Entre espelhos e intenções. A Máxima com Matilda, nos bastidores do lançamento de “Meu Norte”
Cantar sobre sentimentos? Obviamente cool.
Em plena Calçada da Estrela, numa das poucas zonas da cidade onde ainda é possível, aqui e ali, vislumbrar a Lisboa de outros tempos, abriu um espaço que, aos olhos do transeunte distraído, talvez pareça mais um estúdio de yoga, pilates e afins. Mas o transeunte engana-se. É natural, afinal, vai a pensar na vida. O que vê, na verdade, pelo canto do olho, é o novo Aimara Studio, um espaço de fitness e bem-estar que nasceu para ser um refúgio para a comunidade surfista, mas acolhe, no seu espaço tranquilo e intimista, todos quantos tenham (ou queiram vir a ter) uma ligação à natureza com práticas de outdoor, seja surf, esqui, escalada, caminhada, corrida, natação em mar aberto ou outras. O sonho de Niccolo Bagarotto, fundador do espaço, é ter saúde e força para surfar para lá dos 80 anos. Um sonho que partilha agora com a comunidade do Aimara Studio.
Como todos os surfistas, Niccolo, um jovem italiano conhecido por Nico, veio para Portugal atrás das ondas. Em conversa com a Máxima, conta que em 2013 esteve alojado num retiro perto de Óbidos, e que foi aí que nasceu o desejo de abrir um ginásio para as pessoas fazerem yoga e praticarem atividades saudáveis, mais orientadas para o surf que, de acordo com Nico, é um desporto muito exigente. Não obstante, nunca conheceu um espaço focado na recuperação e preparação destes desportistas. E, no entanto, talvez haja uma razão para isso. É que os surfistas não se contentam com qualquer coisa: “Normalmente, são pessoas que não gostam de lugares fechados, de ginásios caóticos, com muitas pessoas, então criámos um espaço muito calmo, inspirado nos elementos da natureza”, explica.
O espaço verdadeiramente acolhedor do Aimara Studio está dividido em três áreas: o ginásio, o spa e a juicery, onde as pessoas podem fazer refeições leves e saudáveis, ou beber sumos e smoothies feitos no momento (mais sobre isto daqui a pouco). Nico leva-nos numa visita guiada: “Temos um ginásio funcional, onde decorrem aulas de musculação e de conscious training, que consiste na utilização de pesos de forma consciente, e também, aulas de mobilidade. E temos um barefoot studio, que é onde fazemos as aulas de corpo livre, como yoga, pilates, aulas de respiração, de meditação. Temos entre quatro a seis aulas diárias, com máximo de oito pessoas, então são aulas muito íntimas, as pessoas conhecem-se, o professor sabe o nome de cada uma. Temos uma aula de flow, de dança, uma aula de preparação para o surf. E a ideia é estarmos sempre a trazer coisas novas, nunca deixar o nosso praticante parar de aprender. Além disso, temos uma área de spa, com uma sauna e algumas banheiras de gelo com temperaturas diferentes, e temos aulas de contrast therapy, ou seja, banheira de gelo e sauna com respiração”.
Foi tudo pensado ao pormenor para encaixar na filosofia de Nico, que acredita que “o ginásio não é só um lugar para ir levantar pesos, é também um lugar para a pessoa se ir encontrar, respirar, ter um momento de cuidado”. O fundador do Aimara Studio está particularmente orgulhoso de uma área do seu espaço: “Gosto de dizer que a nossa sauna é uma experiência única, desde a música, à iluminação, é uma experiência transformadora, onde as pessoas são incentivadas a não falar, mas a sussurrar, se necessário, porque não é a lógica da sauna social. E, de facto, as pessoas sentem que é um lugar emocionalmente profundo”, conta.
Acima de tudo, Nico confessa que o seu objetivo pessoal – e que quer partilhar através do Aimara – é “continuar a fazer surf para lá dos 80 anos. Até porque,” pergunta, “se eu não fizer surf vou fazer o quê com a vida?” Curiosamente, foi precisamente numa fase em que esteve impedido de praticar a modalidade que a ideia do Aimara foi ganhando corpo. “Parti o joelho e tive de ficar dois anos fora da água, mas tive a sorte de encontrar uma fisioterapeuta incrível que me ajudou imenso. Foi assim que percebi o quanto a musculação e a preparação são fundamentais para preservar o corpo e poder surfar durante muitos anos.” A pergunta que Nico faz a si próprio todos os dias, e que recomenda que todos façam também é: “O que é que eu estou a fazer hoje para assegurar que vou ter um corpo saudável, uma cabeça saudável quando tiver 80 ou 90 anos?”
E como o sonho de criar o Aimara surgiu entre uma onda e outra, nada mais natural do que agarrar na sua comunidade e levá-la rumo à natureza. É costume, por isso, terem aulas ao ar livre, fazerem caminhadas, e, no final de Abril, vão fazer um retiro de surf nas Maldivas. “Mas não é só a paixão pelo surf que nos impulsiona”, esclarece Nico, “é o respeito pela natureza, e a paixão pelo desporto de outdoor. Já fizemos trilhos, viagens de escalada. O que mais nos chama é criar linhas na natureza, seja numa onda, na neve, numa parede.” Tudo muito entusiasmante, sem dúvida, mas há um reverso da medalha: “Os escaladores têm problemas de artrite, surfistas têm hérnias nas costas, esquiadores têm problemas nos joelhos. São desportos que exigem muito. E, pessoalmente, nunca vi um centro criado com o sonho de ajudar estes atletas.”
Havendo tantas diferenças entre o Aimara Studio e as centenas de outros ginásios que se multiplicam como se fossem cogumelos – com personal trainers a gritar ordens e incentivos, música em altos berros e iluminação digna de uma sala de autópsias –, também aqui a inscrição é diferente. Afinal, isto é mais uma comunidade para pessoas que partilham os mesmos valores e formas de estar, e menos um sítio para ganhar músculo. A adesão é possível mediante um pagamento mensal de 195 euros, que inclui acesso a todos os serviços, bem como uma consulta privada com o fisioterapeuta, onde é discutido o histórico médico e os objetivos de saúde e bem-estar da pessoa. Mas não é só isso. Antes de chegar a esse patamar, a pessoa tem de defender o seu caso, digamos assim, explicando por que razão quer fazer parte desta comunidade e, claro, falar sobre a sua ligação à natureza e às práticas outdoor.
Nico garante que este processo não está relacionado com elitismo ou exclusividade. “Foi a forma que encontrámos de criar um ambiente que sabe a casa. Todas as pessoas que aqui vêm vão sentir que são amigos ou vão tornar-se amigos, e isso é o benefício de ter um lugar pequeno, com um processo selectivo, onde as pessoas contam um pouco mais sobre o motivo de querem fazer parte do Aimara.” Para já o espaço conta com 200 membros, e Nico diz que não quer ultrapassar a marca dos 300. “Vemos que, nas horas de pico, oito, nove da manhã, temos cerca de 10, 15 pessoas ao mesmo tempo, mas depois o ginásio fica muito vazio, as pessoas treinam sozinhas, temos duas salas com espaço para as pessoas fluírem, para se sentirem tranquilas. E é isso que nós queremos”, conclui.
Antes de sairmos, fomos gentilmente encaminhados para a juicery. Afinal, seria impensável sairmos daqui sem experimentarmos esta componente da filosofia da Nico. “A juicery tem um menu super funcional, com bebidas e comidas pré-workout, pós-workout, pré-sauna, pós-sauna. O chef vai aprendendo os nomes e gostos de cada pessoa e vai personalizando as receitas que faz para cada um.” Enquanto terminamos a conversa, vamos bebericando um delicioso sumo, feito diante dos nossos olhos, com gengibre, curcuma, laranja, cenoura e – imagine-se – pimento vermelho. “Para afastar as constipações”, dizem-nos. Já a caminho da porta da rua, Nico despede-se com esta a pérola de conhecimento, que podia sair da boca de uma avó siciliana de 96 anos: “Hoje fala-se muito de longevity studio, biohacking, formas pouco convencionais de quebrar os nossos padrões de envelhecimento. Eu não acredito em nada disso. Acredito que a luz do sol, dormir bem e boa comida são a base de um bom envelhecimento.”