Pequeno-almoço saudável? Coma peru com couves de Bruxelas

O pequeno-almoço doce não é uma lei da natureza – é um hábito recente. Agora, Rangan Chatterjee, um dos médicos mais influentes do Reino Unido, sugere trocar os cereais açucarados pelas sobras do jantar. E garante que o corpo agradece.

Trocar cereais açucarados por sobras de jantar pode ser uma boa opção, segundo médico Foto: IMDB
19 de janeiro de 2026 às 14:02 Madalena Haderer

De há uns anos para cá tornou-se perfeitamente normal confeccionar uma dose avantajada de jantar já a contar com o almoço do dia seguinte. “Marmitar”, verbo que o dicionário de língua portuguesa não reconhece, tornou-se sinónimo não só de poupança – quem é que tem dinheiro para almoçar fora todos os dias? –, mas, mais importante ainda, de foco na alimentação saudável. Ao levar o seu almoço para o trabalho, sabe o que é que está a comer e não se excede com sobremesas e refrigerantes – isto, claro, assumindo que depois de consumir a sua marmita espartana não ataca a máquina de vending. Embora esta forma de atuação mantenha a sua relevância, Rangan Chatterjee, famoso médico britânico e uma das figuras mais influentes da atualidade no campo da saúde e bem-estar e autor de diversos livros, afirma que, em vez de comermos as sobras do jantar ao almoço, devíamos comê-las ao pequeno-almoço.

O mais provável é que esta afirmação a tenha feito torcer o nariz. E, no entanto, quem tiver família na província saberá que o pequeno-almoço das avós campesinas consistia, frequentemente, em comer uma boa sopa de couve com feijão ao pequeno-almoço à qual acrescentavam, com sorte, uma fatia de pão e um pedaço de queijo, chouriço ou presunto, e um punhado de azeitonas. Independentemente das possíveis variações, o que elas não comiam de certeza era Kellogg’s Especial K, fatias de pão de forma com Nutella ou panquecas com xarope de ácer. Esta ideia de que o pequeno-almoço deve ser doce é uma noção que, como diria Fernando Pessoa, primeiro estranhou-se, mas depois entranhou-se.

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Quando pensamos em pequeno-almoço, mesmo que estejamos a tentar fazer escolhas saudáveis, mas depressa nos ocorre uma banana e umas nozes com um iogurte líquido, do que um bife de peru grelhado com meio ovo cozido e uma mão cheia de couves de Bruxelas. Estamos a pensar bem? Pois Chatterjee garante que estamos a pensar muito mal. Se queremos contribuir para a nossa saúde, a coisa certa a fazer, de acordo com este especialista, é comer o jantar ao pequeno-almoço.

Numa aparição recente no podcast da famosa autora norte-americana Mel Robbins, Rangan Chatterjee contou que um dos seus pacientes, com pouco mais de 40 anos, se queixava de ter excesso de gordura na zona abdominal, tinha oscilações de humor, sentia-se fatigado ao longo do dia, e estava sempre com fome. O que é que ele comia ao pequeno-almoço? Uma taça de cereais açucarados. Convém talvez introduzir aqui uma nota: quase todos os cereais à venda no supermercado são açucarados. Por muito que tenham uma embalagem e rótulo com alegações de saúde e bem-estar, se olhar para os ingredientes e vir “açúcar” no topo da lista, fuja. 

Ora, voltando ao paciente em questão, Chatterjee ouviu as suas queixas e sentiu-se bastante certo de que o que ele comia ao pequeno-almoço estava a impactar a forma como se sentia ao longo do dia. Perguntou-lhe, então, o que tinha por hábito comer ao jantar. E o paciente, ávido consumidor de peixe, disse que era bastante comum comer salmão com legumes assados. O médico fez-lhe, então, um desafio. Perguntou-lhe se estaria disposto, enquanto experiência, a, durante uma semana, abdicar dos cereais e passar a comer ao pequeno-almoço as sobras do jantar. Relutantemente, aceitou.

Semanas depois, quando regressou à consulta, o paciente disse sentir-se “uma pessoa completamente diferente”. Relatou conseguir trabalhar mais e melhor, com maior capacidade de concentração e foco e que, agora, só tem fome às duas da tarde. Porquê? Chatterjee explica que a proteína presente no salmão aumenta a saciedade. “As pessoas pensam que têm fome [antes da hora da próxima refeição] porque estão a comer pouco” diz o médico, “mas não é essa a razão. Não estão a comer pouco, estão a comer a coisa errada”.

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Há muito que Rangan Chatterjee tem vindo a promover esta ideia de “comer o jantar ao pequeno-almoço”, sublinhando os benefícios de começar o dia com alimentos integrais e ricos em proteína em vez de cereais açucarados. O objetivo é estabilizar os níveis de açúcar no sangue, reduzir desejos de açúcar, estimular o metabolismo e melhorar os níveis de energia. Segundo ele, os pequenos-almoços tradicionais são frequentemente pobres em proteína, o que leva a que a pessoa sinta fome mais cedo ao longo do dia. Esta abordagem ajuda a regular o apetite e a fornecer energia sustentada, ao privilegiar nutrientes em vez de hidratos de carbono processados.

Benefícios é o que não falta, o único desafio vai ser descobrir o que meter na marmita do almoço. Afinal, jantar ao pequeno-almoço e ao almoço é capaz de ser um pouco demais.

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