Mariana Cardoso: “Quando outra rapariga fica com um papel que não consegui, fico feliz. É um passo para mais histórias”
"Maria Vitória" chega ao cinema. Entre disciplina, força e descobertas, a atriz encontra na personagem uma coragem que nem sabia ter - e nós, um reflexo do que sempre vimos nela.
Mariana Cardoso protagoniza "Maria Vitória", um filme sobre disciplina e descobertas
Foto: Luis Fonseca / Máxima06 de março de 2026 às 18:47 Patrícia Domingues
Foi com alívio que a equipa notou Mariana Cardoso chegar ao set, com uma leveza que ia do sorriso ao fato de treino. Eram 8 da manhã, e o dia prometia ser longo. Fotografar uma personalidade para um meio pode ser tudo menos fácil - e, no entanto, fica cada vez mais óbvio reconhecer talento quando o vemos. Não é por acaso que se diz que os melhores atores são também as melhores pessoas. A luz de Mariana faz-nos segui-la para onde quer que vá na sala. Ela salta, rodopia, senta-se, cruza as pernas, dança ao som da música, e, puff, o shooting terminou ainda antes do almoço. Um detalhe: não me lembro de a ter visto pegar no telemóvel. No mundo atual, é raro. No mundo de uma miúda de 23 anos com milhares de seguidores em redes sociais, inexistente.
Encontramo-nos para falar de Maria Vitória, o filme português que estreia agora e que conta a história de uma jovem que cresce entre desafios familiares e desporto, descobrindo identidade e força interior. Seis fases de casting depois, Mariana interpreta a protagonista. Não foi amor à primeira vista, mas a vida tem destas coisas: fez o primeiro casting aos 18 anos, mas foram precisos mais cinco para o filme chegar até nós. Em idade de pós-adolescente (será o equivalente a 20 anos?) quando achou que nada ia acontecer, aconteceu mesmo. Esse tempo serviu para entender melhor as suas diferenças com Maria - os silêncios, os pensamentos que se entalavam na garganta - mas também as semelhanças. Foco, garra e pensamento crítico num mundo de homens; celebrar as bolas que apanhamos e, principalmente, as que deixamos cair.
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Maria Vitória é uma personagem de grande força interior. Quais foram as tuas primeiras impressões ao conhecê-la?
A personagem é curiosa: é protagonista, mas fala pouco. E quase tudo o que diz não é exatamente o que pensa. Por isso, no texto era difícil perceber quem ela era. Ela passa grande parte do filme - e da vida - quase em piloto automático, guiada pelos outros. Vai-se deixando levar e a fazer o que os outros querem. Não é que não tenha personalidade, mas ela está escondida durante muito tempo. O filme acompanha precisamente esse processo: quando começa a confrontar-se com os fantasmas do passado, a lidar com coisas que nunca tinha enfrentado e, com isso, a crescer.
Mariana Cardoso defende mais histórias e papéis para mulheres no cinema
Foto: Luis Fonseca / Máxima
Tens quase 23 anos. Passaram cinco anos entre o primeiro casting e este momento. Um coming of age cinematográfico e real. Sentiste que também tu foste crescendo com a personagem?
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Sinto mesmo que as coisas acontecem quando têm de acontecer. Quando finalmente fiz o filme, pensei: ainda bem que só aconteceu agora. Na altura em que fiquei com o papel ainda não tinha muita experiência no audiovisual. Entretanto passei por vários projetos antes de gravar. Até fiz de atleta, noutro projeto, com uma personagem completamente diferente.
Sinto que tudo isso me preparou para chegar aqui e olhar para a Maria de outra forma. Também me ajudou a encarar melhor o próprio processo de filmagem - viver fora sozinha durante dois meses, liderar de certa forma uma equipa com pessoas muito mais velhas do que eu e num meio maioritariamente masculino. Quando chegou a altura, já tinha mais calma e mais confiança. Consegui aproveitar muito mais o processo e não estar sempre tão ansiosa.
Isso também se cruza um pouco com a história da personagem. Ela está a tentar vingar num meio masculino e tu também.
Completamente. A Maria está rodeada sobretudo por homens. O melhor amigo é um rapaz e ela joga numa equipa de futebol masculino porque, no interior, não existem equipas femininas. No filme é o último ano em que ela pode jogar com os rapazes; depois terá de procurar uma equipa feminina, possivelmente na capital.
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Depois há também o pai, o irmão… e a ausência da mãe, que morreu. Isso pesa muito na vida dela. Por isso tenho muita empatia pela Maria e pelo que ela atravessa.
Para ela há também a pressão de ter de ser a melhor. Começar uma carreira no cinema tão jovem traz mais entusiasmo ou mais medo?
Tive muita sorte porque tenho uma família, especialmente a minha mãe, que acredita em mim cegamente. Desde pequena cresci com a ideia de que posso fazer o que quiser. Nada disto foi um choque para nós. Sempre soube que queria fazer isto e tenho objetivos muito grandes para a minha vida.
Acredito muito que aquilo que quero vai acontecer. Só não sei exatamente como nem quando. Acho que esse foi o maior choque de crescer: perceber que as coisas não acontecem com a rapidez que imaginamos quando somos crianças. Às vezes não é por um caminho, é por outro. A minha maior aprendizagem tem sido aceitar que não controlamos o futuro.
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De não controlarmos nada.
Exatamente. Acho que ninguém controla nada. E os atores vivem muito com essa consciência, porque entras nesta profissão e não sabes mesmo o dia de amanhã. Literalmente não sabes. É um choque no início, mas com o tempo fui ficando cada vez mais tranquila com isso. No final, de uma forma ou de outra, as coisas acabam por se resolver.
Qual foi o maior desafio ao dar-lhe corpo e voz? Houve alguma cena ou conflito da personagem que tenha tocado de forma inesperada?
O futebol, sem dúvida. Eu sabia que ia ser difícil, mas não imaginava o quanto, sobretudo a nível mental. Treinei em condições meteorológicas bastante exigentes e foi duro. Eu gosto de desafios e sou perfeccionista, mas foi mesmo puxado.
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Ao mesmo tempo, foi através do futebol que consegui encontrar a personagem. Foi aí que comecei a perceber melhor o estilo de vida dela e a coragem que tem. Para defender uma bola é preciso muita coragem para te atirares. O corpo tende a proteger-se — pões o joelho, o braço — mas isso pode até fazer-te magoar mais. Um guarda-redes tem de confiar e atirar-se completamente, cair estatelado no chão.
Tive de aprender isso e de ganhar uma coragem que não era necessariamente minha. E percebi: esta pessoa é muito corajosa. Eu talvez não seja tanto, mas ela é.
Atriz Mariana Cardoso protagoniza "Maria Vitória" no cinema
Foto: Luis Fonseca / Máxima
Mas acabaste por ser.
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Tive de ser por ela. E foi nesse processo que comecei realmente a perceber a personagem. Porque ter uma bola a vir contra ti é assustador. E dói. Eu fiquei cheia de nódoas negras, estava toda preta de lado. Foi aí que percebi a coragem que estas raparigas têm. Não só no futebol, mas em qualquer desporto, especialmente num meio tão masculino.
Como foi o teu processo de criação da personagem? Falaste com jogadoras?
Sim. Treinei no Estoril Praia com a minha treinadora, a Sara, que também treinava equipas sub-19 e sub-17. Fui ver alguns treinos delas e tentei observar sobretudo as relações entre elas - como se comportavam, como comunicavam. Para mim o futebol era importante, mas interessava-me muito perceber as pessoas.
Falei com várias miúdas, tive conversas com elas. E também ajudou o facto de eu própria ter sido atleta de alta competição em trampolins. Não tem nada a ver com futebol, mas ajudou porque já conhecia aquela mentalidade. A disciplina, o foco, a forma de viver.
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Além disso, o meu pai trabalha na área do futebol. Cresci muito nos campos do Sporting, em Alcochete. Na altura nem ligava muito, mas percebo agora que essa realidade sempre esteve próxima de mim.
Ainda existem muitos preconceitos sobre mulheres no futebol. Também quiseste contrariar isso?
Foi muito interessante conhecer as atletas do Estoril. Falámos bastante sobre esses estereótipos. E depois via miúdas com cabelo comprido, fitas, unhas pintadas de rosa… super femininas.
Eu nunca tive muito esse preconceito porque conheço o mundo do desporto. Mas foi interessante ver de perto como o desporto não define a tua feminilidade.
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No caso da Maria, acho que é diferente. Não diria que ela é masculina, mas que ainda não se encontrou. Cresceu sobretudo com o pai e o irmão, usa muitas vezes roupas que provavelmente eram deles, e não tem muitas referências femininas na vida. As poucas que tem, observa à distância.
Por isso há ali uma certa masculinidade que vem do ambiente. Mas acredito que, quando começa a descobrir-se - há uma cena em que está ao espelho depois de ser maquilhada pelo irmão - percebe que há um lado dela que sempre esteve lá. Acho que a própria Maria tinha preconceitos consigo mesma sobre o quão feminina podia ser.
O filme mostra uma rapariga com fragilidades. Não é uma figura feminina idealizada. Isso foi importante para ti?
Sendo honesta, quando estamos a começar não temos muito poder de escolha sobre os projetos. Mas tive muita sorte, porque mesmo que pudesse escolher teria querido fazer este.
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É muito raro haver protagonistas jovens femininas no cinema português. Quando fiquei com o papel senti mesmo que talvez nunca mais me acontecesse algo assim. Pensei: isto deve ter sido um erro, não sei como tive esta sorte.
Estive sempre muito consciente disso e muito grata durante todo o processo. E recebi muitas mensagens de outras atrizes e amigas que ficaram felizes por mim. Senti mesmo que, mesmo que fosse outra rapariga, eu também ficaria feliz. Porque significa que estamos um passo mais perto de haver mais histórias assim.
Mariana Cardoso protagoniza "Maria Vitória" e fala sobre força e coragem
Foto: Luis Fonseca / Máxima
Sentes que a experiência como atleta também te deu uma mentalidade mais coletiva?
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Sim. Entrei nesta área com essa mentalidade e continuo com ela. Acho que há espaço para toda a gente. Quem trabalha e quer realmente fazer isto tem lugar.
Quando outra atriz fica com um papel que eu não consegui, não penso “porque é que ela ficou?”. Posso pensar que gostava de o ter feito, claro, mas fico genuinamente feliz. Somos todos diferentes. Mesmo duas pessoas parecidas têm uma energia e uma estética completamente distintas.
Não vejo isto como uma competição. Já vivi a competição no desporto e a arte não funciona assim. Não há primeiro nem segundo lugar.
A arte tem também um papel político.
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Para mim a arte é política e sempre será. Quando temos uma plataforma, acho importante deixar claras certas coisas sobre aquilo em que acreditamos. Mas sinto que é sobretudo através dos projetos que consigo transmitir isso.
Tenho muita consciência do impacto que a arte pode ter nas pessoas. Por isso sou cuidadosa com aquilo que faço e digo. Mesmo quando estou num projeto e aparece algo com que não me identifico, procuro falar com a equipa, questionar, perceber por que razão aquilo está no texto.
Claro que uma personagem pode fazer coisas com as quais eu não concordo — pode ser uma vilã, por exemplo. Mas tem de haver uma razão narrativa para isso.
E sentes que esse questionamento é bem aceite?
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Acho que é um processo. Muitas vezes sou a pessoa mais nova nos projetos e trabalho com realizadores de gerações diferentes da minha. Às vezes há desafios, mas eu gosto de abrir esse diálogo. Não tento impor nada, mas gosto de questionar.
Às vezes o diálogo traz discórdia, mas isso também pode ser positivo. Significa que há reflexão e crescimento. Prefiro isso a sentir que estou a fazer algo com o qual não me identifico.
Que pergunta gostarias que ficasse a ecoar em quem sai da sala depois de ver o filme?
Acho que o filme faz um retrato muito bonito do interior do país, que muitas vezes é esquecido. Eu sou da cidade e tinha receio de não conseguir representar essa realidade de forma justa. Mas temos recebido um bom feedback.
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Falamos também muito da questão dos incêndios e de como certas regiões são menos cuidadas. Foi um tema que quisemos abordar com sensibilidade.
Além disso, trabalhámos muito com as comunidades locais durante as filmagens. Muitas coisas vieram diretamente das pessoas dali — carros, roupas, objetos. Almoçávamos nas aldeias e acabámos por criar uma relação muito próxima com aquelas pessoas. Quando fomos embora até organizaram uma festa de despedida. Por isso espero que o filme também ajude a chamar a atenção para essas zonas menos centrais.
E claro, para a questão das mulheres no desporto e na família. O nome Maria Vitória é também uma homenagem à mãe do realizador, que faleceu há muitos anos. De certa forma, o filme é uma homenagem a ela e a muitas outras mulheres.
Mariana Cardoso fala sobre papéis no feminino e a evolução nas histórias
Há pouco falavas da mentalidade das atletas. A que te referias exatamente?
À disciplina e ao foco. É uma forma muito particular de viver. Os artistas também têm isso. O desporto e a arte partilham essa crença quase cega num objetivo muito claro.
Reconheci essa mentalidade imediatamente, porque também existe em mim.
Quais são os próximos projetos a sair?
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Tenho alguns. Um deles é o filme Memórias do Cárcere, realizado por Sérgio Graciano e produzido pela Leopardo Filmes. É inspirado no livro de Camilo Castelo Branco e acompanha a história dele e das pessoas que conheceu quando esteve preso.
Também vai sair a série Cara a Cara, da RTP, realizada por Fernando Vendrell e produzida pela David & Golias. É uma série política.
E pronto, tudo o resto acho que ainda não posso dizer.
Créditos
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Fotografia: Luís Fonseca
Styling: Tita Mendes
Cabelos: Raquel Ribeiro, com produtos Hair Rituel by Sisley
Maquilhagem: Inês Abreu Lima, assistida por Marlene Santos, com produtos Sisley Paris