Cleo Diára. "O cabelo de uma mulher negra pode transformar-se em muitas coisas."
É a primeira atriz negra portuguesa e cabo-verdiana no Shooting Stars, o programa de talentos em Berlim que liga jovens atores europeus aos grandes nomes da indústria, depois de ter sido distinguida no Festival de Cannes. À Máxima, revela como a moda a ajuda a contar a sua história.
Cleo Diára, atriz portuguesa e cabo-verdiana, destaca-se no Shooting Stars em Berlim
Foto: Getty Images19 de fevereiro de 2026 às 17:24 Patrícia Domingues
"A moda representa muito a nossa identidade. É algo muito pessoal. No meu ponto de vista, a moda está muito ligada a como me sinto emocionalmente. Por isso, vai variando: depende do dia, depende de como me sinto.
A minha relação com o vestir nasceu e cresceu dentro de casa, através da minha mãe, Maria da Luz, que sempre gostou de se vestir bem - e de nos vestir bem. Lembro-me dela pensar com cuidado no que eu e a minha irmã, Cleida, iríamos usar. Pode-se ver isso claramente nas fotografias de infância: as meias eram importantes, os sapatos eram importantes, o vestido era importante. A moda não é algo exterior a mim, mas algo que encontrei em casa e que me acompanha como forma de me apresentar e expressar ao mundo.
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Cleo Diára brilha no Shooting Stars, programa de talentos em Berlim
Foto: Harald Fuhr
Confesso que a questão da aparição pública ainda é algo que estou a trabalhar. Venho do teatro, não de uma exposição mediática muito comercial ou massiva, mas com o filme e também com o prémio veio esse mediatismo. Como lido com isso? Tento proteger-me, rodear-me de amigos e de pessoas que me lembram quem eu sou e por que faço isto. Para mim, o mais importante é o trabalho, aquilo que me proponho a fazer. E, então, acho que é sobre isso: sobre conectar com aquilo que nos traz à nossa essência, que nos permite não esquecer quem somos. O meu trabalho é como qualquer outro; apenas escolhi ser atriz.
O look para uma aparição numa red carpet tem de nos representar. Sei que parece cliché, mas só conseguimos usar e sustentar aquilo que nos representa. Lembro-me de uma designer de moda, a Angela Brito, ter-me dito que eu tinha de vestir a roupa, e não que a roupa me vestisse. Levo sempre isso comigo.
Cleo Diára no Shooting Stars em Berlim, atriz revela a importância da moda
Foto: Getty Images
A Zendaya é definitivamente alguém que adoro ver em todas as passadeiras vermelhas. Também admiro muito a Marina Rui Barbosa e a Taís Araújo. Levam sempre looks no ponto certo, com todos os detalhes. São as minhas maiores referências.
O resultado final dos meus visuais deve-se, em grande parte, à minha stylist, a Druca. Ela cria o moodboard e, como já me conhece, vamos entendendo a partir dos eventos o que queremos apresentar e como. Isso passa pelo cabelo, pelas joias, pelas roupas. Gosto de arriscar; não gosto de nada que pareça simples ou muito 'normal'. Preciso sempre de sentir que há um toque especial, um styling, que eu estou dentro daquele look.
Cleo Diára destaca-se no Shooting Stars em Berlim, impulsionando jovens talentos europeus na indústria cinematográfica
Foto: DR
O styling começa pelo cabelo, que também é uma ferramenta e uma forma de me apresentar ao mundo. Estilos diferentes trazem várias possibilidades e, para mim, esse trabalho também é uma forma de honrar a minha ancestralidade, mostrando que o cabelo de uma mulher negra pode transformar-se em muitas outras coisas. A maquilhagem é normalmente mais neutra, porque quero realçar o cabelo e levar a minha ancestralidade comigo.
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Aproveito a red carpet para mostrar ao mundo de onde venho e quem trago comigo. Existe sempre a reflexão sobre que designers usar e qual cabelo escolher. Tenho tido a sorte - e quero deixar aqui o meu agradecimento a todos os criadores que me têm dado a oportunidade de colaborar - porque, sem eles, habitar esse espaço seria muito mais difícil.
Eu, enquanto pessoa, vejo-me sempre rodeada de outras pessoas. Não me considero alguém sozinho ou individual. Tenho amigas que me ajudam a pensar, tenho a minha stylist, tenho a minha família que contribui na criação ou na escolha dos looks. Para mim, ocupar estes lugares é afirmar quem sou e com quem estou. É honrar aqueles que vieram antes de mim e que talvez merecessem estar numa red carpet e não conseguiram. Somos muitas e muitos nas red carpets. Obrigada a quem abriu caminhos e obrigada à Máxima pela oportunidade desta conversa."
Cleo Diára brilha no Shooting Stars em Berlim, promovendo talento e moda
Foto: DR