Patou, Krizia, Ballantyne, Charles Jourdan e na Chloé. Chegou na Fendi, a partir de meados dos anos 1960, quando foi contratado pela família para transformar a marca de "enfadonha burguesa num nome da moda popular". Lagerfeld deixou a Chloé em 1982 e seguiu para a Chanel, primeiro com a alta-costura, e no ano seguinte com o pronto-a-vestir.

O designer percebeu desde cedo como as imagens amplamente divulgadas tinham o poder de transformar um desfile comercial num desfile que ressoaria no mundo digital. A partir de então, vimo-lo transformar o Grand Palais, em Paris, no seu local de eleição para os espetáculos da Chanel e de lá surgirem cenários como um iceberg de 265 toneladas, um hangar de avião, uma brasserie e um supermercado, uma praia e uma vila italiana, entre outros.

Em 2017, Anne Hidalgo, presidente da Câmara de Paris, concedeu-lhe a Medalha da Cidade de Paris, pelos serviços prestados à metrópole. "Por favor, não diga que eu trabalho muito", declarou ao The Independent. "Ninguém é forçado a fazer este trabalho e, se não gostar, deve fazer outro. As pessoas compram vestidos para serem felizes, não para ouvir falar de alguém que sofreu com um pedaço de tafetá." 

Para a presidente da Associação ModaLisboaEduarda AbbondanzaKarl Lagerfeld foi um profissional multifacetado. "Era um workaholic que trabalhava em várias áreas diferentes. Enquanto designer assinava várias coleções/marcas em simultâneo. Produzia coleções haute couture, pret-à-porter e acessórios, era uma máquina. Foi um designer que fez a passagem de um mundo antigo para um mundo moderno e conseguiu acompanhar o evoluir e as principais  transformações desta indústria. Trabalhou em vários projetos de figurinismo, Cinema e Ópera. O seu trabalho é realmente notável em várias áreas e deixa um legado incrível e invejável."

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